Ser mãe: Trabalhar e viajar sem culpa.

Maria (filha) , Yara (eu) , Yvone (minha mãe) e Yvonne (minha avó )

É dificil falar sobre ser mãe sem falar sobre ser filha, mulher e esposa pois está tudo muito misturado.

Então vamos lá, um texto um pouco longo, mas já viu mãe falar rapidinho ?

A natureza, a escolha e o instinto materno

Desde sempre eu quis ser mãe. Com pais cientistas e suas teorias sobre a evolução humana começando a partir do Big Bang, sempre soube que ao "escolher" o marido muitas vezes acabamos escolhendo também o pai genético dos nossos filhos, aquele que definirá junto a mãe todo pequeno detalhe de seu futuro filho ou filha: rosto, pele, cabelo, cada pinta em seus corpos, o formato do dedo do pé, possíveis doenças e tudo mais.

Além da importância genética, assumindo que o pai irá ajudar a criar as crianças ainda tem toda a importância emocional: a inspiração, a negação, o tom de voz, a forma de reagir a cada problema, o exemplo, a ética, a ideologia.

Com bisavós, avós, pais e tios divorciados sempre me questionei: e se não for para sempre ? Mesmo assim aquele ex-amor continuará a ser o pai dos seus filhos… desde quando nascem, até quando crescerem, quando forem pais e mães.

Que tarefa difícil. E pensar que é este instito que leva a perpetuação das espécies.

Mas, acredito que a grande maioria das mães e pais só descobrem o que significa exatamente ser mãe e pai, sendo. Como filha é realmente dificil ter a empatia com sua mãe e entender o que significa tudo isto.

Então, se não der certo, se você se decepcionar e achar que "escolheu errado" não se culpe, é difícl mesmo e envolve um monte de fatores, inclusive uma boa dose de sorte e lembre-se tem milhares de crianças felizes e bem resolvidas em famílias com estruturas completamente diferentes.

O meu respeito e empatia pelas mulheres que criam seus filhos sozinhas multiplicou-se por 1000 e o sentimento pela minha mãe e pelo meu pai não parou de se transformar a cada dia e a palavra gratidão foi invadindo meus pensamentos, minha alma e minha vida.

Que cada mulher possa exercer a escolha plena de ter ou não filhos

Com o nascimento dos nossos filhos, compreendi também todas as mulheres que decidem não ter filhos por um motivo ou por outro, pois até aquele momento com a prepotência juvenil típica, não entendia como alguma mulher poderia não querer ter filhos.

Hoje desejo que cada mulher possa tomar esta decisão por conta própria, sem estigmas, sem explicações. E fico feliz que seja possível engravidar aos quarenta anos, ser feliz com a adoção e ser feliz sem filhos!

Parei de trabalhar, e agora ?

Se você desistiu da sua carreira profissional para ser mãe ou colocou no congelador por um tempo, você também tem meu respeito!

Uma grande oportunidade para aprender idiomas, trabalhar em ONGs que podem transformar o mundo, ajudar outras mães que precisam de apoio, colaborar na escola e muito mais.

Não se pode ter tudo: conquistas pessoais vs profissionais

Eu e o Vinicius queriamos muito ter uma palestrante aprovada no JavaOne e todos os anos nos reuniamos virtualmente com amigos do SouJava para revisar e melhorar cada detalhe do título, descrição e agenda das palestras. Não conseguimos em 2002, nem 2003 e a primeira aprovação chegou alguns meses depois da notícia da minha gravidez em 2004.

Nossa, é muita coisa boa junta!

Não é não. Infelizmente na época do evento eu estaria gravida demais e a partir do sétimo mês não iria mais poder viajar.

Chorei duas vezes, chorei pela angustia de não poder participar e realizar este grande sonho de palestrar no JavaOne na Califórnia e pela vergonha de estar chorando sendo que meu maior sonho estava sendo realizado dentro de mim.

Ao telefone minha mãe me disse o óbvio: a melhor coisa da sua vida está na sua barriga AGORA e você ainda terá muitas chances de ir para o JavaOne, a palestra já foi aprovada e se fizerem um bom trabalho as portas continuarão abertas.

