A Odisseia do mundo contemporâneo.

De fato, Ulisses e os companheiros vão parar lá. […] Então, percebe que está vindo em sua direção a multidão formada pelos que não são ninguém, oútis, como ele pretendeu ser. São os sem-nome, os nónymnoi, os que não têm mais rosto, que não são mais visíveis, que não são mais nada. Formam uma massa indistinta de seres que outrora foram indivíduos, mas dos quais não se sabe mais nada. […] Eles não têm nome, não falam, é um barulho caótico.

Começo esse texto com um trecho da grande obra, de Jean-Pierre Vernant, O Universo, Os Deuses, Os Homens. Inclusive, vale muito meu merchandising. Esse livro me levou a lugares inimagináveis em momentos que eu mal conseguia me mover.

Essa passagem do livro, descrevendo uma parte das aventuras de Ulisses, parece, para mim, uma descrição dos dias atuais. Não estaríamos nós em um mundo permeado por oútis? Buscamos todos os dias definições de quem somos, para onde vamos e por que estamos aqui. Necessitamos nos definir, mas falhamos todos os dias.

Além disso, esse trecho parece explicitar todos aqueles seres que são renegados pela sociedade. Os que estão na rua, os que a mídia não alcança, os que sequer sabemos que existimos. Quando paramos para pensar que existem pessoas, como eu e você, que morrem de fome em vários lugares do planeta, ou que permanecem até hoje sem voz e sem rosto, escondidas em regimes ditatoriais retrógrados… Nos encontramos em uma realidade absurda, uma realidade em que a alteridade não é mais eficaz.

Ulisses, nessa parte da história, estava navegando em um mundo não humano, um mundo fora do oikoúmenos. Entretanto, não estamos nesse mundo, estamos no mundo habitado por homens — ou pelo menos é onde deveríamos estar.

Enquanto na Grécia Antiga, na Mitologia de milênios atrás, era preciso chegar em um mundo de esquecimento, habitado pelas mais horrendas criaturas para conhecer tais formas de vida — ou não-vida. Em nossa realidade, muitas vezes, só precisamos virar a esquina para alcançarmos esse mundo selvagem, um mundo onde existem seres sem-nome, sem-rosto, sem-vida… De fato, esquecidos por todos aqueles que dizem ser humanos.

Like what you read? Give Yan Augusto a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.