Centro Cultural São Paulo: a Meca da diversidade
Por Arthur Santos, Beatriz Biasoto, Nathalia Andrade e Yasmin Altaras, alunos do 1º JOA
OBS.: texto originalmente publicado no perfil do Medium ‘‘Lab de Jo 2018’’ da disciplina de Laboratório de Jornalismo
Inaugurado em 1982, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) é um dos marcos mais importantes da capital paulista. Oferece diversas atividades e eventos para o público de maneira acessível e inclusiva. O prédio de referência arquitetônica erguido na Rua Vergueiro, estrategicamente posicionado ao lado das vias de transporte público, traz consigo uma enorme variedade de projetos visando à propagação de atividades culturais, além de proporcionar espaço para estudos, manifestações artísticas (como dança, beatbox e teatro, entre outras) ou um simples local de lazer. O recinto conta também com um enorme conjunto de bibliotecas e acervos. Dando ênfase à relevância de um espaço livre, que promove a criatividade e a cidadania, o CCSP é um ambiente acolhedor feito para todos, com uma ampla oferta de serviços.

Um lugar para paulistanos, turistas e imigrantes
Ingrid Reali Alves é visitante frequente do Centro Cultural, devido à proximidade de sua residência e também ao espaço proporcionado para estudar e até mesmo escrever, no seu tempo livre. Ela define o local como um anexo de sua casa, que possibilita um ânimo maior por conta do contato com outras pessoas. Afirma, ainda, que as exposições e os shows oferecidos, por serem de um custo muito baixo quando comparado com outros, incentivam e enriquecem o desenvolvimento cultural da comunidade local e das universidades ao redor, sendo, assim, de grande valia aos jovens. Ao questioná-la sobre os diversos grupos frequentadores — as antigas tribos — , a paulistana considera o espaço “muito democrático” e que “deve ser ocupado por todos”.
Já Felipe Cascais Santos Cambraia e Renata Vasconcelos Juarez, amigos de Ingrid, são de Macapá, no Amapá, e visitaram a área pela primeira vez, considerando-a até aquele momento como “a melhor parada da viagem”. Eles confessaram que sentem falta de um centro cultural na sua cidade, de algo da mesma dimensão de imersão nos vários setores do saber. Ao fazer um comparativo, asseguram que a presença de tantas atividades culturais em São Paulo abrange uma ampla gama de atrações, o que é inerente à própria cidade.

Sandra Shih, de 37 anos, veio de Taiwan para São Paulo em 2015. Morando no Brasil há apenas três anos, a taiwanesa visita o Centro Cultural São Paulo a cada duas semanas, em média, e por isso já o considera um de seus pontos favoritos na cidade. Jornalista e admiradora de arte, trabalhou em revistas culturais em seu país antes de se mudar. Mãe de um filho de 4 anos, ela visita o local para aproveitar as atividades que beneficiam a ambos. “É melhor para meu filho. Conseguimos buscar livros aqui, já que perto da minha casa não tem livrarias”, diz.
Apesar da timidez do filho e de não falar português muito bem, Sandra comenta que a hospitalidade dos brasileiros, dentro e fora do Centro, está sendo um fator altamente positivo na sua adaptação. “Ele está começando agora, mas as pessoas aqui são bastante acolhedoras com estrangeiros.”
Ela não tem dúvidas em relação ao interesse público sobre os recursos que o Centro Cultural São Paulo tem a oferecer, especialmente para os jovens. “Gosto muito das exposições. Vejo muitos adolescentes por aqui também, nos eventos, no espaço de dança…” Abordando o tema cultura e a influência de centros como o de São Paulo, Sandra é franca e direta: “Cultura não é necessariamente achar obras artísticas legais, vai além disso. Não pode ser ensinada para um pessoa em um dia. Para conhecer a cultura de um país, você tem que morar no lugar durante um tempo, conhecer o povo, fazer amigos. Tem que ter sentimentos”.

