Iara

Camila, finalmente descobri o lado bom da escola… O lado de fora…
(Iara, 12 anos)

Pelas voltas que o mundo dá, tenho tido a sorte de estar com Iara lá em casa a cada 15 dias… Ela vai com seu irmão de 8 anos passar o fim de semana com o pai (um amigo querido), que vem de longe para encontrá-los. Lembra muito meu próprio pai, na época em que passávamos horas na Linha Vermelha <de um coração apertado> que cortava a casa da minha mãe e a dele ao meio.

Se bem que não tive tanta sorte quanto Iara, que nasceu no alto duma montanha verde, dormia entregue em cima das pedras quentes, pisava, cheirava e sentia a terra antes mesmo de falar. Eu fui atrás da terra que faltava em mim quando já estava quase decolando pelo excesso de ar que meu terceiro setênio disparou…

Iara e eu nos encontramos nesse pedaço de terra por há-caso, nos encontramos no fogo da lenha cantada com tambor, na água fria do lago de inverno, no ar dos galhos das árvores que ela abraça como quem sente saudade há muito tempo...

Tenho sorte que o há-braço de Iara abraça gente também. Abraça a menina que existe em mim, e que fala direto com a menina dela. A gente respira aquelas folhas balançando e se conecta com nossos pais e nossas mães, que criaram raízes por baixo daquele chão, por baixo da nossa pele, por baixo das linhas vermelhas que nos cortam e nos juntam os pedacinhos.

Iara está viva como um rio, sabe muito bem contornar e seguir… Sabe porque sabe lá no fundo… Sabe porque, simplesmente, já sabe. Sabe porque a terra ensinou quando ela tinha olhos e ouvidos de criança pequena, que ouve os segredos da água e seus contornos. Iara sabe que isso ela não vai aprender na escola… Porque na escola "tem só uma árvorezinha e a gente nem pode subir…" Iara sabe, e eu vou aprendendo que já sei também…