Negação ou falta de coragem
A gente pode ter todos os motivos para abrir o coração, abrir a boca, arrumar espaço na vida, comprar uma segunda xícara de café. A gente pode ter todos os motivos para compartilhar uma música, uma ideia, um gosto específico, uma vida. A gente pode ter motivos e pode não ter coragem, coragem de abrir espaço e depois ficar com medo de ver o lugar ser desocupado, medo do café não ser aceito, da música passar batida. Amor não é um sentimento que anda sozinho. As vezes ele leva o medo nas costas, as vezes ele leva a coragem, as vezes ele anda junto com as dúvidas, mas ele não anda sozinho.
O amor já é pesadinho de carregar, imagine ter que levar junto os amiguinhos. Mas a gente não tem muita escolha porque quando chega no amor o resto já foi todo tomado. A gente fica em negação pra fingir que não tem medo, fica com medo pra evitar ter coragem. A gente ama de ousado porque espaço nem tem as vezes, mas a gente ama, e ama com força e carrega os companheiros do amor.
A gente se apaixona pelo mesmo sorriso todo dia e pelo gosto musical e pela voz e pela atenção, a gente se apaixona e percebe que tá lascado e ai a gente nega. Nega pra quem tá perto, nega pro amor, nega pra si. A gente nega porque a gente tem medo e o medo ama mais o amor do que a gente. Eles tão sempre coladinhos e a coragem fica em terceiro plano. A gente queria ter mais coragem do que medo, e as vezes a gente tem. Quando a coragem ganha a gente faz convite pra show e quando o convite não é aceito a gente curte do jeito que dá e extravasa a paixão em outros espaços já ocupados. A gente aumenta o medo e perde mais coragem e perde mais coragem e a gente vai desistindo devagar e nem deu tempo de arrumar o espaço direito.
A gente espera e torce, torce para que os contos de fadas superem o mundo moderno e faça a paixão se apaixonar também, a gente espera porque o medo é maior que a coragem e vem em doses mais fortes. A gente se apaixona e ama e espera e torce e fica bem doida num intervalo tão curtinho que nem parece que dava tudo aquilo ali. O espacinho das paranoias é mais largo que o do amor, mas a gente ama com medo e ama sem medo e torce, torce para que o sorriso de todo dia afaste esse medo em algum momento e tome o espaço que tá livre, antes que a poeira preencha de novo e a coragem fique esquecida nessa terra sem lei. A gente nega e se nega e fica com medo, mas a gente sente e tenta mesmo assim. A gente quer virar plural não porque o singular é insuficiente, mas porque a gente quer somar e ter duas almas contentes.
