“Lugar de Fala” ou “Ad Hominem”?

(…) o lugar de fala indiretamente reforça na esquerda os argumentos “ad hominem”, interrompendo uma tradição progressista de racionalismo esclarecido. Os argumentos “ad hominem” são falácias condenadas desde a antiguidade clássica porque desqualificam quem fala para não precisar discutir o teor do que diz o adversário. Quando o movimento social condena discursos sobre a opressão que não são enunciados pelos próprios oprimidos, de certa maneira ele resgata e legitima uma modalidade de argumento ad hominem. (Pablo Ortellado)

O professor Pablo Ortellado se expressa muito bem e faz considerações muito boas na entrevista concedida para o artigo “O que é ‘lugar de fala’ e como ele é utilizado no debate público”, mas me parece um tanto contraditório relembrar a origem desse tipo de conceito nas teorias feministas e ao mesmo tempo evocar sem ponderações a antiga categoria retórica de “argumento ad hominem”.

Por que precisaríamos de algo como uma teoria feminista da enunciação? Como eram os debates políticos, filosóficos e científicos há até um século, ou mesmo há 50 anos atrás?

Um conceito como o de falácia ad hominem de fato fazia sentido em debates onde o lugar de enunciação era irrelevante pelo simples fato de que todos os debatedores eram relativamente iguais. Aliás, podemos aventar a hipótese de que a exigência de que todos os indivíduos sejam considerados iguais do ponto de vista de suas possibilidades de enunciação, a despeito da sua condição social, tenha vindo a calhar perfeitamente com a emergência dos ideais políticos burgueses de igualdade (igualdade que, todos sabemos, é meramente formal) em contraposição a um ideal mais “nobre” de diferenciação pela origem social.

Em que época histórica as mulheres podiam adentrar o debate filosófico ou científico? As mulheres foram barradas de todo acesso a produção e reprodução do conhecimento durante longos períodos. E na perspectiva europeia os negros e indígenas teriam sido sempre já povos “fora da história”, que mal-e-mal ingressaram nela pra serem explorados, que mal-e-mal tem estatuto ontológico de seres humanos.

Então qual era a composição dos debates na Grécia democrática, ou na academia europeia iluminista? Quem eram os todos-iguais nos debates filosófico-científicos? Faz todo sentido não apelar para o lugar de fala, para o “quem é você na ordem sócio-econômica” quando, na verdade, toda a estrutura do debate é feita para contemplar a troca de ideias entre indivíduos semelhantes, os únicos que puderam acessar esses debates. Esses indivíduos se adequavam a critérios estreitos de cidadania. Por mecanismos diferentes, os debates “democráticos” excluíram mulheres, estrangeiros/não-brancos e classes “subalternas” tanto na Grécia antiga quanto na Europa moderna.

A mudança para uma perspectiva epistemológica onde o conceito de “falácia ad hominem” tem sua fundamentação bastante enfraquecida é reflexo de uma mudança objetiva no próprio tecido social. Que mudança é essa? A emergência recente de novos atores sociais no debate público — as mulheres, os LGBTs, os negros e indígenas, as pessoas periféricas. O lugar de enunciação não é indiferente ao enunciado porque já não há um único lugar de enunciação, ou seja, objetivamente surgiram novos sujeitos políticos que vieram a pluralizar o campo de debate. A teoria e os conceitos vieram em consequência dessa mudança sócio-econômica objetiva.