Um ritmo diferente
Uma atividade menos conhecida que ocorre no CCSP é o ensino de beatbox, música feita apenas com a boca. Quem comanda as aulas, desde janeiro de 2016, é o professor Thiago Mautari. Ele conta que tudo começou em 2014, com batalhas do lado de fora do prédio, até funcionários do local o convidarem para entrar e usar o teatro Adoniran Barbosa. No início as reuniões ocorriam apenas duas vezes ao ano, mas o que começou pequeno hoje conta com aulas toda terça-feira em dois horários e no último domingo do mês. Uma equipe de dez pessoas garante que tudo aconteça.
Em relação ao perfil dos alunos, Thiago afirma que existe diversidade e descreve o Centro Cultural como “fora do normal”, em comparação com outros espaços similares, devido ao público encontrado lá. Porém, o professor destaca que sente falta de meninas em suas aulas e diz não ver tantas pessoas de menor condição financeira aproveitarem o que o local tem a oferecer: “Quem é da quebrada não sei se cola aqui”.
O trabalho de Mautari se mostra importante tanto por ajudar na difusão do beatbox quanto por influenciar positivamente seus alunos. Muitos conseguiram superar a timidez através da música e da necessidade de realizar apresentações.
Onde a arte prolifera: do samba rock ao k-pop
Ao andar pelo Centro Cultural São Paulo, principalmente nos fins de semana, é possível observar uma pluralidade de gêneros de dança e música. Destacam-se ritmos como k-pop, funk e samba-rock. Um exemplo é o grupo composto por Daniel Soares, Débora Ferreira, Everton Reis e Maiara Rodrigues, que se conheceram por meio da dança e usam o espaço para ensaiar coreografias de samba-rock apresentadas por toda a cidade.
Os dançarinos contam que a relação existente entre os grupos que ali ensaiam é de respeito e troca, como no exemplo dado por Daniel de quando pediram ajuda a um grupo de k-pop para melhorar um movimento da coreografia característico de uma dança mais urbana. Outro ponto destacado foi o fato de muitos frequentadores morarem longe da Rua Vergueiro, em regiões como a Zona Leste ou Guarulhos, e, mesmo gastando até duas horas no deslocamento, continuarem a escolher o CCSP como o local ideal para praticar. Ao serem questionados sobre o significado da dança para cada um, Daniel, Débora e Everton resumiram com as palavras “vida, magia e paixão”. Já Maiara afirmou se sentir mais viva ao dançar.
Para todas as idades
Rita Ritovski, uma das autoras do livro infantil Na Beira da Lagoa, participa do grupo CIA. Malas-Portam, criado em 2007, junto com contadores de histórias que já se apresentaram em diversos estados e em oito festivais internacionais. Ela e sua parceira de trabalho, Michele Mi, estão participando de uma temporada de apresentações no Centro Cultural São Paulo, intercalando os dias de exibição com outros integrantes dessa trupe artística. Ao abordar as bases da companhia, Michele diz que ‘‘tem um mix de literatura, música e também teatro’’, complementadas por uma pesquisa com foco em histórias mundiais e nas diversas linguagens artísticas. ‘‘Além das brincadeiras’’, cantadas, de coordenação motora, “pois o importante é a gente ser feliz brincando”, conta.
Ao questioná-las sobre a relação com os espectadores, a dupla diz que ‘‘não há um foco apenas no público infantil’’, e sim em um mais diversificado, contemplando várias faixas etárias, sempre contando com intervenções que estimulem a interatividade com a plateia e, simultaneamente, a musicalidade, a fim de proporcionar uma imersão literária completa.
Já o relacionamento do Centro com os contadores de histórias é realizado por meio de um contrato, em que a diretoria e a coordenadoria de programação avaliam o portifólio e liberam as apresentações, que ocorrem ao lado da biblioteca, no Espaço Mário Chamie, todo sábado e domingo, às 14h30. Esporadicamente há interpretação em Libras, a Linguagem Brasileira de Sinais.

Cada ponto conta
Ler pode ser uma tarefa aparentemente fácil. Porém, ler em Braille possibilita uma imersão muito além da ‘convencional’. É o que Carlos Henrique Gomes Costa, paulistano de 44 anos, vivencia quase todos os dias na Biblioteca Louis Braille, no CCSP.
O bibliotecário diz ter entrado em contato com duas experiências jamais vividas antes: a de trabalhar nessa área e a de estar próximo de uma biblioteca que não fosse a “de tinta” — expressão utilizada pelos funcionários para diferenciar esses ambientes. Ele conta que durante os catorze anos em que trabalha lá aprendeu a lidar com as especificidades do relacionamento com os deficientes visuais e o sistema de leitura tátil, do qual, a propósito, confessa saber o básico, pois a simbologia científica é um pouco mais complicada e diferenciada, como a de química, por exemplo.
Sobre o acervo, Carlos diz que ‘‘é restrito em quantidade de títulos, porém não de assuntos’’. Conta com material didático que vai de filosofia às obras literárias, bem como música. Ainda aponta que as aquisições são realizadas por meio de três processos: convênio (que é a compra), doação e produção própria.
Ao final, Carlos adiciona que os recursos de acessibilidade e um novo olhar para com os deficientes visuais permitem uma nova perspectiva, enfatizando que ‘‘o que a gente mais aprende aqui é atitude de inclusão’’.
De Mário de Andrade a The Doors: eis a Discoteca Oneyda Alvarenga

Idealizada pelo poeta e escritor Mário de Andrade em 1935, a Discoteca Oneyda Alvarenga oferece um acervo gigantesco, com mais de 75 mil discos dos mais diversos artistas, que vão desde MPB e música erudita até o rock clássico. Usado tanto para pesquisas acadêmicas quanto para entretenimento, o local foi criado para aproximar o público da música popular brasileira.
Única instituição desse tipo na capital paulista, leva o nome da primeira diretora da discoteca. Poetisa, musicista e também aluna de Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga compôs o acervo (que só mais tarde ganhou um novo nome em homenagem a ela), além de vários projetos culturais presentes na unidade.
O lugar fica em um espaço subterrâneo, sobra da construção do metrô. Conta com seu próprio acervo, que contém materiais reunidos entre 1935 e 1982, junto à Missão de Pesquisas Folclóricas e seus materiais resultantes, organizados por Mário de Andrade, além das documentações da Sociedade de Etnografia e Folclore e da própria Discoteca Pública Municipal.
Funcionário da Discoteca há sete anos, Edson Marçal diz apreciar muito a história de seu local de trabalho. Ressalta que “a música está presente em todos os momentos de nossa vida, desde as canções de ninar, passando por nossa juventude, com os rocks, depois nos acompanha nas músicas de casamento e festas, até as melodias mais fúnebres”. O bibliotecário também comenta brevemente sobre eventos sediados no estabelecimento, como as Crônicas Toca-discos, em que vários escritores e músicos brasileiros apresentaram um “concerto de discos” para visitantes. Ao finalizar, ele afirma que “é muito legal trabalhar com música. Como ela pega toda nossa existência, você acaba desenvolvendo demais, eu adoro trabalhar aqui”.
