
— Arregaço.
— Ô.
— Vou com fome.
— Com força.
— E tu, Claudinho, ia não?
— Oi? Ah, fato!
Cláudio não sabia de quem estavam falando. Levava o copo de cerveja algumas vezes à boca. Metade delas não terminava em goles.
Que que eu tô fazendo aqui...
A noite era de "night" com os amigos. Momento de pegação, de contar até 5 ou 10. Cláudio contava quantas vezes ia ao banheiro. Ficava com uma mulher balada sim, baladas não.
Ria das piadas, se divertia com a bebedeira, e ainda assim se perguntava o que fazia mais uma vez naquele cenário. Cada noite acompanhava um receio interno de "sair zerado" e ser zoado por uma semana, como se zoa o torcedor do time rival que acabara de ser rebaixado.
Cada noite acompanhava um receio interno de "não sair zerado", de cumprir com a obrigação. Por mais que achasse nos momentos que todas as suas ficadas eram seus desejos, que eram resultados de uma troca legal, a dúvida permanecia.
Fiquei com ela só pra não ser zoado?
Uma constante provação de quão homem ele fora em cada dia.
Toda noite os pensamentos voltavam. Até serem interrompidos quando era chamado a responder.
— E tu, Claudinho, ia não?
— Oi? Ah, fato!
Quando olhou para o lado para entender quem foi o alvo dos comentários, sua atenção congelou. Não sabia ainda se era o cabelo crespo dono de si, ou o perfil, o máximo que via de seu rosto; o suficiente para mostrar a superioridade ao que acabara de acontecer.
Claudio soube que ali estava toda a atração que sentiria na noite. Tentaria não olhar, não parecer um stalker; avistaria o mundo vagueando pelo local. Seus olhos, no entanto, teimariam em encontrar a direção até ela. Em um desses momentos, os olhares se cruzaram. Uma fração de segundos antes de ele conseguir desviar a visão em direção ao banheiro, ao bar, à qualquer desculpa que encontrasse.
A partir daquele instante, a dúvida eterna daquela noite. Será? Ou era uma peça criada do desejo de sua mente? Olhares se cruzarem são a situação mais comum do mundo, e ainda assim sempre parecem a mais significativa.
Ele não soube se passaram-se dois minutos ou duas horas quando Tonhão veio conversar.
— Vi que você tá de olho no grupinho ali… Você se faz de santo, mas também não presta, não é Claudinho?
— Não, nada a ver… — tentava Claudio enquanto assistia a gargalhada que Tonhão dava.
— Seguinte, tô de olho na neguinha, vou lá e tu me dá uma força indo na amiga, já é?
— Quê? Pô Tonhão, não sei, tô de boa aqui…
— Ahhh, larga de viadagem Claudinho, vai fazer o quê, ficar aqui parado? Olha lá, o coxão da neguinha, olha isso. Porra, eu tenho que entrar ali hoje!
Claudio escutava isso noite sim, noite também. Era de praxe, ao mesmo tempo que soava chocante. Era chocante ser de praxe.
— Então cara, não tô na vibe hoje. Tipo, nem é jeito de se falar da menina né, brabo…
— Ihhh, lá vem esse papinho. Por isso que não pega ninguém, fica aí preocupadão com qualquer coisinha e sai zerado. Aí galera, Claudinho vai sair zeradão hoje de novo!
Pela segunda vez, ele não entendeu se passaram-se dois minutos ou duas horas. A chuva de zoações veio, com a agressividade etílica que toma conta da balada. O álcool também corria nas veias de Claudio, e foi se somando à frustração, à raiva.
Foda-se.
— Beleza Tonhão, bora lá.
A frase era a senha para transformar a zoação em comemoração. De repente, os gritos e caretas não humilhavam mais o garoto. Agora eram apoio, eram confirmação de que ele era parte do grupo.
Claudio não conseguiu segurar um sorriso.
A dupla seguiu o script. Foi ao bar, renovou os copos de cerveja e seguiu abrindo espaço em direção a seus interesses. Claudio tinha a esperança em um erro de cálculo, em uma chegada confusa que o pusesse mais perto da mulher que o encantara, ao invés da amiga.
Tonhão, no entanto, não era do tipo de dar chance para o azar. Andou e se posicionou de modo que não houvesse dúvida de quem ele buscava. Para Claudio, restou cumprir o papel que lhe fora designado.
Papel que exercia com a habilidade de um rinoceronte jogando vôlei.