O Vinicius foi ministrar a palestra "sozinho". Imagine só o conflito interno que isso gera. Demorei para conseguir estabilizar esta indignação e injustiça com a mulher. A mulher que engravida, amamenta, para de beber, fica gorda tem que parar de trabalhar por alguns meses, e ainda ficar no Brasil sem dar palestra no JavaOne ?! Ufa…. ainda bem que passou!

Ficou só a vontade de sempre ajudar a fazer as mulheres mais fortes, mais pragmáticas, mais felizes e resolvidas.

No ano seguinte fui ministrar minha primeira palestra internacional junto com o Vinicius no JavaOne e com seis meses de idade a Maria passou a primeira temporada de 15 dias na casa da vovó. Nossa, como foi bom pra mim, pra ela e para minha mãe que começou a construir um relacionamento só delas.

Entendi que mais uma vez ela estava certa, realmente tinha acontecido a melhor coisa da minha vida e que o JavaOne estava mesmo de portas abertas para nós. Depois disto já participamos mais de 10 vezes do evento na Califórnia e a Maria e o Rafael por mais de 10 temporadas na casa da vovó e da bisavó! Que sorte a deles e a nossa.

Marcas profundas causadas por meses longe dos pais

De 1980 a 1985 meus pais faziam mestrado e douturado em Yale, nos Estados Unidos. Parece lindo, mas com uma recem nascida e uma criança de menos de 2 anos não foi moleza. Pai e mãe trabalhando, ganhando pouco e sem suporte da família no dia a dia… Bom, esta última parte não é bem verdade pois vinhamos passar o verão com minha avó Yvonne Mascarenhas em São Carlos. Isso mesmo, duas crianças pequenas passando quase dois meses por ano longe dos seus pais… e perto de toda família!

Em 1986 viemos passar quase seis meses com a minha avó, onde eu iniciei a primeira série e a minha irmã ainda no pré enquanto eles terminavam o que tinha que ser terminado lá em Yale.

Aprendi que além do amor e cuidado dos meus pais tinha a família inteira e isso deixou muita marcas no coração de uma criança:

Marcas lindas dos meus avós, tios e tias, primos e primas e do verão no Brasil.

Vi três gerações de mulheres guerreiras. Minha mãe sendo mãe, sendo profissional e crescendo a cada dia. Vi minha avó que além de uma das maiores cientistas do Brasil ainda tinha tempo para ajudar a criar duas netas enquanto a filha finalizava o trabalho em Yale.

Quantas vezes chorei e senti ciumes dos meus pais indo viajar para congressos no exterior ? Muitas! Eles tinham uma parceira de trabalho em ORLANDO, isso mesmo. Na minha cabeça eles iam passear na Disney, com exceção que não curtiam parques… só cáculos! Mas, nada disso mundou meu amor e só reforçou que mesmo distantes estamos tão perto.

Agora chegou minha vez, como lidar com as viagens?

Hoje, sou eu que viajo, são eles que ficam. E não é vingança! Como família somos um time, e que time! Todo mundo jogando o longo jogo da vida. Um jogo em que cada um tem que batalhar e conquistar seus objetivos individuais e coletivos ao mesmo tempo.

Estava chovendo, nós estamos saindo de casa para uma viagem de 5 noites fora. Vinicius e eu no carro, saindo da garagem de ré e olhando para as crianças que ascenavam. Rafael começa a chorar e o choro se transformando em soluços cada vez mais fortes a medida que o carro se afasta.

Quero chorar, quero ficar, quero pegar no colo e amar. Sinto-me a pior das mães. É realmente necessário ir para esse congresso ? Estou sendo egoista? É a coisa certa a se fazer?

Volto no tempo, eu era A criança. Quais as marcas ficaram em meu coração ? Sinto um orgulho enorme, admiração infinita pela mulher que é minha mãe e pelo homem que foi meu pai e pela gigante influência que cada conquista deles teve na pessoa que sou hoje.

