De Chisaki para Eri: “você é uma criatura amaldiçoada” e o julgamento da sociedade com poderes

Sabem as falas que o Chisaki dirige pra Eri no começo do capítulo 151? Olhando bem, elas significam mais do que “Chisaki é um vilão filho de uma quenga sem coração”.

Ele fala basicamente o seguinte: “Quantas vezes eu preciso dizer até você entender? Você nasceu para destruir pessoas. Eu estou sempre repetindo: toda vez que você age de uma maneira egoísta eu preciso sujar minhas mãos. Todas as suas ações são destinadas a matar pessoas. Você é uma criatura amaldiçoada.

Ele está se esfregando desse jeito para limpar uma quantidade minúscula de sangue.

Em nenhum momento ele fala o nome da Eri. É sempre “você” e se você imaginar isso como um monólogo em pensamentos, fica ambíguo se o Chisaki está falando dele mesmo ou da Eri — e sim, isso é proposital.

Curiosamente, ele fala a mesma coisa sobre sujar as mãos no capítulo 129, mas de uma maneira bem mais gentil — quase como um pai falando com a filha, por mais irônico que pareça.

Chisaki não está falando só da Eri aqui. Ele está falando de si mesmo e se projetando na menina. Praticamente todas as frases são afirmações, todas extremamente negativas e relacionadas a destruição, dor, sofrimento e sobre ser uma pessoa “destinada” a tragédia por onde passa. Uma pessoa que, quando age em interesse próprio, “suja” as mãos tanto dela quanto de outras pessoas.

Está mais do que claro que o Chisaki detesta sujar as mãos. Ele usa luvas, quando se limpa sempre se esfrega na roupa e nunca na pele, e ele tem uma aversão a germes e a tocar nos outros. Nessa luta com o Mirio, ele até preferiu tentar matá-lo com um ataque a longa distância talvez até pra não se sujar, já que ele odeia ficar sujo — tanto de maneira metafórica quanto literal.

Sendo assim, fica ainda mais óbvio que Chisaki odeia usar o quirk. Ele tem, sim, um certo nível de controle, e ele aparentemente é imune ao próprio poder — a cicatriz na testa dele só apareceu depois da luta contra a Liga no capítulo 125, e ele não tentou usar o poder na própria pele pra que ela voltasse ao que era antes. Portanto, isso prova que ele não é totalmente intocável (até porque o Mirio já deu golpes físicos nele) e que seu corpo pode sofrer modificações permanentes, sejam por sua vontade (como os brincos que ele usa, piercings e tatuagens, que ele pode ter por ser yakuza) ou não.

Isso é extremamente irônico porque o poder do Chisaki é sobre modificação de tudo ao seu redor, desconstruir e reconstruir — mas ele como pessoa não pode voltar a ser quem era antes. Eri pode destruir os poderes ao seu redor, mas não pode fazer com que tudo volte a ser como era em seu estado original.

O nome e o rosto que ele deixou escondidos no passado que abandonou.

Talvez até justifique o uso da máscara que ele só adotou depois de entrar pra yakuza, que evoluiu pra uma de médico da peste — uma figura conhecida por levar a dualidade de morte e cura, como o Chisaki e seu poder que pode curar e destruir pessoas. O uso de máscaras em BNHA não é por acaso, pois vários personagens a usam por motivos diferentes, e a do Chisaki pode possuir não apenas esse simbolismo como também para esconder algo em seu rosto que ele não pode alterar: uma cicatriz, uma mutação, alguma marca derivada de seu passado que ele deixou para trás junto com o nome Kai.

Chisaki, portanto, acredita que está sempre tendo que sujar as mãos quando age por si mesmo. Em seu próprio plano de restaurar a yakuza ele está sujando as mãos. Suas ações estão gerando mortes, dor, confusão e violência, e estão fazendo uma garotinha sofrer — não uma garotinha qualquer, uma garotinha parecida com o que ele foi quando criança. Ele tem noção disso e ele carrega toda essa responsabilidade, mesmo sabendo que é errado.

E ele não fala que pode refazer a Eri apenas por maldade, mas porque é conveniente ao momento — o que não quer dizer que ele queira de fato ficar abusando da menina, já que ele é uma pessoa extremamente pragmática. Chisaki não usa seu poder de forma inconsequente como normalmente se esperaria, ele reconhece e detesta o peso dele.

Por fim, ele ainda fala que “você é uma criatura amaldiçoada”. A maldição, obviamente é ter um quirk que só causa desgraça. No mundo de BNHA ainda há muita hipocrisia e muito pensamento preto no branco sobre poderes “de herói” e poderes “de vilão”.

Curiosamente, essa questão de ser amaldiçoado ou abençoado por conta de seu quirk foi levantada lá atrás pelo Shinsou, que cresceu ouvindo que ele tem um poder “de vilão”.

Na luta contra o Deku ele fala: “Mas mesmo com um quirk como o meu, eu ainda tenho sonhos. Não há atalho pro sucesso para alguém como eu, não com esse quirk. Mas não é como se alguém abençoado como você seria capaz de entender. Não, pessoas como você que nasceram com quirks perfeitos, nunca entenderiam!”

Shinsou literalmente só não se tornou vilão porque viveu em um ambiente decente, provavelmente teve um bom acompanhamento da família, e tem um objetivo claro em mente.

Chisaki, por outro lado, não parece ter tido a infância mais fácil e certamente deve ter sofrido e feito outras pessoas sofrerem — até mesmo sem querer — por conta do seu poder. Sabe se lá o que ele pode ter ouvido, o que entrou na cabeça dele e ele pegou como certo.

“Crianças são difíceis de entender. Me faz pensar que eu posso virar uma pessoa muito diferente.”

Para Chisaki, pessoas “amaldiçoadas” como ele não possuem lugar na sociedade, e ele vive vendo pessoas com poderes “de vilão” virando vilões. Sua vida depende do seu quirk, esse sistema é injusto, e ele foi amaldiçoado quando nasceu, assim como a Eri. Ele viveu uma vida inteira reforçando essa ideia na sua mente e agora ele está passando isso para a Eri porque ela é uma criança que lembra ele mesmo, em circunstâncias parecidas com as dele. Literalmente, ele está dizendo pra Eri desde cedo que o mundo é injusto para eles e que ela precisa aprender seu lugar para sofrer menos.

“Não tenho culpa do que quero ser”.

Isso é muito triste, de verdade. Todo quirk pode ser usado de várias maneiras, tanto para o bem quanto para o mal, mas o julgamento social ainda é muito pesado e é por isso que pessoas como Chisaki se tornam vilões. Se ele tivesse levado uma vida melhor, quem sabe ele não seria um herói de resgate, um médico, uma pessoa capaz de usar o seu poder para o bem de outras pessoas da maneira certa?

Infelizmente, pra ele, isso não aconteceu. Mas pode ser que com a Eri seja diferente. Ela está crescendo com a nova geração de heróis que está chegando pra mudar essa e outras perspectivas da sociedade sobre heroísmo, então, quem sabe, teremos mais apoio para crianças “amaldiçoadas” por aí. Ao menos é o que eu espero.