Dessa vez, ele teve certeza. Não durou dois minutos. Foram despachados, e não por sua falta de jeito. Não foi necessário um “pedido de socorro” da amiga. Tonhão não tinha chance. A mulher que escolhera não era o que esperava. As táticas, charmes e intimidações foram inofensivos. Não era alguém em quem se projeta entrar até o fim da noite.
Enquanto voltaram para junto do grupo de amigos, as zoações se aproximaram, mas já não afetavam mais o garoto. Claudio estava internamente feliz. Para ele, esse insucesso de Tonhão provou alguma coisa sobre o mundo. Provou alguma coisa sobre Jussara. O nome dela, que ouvira de um relance atento demais, ficaria gravado.
As próximas horas fluíram leves: a música soou mais agradável, os amigos ora incômodos se tornaram borrões.
Claudio foi ao banheiro, capaz de ignorar até o intenso tráfego humano para chegar e retornar. Saiu com um sorriso bobo no rosto, calculou a melhor rota para retornar ao grupo e deu os primeiros passos. Sentiu de relance uma figura conhecida junto à parede. Foi quando ouviu a voz.
— Oi.
É a voz dela.
A última coisa que ele esperava da noite era outra interação com ela. Ou melhor, alguma interação. Também era a primeira coisa que desejava.
— Oi.
— Claudio, né?
— Isso… como você sabe?
— Bom, vocês vieram até a gente, lembra?
— Ah sim. Acabei escutando o seu nome lá. Jussara não é?
— Sim. Que amigo hein…
Claudio viu o sorriso em seu rosto, sem entender o que dizia. Não era alegria.
— Putz, olha, sinto muito por el…
— Tô falando de você.
Claudio não entendeu se a sensação era de tapa na cara ou de soco no estômago. Talvez fosse as duas coisas. A empolgação que começara a sentir tombou. O corpo buscou a parede como se fossem as cordas de um ringue.
— Olha, desculpa, não sei o que o Antonio te disse lá, ele só pediu para eu dar uma força, sabe como é.
— Não sei como é. Você sabe o que ele disse antes.
— Como assim?
— Passei o olho em você antes. Sei lá, me atraiu. — Claudio sentiu as entranhas se mexerem, sua respiração se encurtou. — Bonitinho até, mas como anda mal acompanhado. Passei pelo grupo de vocês e ouvi muito bem o “arregaço”.
E agora?
Claudio achou que Tonhão fora um babaca. Não o repreendeu. Agora, se repreendia.
— Olha, eu devia ter falado algo na hora. Foi muito ruim o que ele fez, eu peço desculpas por ele.
— E por você?
Claudio tentava alcançá-la, mas começou a senti-la mais distante a cada frase, como se correse atrás da lua.
— Como assim?
— Como eu disse, tô falando de você. Vi que ficou interessado em mim. Não gostei de ouvir as gracinhas deles, mas até deixei pra lá. Nem sempre estamos em boas companhias, né? Mas você acabou de dizer que o que ele fez é ruim. E mesmo assim, foi lá ser parceiro dele.
É, eu fui.
—Ouviu o cara falar que me arregaça, e foi lá ajudá-lo a me arregaçar. — seguiu Jussara. Claudio notou o aumento na entonação. Duas ou três pessoas em volta também.
É, eu fui.
Os próximos segundos se passaram em um flash; Claudio se lembraria e se arrependeria por muito tempo. Tentado a pedir desculpas, seu reflexo foi buscar a mão de Jussara com a sua. A mão dela escapou, subiu e se aproximou. Muito rápido. Um belo tapa. As três pessoas viraram 15, agora urrando bizarrices ou reclamando de serem empurradas pela onda. Bebidas caíram no chão, abrindo vãos num espaço que antes se julgaria impossível.
Jussara não deu tempo para outra tentativa. Saiu a passos firmes, passando por um Mar Vermelho humano que se abria para a dona do momento. Seu tapa fora seu cajado.
Claudio retornou para junto dos amigos, pensando que ouviria uma zoação ensurdecedora. Ele até enxergava vultos fazendo movimentos estranhos, boquiabertos. Eles deviam estar zoando ele, mas, ao contrário do que imaginava, não escutava nada. Tudo parecia um zumbido, ressoando pelo efeito colateral do tapa. A reação que ele provocou em Jussara, a imagem que ela teve dele…
Não, a imagem que eu fiz de mim a ela. A culpa é minha. Eu fui lá, eu fui babaca.
Claudio não sabia se veria Jussara novamente, mas seu efeito duraria a vida toda. A lembrança do homem que ele era, o contraponto ao homem que ele acreditava ser.
