Reflexões sobre o sistema educacional

Esses dias vi um post no Tumblr onde uma menina contou sobre um sonho onde ela estava atrasada pra escola e seu pai estava gritando com ela. A menina acordou assustada mas se lembrou: “ah, hoje é sábado” e voltou a se deitar. De repente ela se levanta e lembra: “Pera. Eu tenho 31 anos”. Esse post gerou uma discussão sobre como os tempos de escola geram um certo trauma que tem repercussões até muitos anos depois que uma pessoa passou pela experiência escolar.
Estou lendo “Dirigindo com Platão — O significado dos marcos da vida”. Nele existe um capítulo dedicado à realização de provas/exames:
Quando se trata de exames, você nunca pode ser testado “de acordo com seus conhecimentos”, mas apenas de acordo com sua capacidade de armazenar temporariamente um modesto arsenal de saberes. Realmente, o fato de continuarmos a esquecê-lo insinua que o conhecimento jamais nos penetrou o suficiente para definir-nos…Deixando a sala de testes pela última vez, você já terá esquecido alguns dos principais dados que, na noite anterior, haviam sido revisados com tanta persistência e que, naquele momento, eram tão vitais para o seu futuro.”
Esses dois elementos me fizeram refletir sobre a experiência de estar inserido no sistema educacional. As características, os traumas e as peripécias desse sistema desacertado que influência tanto nossas vidas.
Olhando para meus tempos de colégio, vejo o quanto o sistema é projetado para fazerem os alunos não gostarem de aprender. Aprender não deveria ser visto como uma coisa chata, massante, que só serve para gravar uns conteúdos a fim de responder as questões de uma prova. Durante meus anos pós-escolares me deparei com vários tópicos que me foram introduzidos no colégio e acabei os achando interessantes, sendo que na época eles eram percebidos por mim como monótonos e insuportáveis. Aprender deveria ser visto como algo maravilhoso e interessante. Porém, o modo impositivo como esse conhecimento é passado faz com que o indivíduo perca o prazer em aprender.
Também vejo como esse sistema cria ansiedade e sofrimento na vida dos que estão inseridos nele. A constante pressão por resultados (que se mostram através das notas), a imposição de comportamentos padronizados e supressão da criatividade geram pertubações, que em maior ou menor grau, terão reflexos por anos e anos na vida do sujeito.
Somos ensinados a apenas engolir o conteúdo sem questioná-lo. Somos encorajados a seguir um padrão e não pensar em novos jeitos e soluções para os problemas (falo sobre isso aqui). Isso limita nossa visão e faz com que fiquemos extremamente despreparados pra enfrentar a realidade. Os problemas da nossa vida não são como os problemas de matemática, que possuem um método definido para serem resolvidos. Os problemas da vida real possuem mil variáveis que exigem um pensamento crítico e criativo. E isso não fomos instruídos a ter. O resultado disso são jovens totalmente perdidos e despreparados para a vida prática.

Na faculdade o panorama piora. Além da constante pressão por resultados, há a incessante competição com colegas, afinal logo eles estarão concorrendo conosco nessa selva que é o mercado de trabalho. Há uma grande atrelação do valor do sujeito ao possível valor que ele terá no mercado. Existem as infindáveis tarefas, provas, projetos e trabalhos que o aluno precisa realizar para passar nas matérias e conseguir o desejado diploma. Também há o abuso de poder, subjugação e terrorismo por parte do corpo docente. Como consequência, nessa fase, distúrbios psicológicos surgem ou são exacerbados.
Quando penso em ingressar novamente nesse sistema, fico me perguntando: como se manter nele sem ir a loucura? Como se manter são nesse contexto ? Realmente não sei. Esperar que o sistema educacional mude de uma hora para a outra está fora de questão. As mudanças geralmente acontecem de forma lenta. No caso do Brasil, essas transformações seriam um processo demasiadamente lento e nem sempre poderíamos contar que as melhores decisões seriam tomadas. Logo, a única solução imediata é a consciência.
Ter consciência que o sistema é falho. Consciência de que os mecanismos desse sistema abalam a nossa psique e nos induzem a pensar de certa forma. Consciência para não cair na armadilha de se achar fraco ou incapaz por não conseguir atingir os patamares estabelecidos pelo sistema. Autoconsciência também é necessário para que tenhamos entendimento de que notas não definem nosso valor, para conhecer nossos limites e para buscar o equilíbrio entre vida acadêmica e vida pessoal.
Sem contar que está ocorrendo uma revolução no aprendizado, não no sistema de ensino. Cada vez mais surgem ferramentas de aprendizado online, entre cursos, tutoriais e aplicativos. Com isso, cada vez mais pessoas estão usando esses instrumentos para aprender a mais diversa gama de assuntos, desde linguagens de programação à maquiagem. Hoje o indivíduo pode escolher que curso atende às suas necessidades, sem precisar se respaldar em cursos formais.
Com isso, espera-se que processo de aprendizagem fique mais customizado, com cada pessoa decidindo o que deseja estudar. Também espera-se que haja um despertamento das instituições de ensino para essa nova realidade e a consequente adequação à mesma. Assim, tem-se a esperança que a conjuntura geral mude e os alunos possam desfrutar de uma educação mais saudável e que traga de volta o prazer em aprender.
