La la land é isso tudo, sim! Logo depois de ver eu escrevi sobre o filme, mas depois disso eu revi, eu não consigo parar de ouvir a trilha, eu me pego assobiando “Another day of sun”, “A lovely night” e, claro, “City of stars” em todo canto: no chuveiro, andando na rua, cozinhando, limpando a casa, dirigindo.

Quando eu converso com alguém que não viu La la land (“Um musical?! Credo.”) ou que viu e não gostou (“Achei chato, cansativo, não me disse nada.”) eu não entro na paranoia de discutir, argumentar e tentar convencer a pessoa que ela está errada. Cinema se resume à experiência do momento e vai ver simplesmente o filme não se comunicou com os sentimentos e emoções daquela pessoa como se comunicou com os meus. La la land me fisgou porque eu fui ao cinema pensando: “Um musical com Ryan Gosling?! Ok, tô fazendo nada mesmo. Vamo.” E eu gostei de tudo! Sim, de tudo!

O filme todo funcionou porque eu reconheci nele muita coisa que, pra mim, é daquele jeito mesmo. Como quando o Sebastian abre a cena de “A lovely night” cantarolando como eles não têm nada a ver e jamais haverá algo entre eles e o que nós vemos é exatamente o oposto, porque ali ele já está rendido, entregue, enfeitiçado. E ali vemos ela começando a se apaixonar, mesmo percebendo que ela vai aos poucos, se rende devagar – e ele sabe disso e está ok, porque ele acha ela tão maravilhosa, tão capaz de conquistar qualquer coisa, tão perfeita, que só estar perto é o bastante.

A forma como o roteiro nos leva a acreditar que Sebastian “salva” Mia, indo atrás dela e praticamente levando-a à força para fazer o teste definitivo é só mais uma armadilha narrativa que funcionou bem demais pra mim, porque, na verdade, o que eu vi foi ela salvando ele do começo ao fim. Ele é o sujeito fatalista, pessimista, que odeia o que faz e... ok! Ok porque ele só se sente normal, nunca é bom o bastante, ele quer salvar o jazz, mas ele tem que tocar músicas de natal num restaurante pra pagar as contas. E a cena dele com a irmã mostra que pra ele... ok. Ele só não é bom o bastante, ele é normal, ele quer ser deixado quieto no canto dele e todos nós temos momentos em que nos sentimos assim na vida e dói. E a dor que Sebastian tinha, o olhar escuro, pra baixo, tudo isso funcionou pra mim.

Só que ele foi salvo por Mia. O dia ganhou cores diferentes e mais vibrantes quando ele a conheceu. E só estar perto dela era motivo de felicidade, por isso ele estava bem de simplesmente caminhar ao lado dela nos estúdios e ouvir o que ela tinha a dizer. Porque quando nós gostamos de alguém, o que a outra pessoa quer, sonha, diz, interessa e não importa o que seja: nós só ficamos fascinados e não temos dúvida de que ela vai conseguir o que quer.

E assim, ficando perto, ouvindo, apoiando ele já gostava completamente dela. E ela, quando deu por si, gostava dele. E as coisas ficam mágicas quando isso acontece, por isso nós vimos aquela cena linda do planetário quando eles dançam voando. Vi muita gente criticando a “breguice” daquela cena e eu só ria e falava: “o amor é brega, gente!” Nós ficamos bobos, nós assobiamos durante a faxina, nós cantarolamos nas ruas, nós literalmente nos sentimos flutuar. Como os dois flutuaram naquela cena. Não é uma cena sem lógica ou desnecessária. É uma cena perfeita.

La la land é perfeito porque fugiu do final fácil e teve coragem de ser... real. E o real às vezes machuca, mas é o que há. Sebastian criou seu bar de jazz (e mudou o nome original para ficar com aquele que Mia sugeriu), realizou seu grande sonho, não precisava mais tocar músicas que não gostava. Mas... Mas ele só não era bom o bastante. O olhar soturno na última cena, o olhar trocado com ela no final, mostrava exatamente isso: ele só precisava sobreviver dia após dia enfrentando o peso de sentir que não era bom o bastante. Ele era o cara fatalista, destinado a só passar pelo mundo, que passou a se sentir especial quando ganhou o amor dela. Ela o salva, lembram?! Só que ele só não era bom o bastante. Mas ela... Ela era, de fato, a menina inteligente, talentosa, com brilho próprio, que cresceu e venceu sozinha. Exatamente como ele a viu desde o começo! Ele não disse que a peça dela seria um sucesso porque estava “passando uma cantada”, ele disse porque era ela!

Quantas histórias parecidas nós conhecemos, né? A moça, depois de cair de amores pelo rapaz, fala como ele é maravilhoso, especial, único, incrível. Só que ele é só... normal! O que faz alguém ser incrível, especial, maravilhoso com alguém é o amor correspondido, a ligação que começa e apenas fica. O que a história não conta explicitamente, mas revela nas nuances, é que ele já estava caído de amores por ela bem antes e a cena em que vemos isso é a do cinema: Mia domina aquela montagem com a saída alvoroçada do restaurante onde estava, a corrida até o cinema, a procura por Sebastian sob as luzes do projetor. Ali ela percebeu que gostava dele, mas ele gostava dela desde os primeiros passos dançando “A lovely night”, quando o horizonte ficou mais colorido e vibrante.

Não foi Sebastian que levou Mia a acreditar de novo em si mesma e vencer. O talento dela sempre esteve lá, a inteligência, a capacidade de conquistar, de realizar... Tudo isso sempre foi dela e ele só se limitou a sinceramente mostrar o que via. O presente de amor de Sebastian para Mia foi fazer com que ela se visse com os olhos que ele a via. “Mas não ficaram juntos!” Não... Eles se amam e não ficaram juntos e isso é uma merda! Uma droga! Dá ódio! Dá vontade de chorar e eu chorei bastante no cinema enquanto via a cena final porque aquela edição mostrando a vida que poderia ter sido e não foi é covardia de tão bem feita.

La la land é isso tudo, sim. Pra mim é. E cinema é só isso, esqueçam regras, papo de especialista e sei lá o quê. Igual alguém gosta muito de uma cor e outra pessoa detesta, teve quem adorou La la land e quem não viu nada demais. Tem menos a ver com qualidade técnica e mais com os sentimentos experimentados enquanto o filme era visto, só isso. Eu adorei e só queria tomar uma bebida com o Chazelle e chorar muito no ombro dele, porque esse cara soube, nesse momento da minha vida, falar de frustrações, medos, decepções e me fazer lembrar coisas que mexem e vão mexer comigo pra sempre.