No mesmo instante ligo no telefone fixo para que o Rafael possa atender o telefone… querendo que a cena do meu pequeno grande amor chorando com nossa partida possa se diuluir junto com a chuva.

Lembro que em alguns instantes ele estará sorrindo e brincando e que as lágrimas são presentes na despedida, e a despedida é mesmo dolorida.

Ele atende: Rafa meu amor, somos um time. Eu já fui a criança que chora e te juro que isso passsará e não deixará cicatrizes ruins e fortalecerá nosso amor. Agora é nossa vez de partir pro ataque e precisamos do nosso exercito firme, que vocês fiquem e se fortalecam cada vez mais, logo logo estaremos de volta mas também logo logo serão vocês que sairão para o mundo lutando e conquistando seus sonhos e continuaremos a ser um time. O tempo voa.

Home office e a vida em família

Tenho certeza que é possível ser uma boa mãe e boa profissional ao mesmo tempo. Nosso maior desafio é o sentimento de culpa que invariavelmente aparece para nos atormentar.

É claro que que será necessário abrir mão de coisas que gostamos, deixar de assistir a nossa série preferida para assistir a Malena Games no Youtube…Investir tempo junto com as crianças lendo, jogando, conversando, ouvindo, explicando.

É por isso que eu amo home office e pretendo envelhecer trabalhando em casa ou em qualquer parte do mundo que eu possa trabalhar.

Hoje é mais que perfeito pra mim, acompanho a tarefa, discuto o livro que fala da Grécia e sonhamos com aquela viagem descobrindo o mundo antigo que faremos juntos um dia. Posso balancear a carga de trablho e o tempo com as crianças. Posso fazer o webinar de casa e receber uma pizza feita pelo Rafael ou pela Maria pra comer fria e deliciosa quando acabar o webinar… posso estar 100% com eles em alguns momentos e 20% em outros (como trabalhar enquanto assisto Malena Games…), mas juntos e fortalecidos para os momentos que estivermos longes um do outro.

Eu e o Vinicius fazemos pelo menos umas 6 ou 7 viagens mais longas por ano e por isto começamos a levar as crianças conosco para os eventos que nós mesmo organizamos, o The Developer’s Conference. Uma forma de fortalecer o nosso time e permitir que eles vivenciem a experiência e entendam que o trabalho durante as viagens é duro também!

Certamente nada disso seria possível se tantas pessoas no mundo não estivessem me ajudando em cada uma dessas conquistas cuidando e amando meus filhos como se fossem seus.

Sentimento de culpa: me deixe em paz!

Não importa qual é a sua escolha e que tipo de mãe é você. É muito provavel que ao ser mãe você sinta-se culpada achando que poderia ser melhor, e provavelmente você poderia, mas o sentimento de culpa não vai ajudar em nada a ser uma mãe melhor.

Recomendo um livro que transformou demais a forma como eu lido com a culpa, um presente que meu pai me deixou e só fui ler depois de sua partida.

Freud — O mal-estar na cultura

Vamos liberar o HD de culpa para poder abrir espaço para conhecimento e energia para transformar o mundo da forma que esteja a seu alcance.

Dia das mães

Feliz dia das mães para todas as pessoas do mundo, homens e mulheres que são um pouco mães.

" Palavras por bocas alheias criadas 
por outras mãos escritas 
dizem o indizivel de mim para voce."

Sendo assim, faço minhas as palavras da Ana Vilela, com a qual já chorei duas vezes.

E hoje, quero agradecer a minha mãe e minha avó Yvonne Mascarenhas que além de ser a incrível cientista que é tanto colaborou para que a minha mãe Yvone Mascarenhas se tornasse a incrível empresaria e pessoa que é. Estas duas mulheres são os maiores exemplos da minha vida não apenas me inspiraram mas ajudaram a me tornar quem sou e me impulsionam a cada dia pessoal e profissionalmente. Quero agradecer também a Cibele Ferreira, amiga incrível que está com a Maria e com o Rafael nesse dia das mães que estamos longe.

Yara Senger

PS: Comentários, sugestões e correções são bem vindos!