Trinta e quatro

A minha mãe quer saber se vou congelar meus óvulos e eu tô pensando que tenho um Lacan inteiro pela frente para ver se um dia me torno psicanalista.

Duas amigas me deram afilhados na cidade do meu coração e eu vejo o tempo passar pelas fotos, nossas e deles.

O meu avô envelheceu, quer saber se eu tenho namorado, me ligou para falar da morte do Gil Gomes -que a gente imitava junto-, reza por mim e eu por ele.

A minha tia sente como eu estou à distância, sem uma palavra sequer, e eu peço socorro sempre que preciso-leia-se quando meu mundo desaba-.

Os meus colegas de trabalho fazem os meus dias mais divertidos e são companheiros de jornada, desabafos, uniforme e ponto.

A Lola ficou obesa no último ano, está mais preguiçosa, chata e geniosa. Cada vez perde mais pelos e eu não sei o que seria de mim sem ela.

A minha prima receberá o diploma de médica e eu gosto de saber que fui sua incentivadora, para que não perdesse a vaga conquistada naquele vestibular.

Preciso conhecer Cidade do México, Madri, Barcelona, Lisboa, Cuba, toda a América Latina, o nordeste, as chapadas, Nobres.

Tenho que me alimentar melhor, aumentar a vitamina B12, fazer exercícios e parar de tomar remédio para emagrecer.

Quero que as minhas mentalizações, meditações e respirações se tornem hábitos diários e não se percam na rotina.

Optei pelo cabelo crescido ao natural e tenho pensado em assumir os brancos que vierem-serei foda o suficiente? por enquanto arranco um por um-.

É um orgulho limpar minha própria privada, andar de transporte público, me bancar sozinha, lavar uma boa parte da roupa à mão, estar com os exames regulados e ter superado todos os dias ruins.

Às vezes tenho insônia, outros dias acordo de hora em hora. Em algumas ocasiões durmo direto, de cansaço. As olheiras são permanentes.

Tenho dúvidas sobre muitas coisas e não sei se chegarei às respostas a tempo, algum dia. Também não sei se faz diferença. Penso muito e não sei se é bom pensar. Não sei.

As marcas de expressão da testa estão ali porque faço muita careta e não tenho mais 20 anos. Pé-de-galinha acho que ainda não tenho. Mas flacidez e lei da gravidade são notórias.

Curitiba é a minha casa e o meu lugar no mundo, mesmo que tudo mude um dia. Mesmo um pouco provinciana, quadrada e politicamente correta.

Trinta e quatro em dois mil e dezoito, uma loucura. Nem de longe sei o que isso significa.

Tô indo, me deixando levar, levando, sendo sincera demais, me posicionando, em linha reta para o que quero-com desvios-, colocando sozinha a porta da sacada que caiu, pedindo sacolas plásticas aos outros, atrasada para o trabalho, irritada com barulhos contínuos, tentando quitar os boletos.

Trinta e quatro em dois mil e dezoito, uma descoberta. Um dia vou saber qual é e talvez sentir saudades.

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Obrigada por ler o meu texto! Sou jornalista e mestre em Letras. Você pode me convidar para bater um papo, ministrar cursos rápidos ou contribuir de alguma forma com o seu projeto. Ficarei muito feliz com o seu contato :)

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