Yashá Gallazzi
Aug 25, 2017 · 3 min read

Eu não vi a nova versão do filme A bela e a fera quando saiu, mas acompanhei algumas reações a ele na internet. Como tudo na internet, nunca existe meio termo ou moderação: ou as pessoas amaram o filme, ou o odiaram com todas as forças e ele foi a pior coisa já feita na indústria cinematográfica. Eu sempre gostei de fábulas e das leituras que a Disney deu a elas ao longo da história, por isso me interessaram mais as críticas negativas ao filme (afinal, se eu estava predisposto a gostar dele, queria entender o que tanto incomodou aqueles que não gostaram). Minha surpresa foi perceber que muita gente – mas muita mesmo! - criticou A bela e a fera acusando a obra de romantizar uma “relação abusiva”. Que pena dessas pessoas... Elas não poderiam estar mais erradas.

A bela e a fera, a meu ver, celebra pura e simplesmente o amor. É uma das fábulas, aliás, que melhor celebra o amor romântico, aquele entre duas pessoas que se apaixonam, se descobrem e se... aceitam! Não há nada de submissão a abuso no comportamento da mocinha que, enxergando a fera com os olhos do amor, decide que estar com ela é a escolha certa. Ela não cede a caprichos ou se subjuga por medo. Essa é a leitura ligeira e superficial – e errada. Ela escolhe estar perto, cuidar, se doar. E isso é amor como o amor deve ser, dando serenidade, segurança, sem rompantes de exaltação ou inseguranças tolas.

Quando o filme nos indaga se “alguém pode ser feliz sem ser livre?”, faz isso não para mostrar que a prisão do castelo destinava Bela a uma vida de submissão e abuso. Ao contrário: fazia isso para nos mostrar que a escolha dela de ficar, de tentar fazer aquela fera se ver com os olhos que ela a via, era a escolha livre que ela fazia em busca do que a tornava feliz. Quando ouvimos que “são os seus defeitos que fazem de você uma pessoa única”, não devemos tomar isso como a fala boba de alguém apaixonado, cego a problemas de caráter e personalidade. Essa fala é, na verdade, a manifestação do amor sincero, a voz de quem olhou o outro, viu além de aparência, de corpo, enxergou até a alma, entrou em contato com a parte mais escura e, ainda assim, não se assustou. A história não mostra Bela lutando para transformar a fera em alguém como ela idealizou ou sonhou. Em vez disso, mostra Bela disposta a estar com a fera do jeito que ela é. Isso parece inaceitável e inaceitável à fera, claro! Ela quer provas, quer entender, porque nada parece fazer sentido... Até que ela só aceita. Aceita e, então, começa a sentir o amor – mas não antes de decidir acreditar nele.

Eu gosto dessa fábula porque ela fala de uma coisa que eu acredito muito: o amor não demanda provas. Se você precisa mostrar, provar, explicar, justificar, não é amor. Sinto muito, mas não é. O amor é exatamente o oposto: depois de acreditar que ele existe e está lá, então você consegue vê-lo. Por isso o amor é incompatível com o medo, com a incerteza, com o controle, com qualquer tipo de opressão de uma das pessoas sobre a outra. O amor não tolhe a individualidade de ninguém, ao contrário: o amor eleva, faz amadurecer, faz evoluir, torna o indivíduo melhor como indivíduo – porque o amor não causa dependência.

A urgência por demonstrações e provas nasce da insegurança e da incerteza, duas coisas que, acredito, não caminham juntas com o amor. A fera, pela história que viveu, estava mergulhada na incerteza e foi salva pelo amor verdadeiro de Bela. A salvação não veio da submissão, mas da serenidade. A fera não foi libertada por um beijo mágico (essa foi apenas a alegoria da transformação), pelo contrário! O “monstro” ficou livre quando perdeu o medo de ser... um “monstro”! Quando o coração ficou sereno e escolheu acreditar no amor que aquela moça oferecia a ele pelo que ele era, independente de defeitos ou aparência física. Quando a fera acreditou no amor, o amor finalmente pôde ser sentido e vivido. O amor, enfim, apareceu. Porque no amor não há medo, não há inquietude, não há exaltação. O amor suaviza e pacifica. O amor verdadeiro, enfim, não é aquele onde um diz ao outro “você não vai sair sozinha?” O amor verdadeiro diz “vai com cuidado, divirta-se, me avisa que chegou bem”.

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