Sobre a Crise Econômico-Política Atual

Nesses últimos dois ou três anos as discussões “políticas” nas mesas de bar e na internet tem se centrado em antagonismos ao estilo de briga de torcidas de futebol, só substituímos a camisa do time por algum rótulo ou identificação partidária. Daí as aspas: tratar as palavras esquerda e direita como se fossem nomes de times é esvaziá-las completamente de seu caráter político, tanto é que a maioria das pessoas já não sabem mais (ou nunca souberam) o que cada um desses termos significa a rigor. O que eu proponho neste texto não é, contudo, definir esquerda e direita, mas sim tentar falar um pouquinho de política como projeto, tentar de modo bastante simples entender qual é o projeto político que está sendo implementado no Brasil atualmente. Não sou especialista na área, não sou economista nem cientista social, pretendo falar aqui como alguém que quer tentar compreender o que está acontecendo, porque acho que nas mesas de bar e na internet as informações ficam dispersas e nem sempre as conexões são assim tão aparentes. Todo mundo está tentando compreender o que se passa na sociedade da qual participamos. Mesmo que a gente tenha que lidar com palavrórios e questões técnicas difíceis de entender, os rumos do país e do mundo não deveriam ser nem decididos e nem analisados só por cúpulas de especialistas. Aliás, nesse sentido, entender é primordial pra participar efetivamente das decisões, então isso que estou chamando de projeto político é problema de absolutamente todos nós.

Primeiro, gostaria de colocar as coisas numa perspectiva mais conjuntural, partindo da situação mundial desde 2007. Algumas pessoas têm memória curta, outras eram ainda muito novas pra se lembrar, outras não tiveram informações o suficiente sobre isso, mas muitos devem se lembrar que em 2007 começou a se falar da tal da crise do setor imobiliário nos Estados Unidos. Como disse, não sou especialista, mas vou tentar passar aqui o que entendi sobre esse acontecimento, que ficou conhecido como crise dos subprimes. O que eram esses “subprimes”? Os bancos dos EUA, em meados de 2003–2005, estava concedendo empréstimos considerados de alto risco, ou seja, aqueles feitos a devedores que tinham poucas condições de garantirem o pagamento das suas dívidas (sem renda comprovada, inadimplentes etc). Em geral, esses devedores eram pessoas comuns que estavam tentando financiar seus imóveis e obtinham para isto esse tipo de empréstimo em instituições que investiam bastante nessas operações. O negócio interessava para estas porque, como havia maior risco, os juros também eram maiores, e maior o lucro. Inclusive haviam outras instituições de crédito que compravam essas dívidas e as revendiam a ainda uma terceira, e assim por diante (talvez pareça estranho pra quem não vive imerso nesse mundo dos negócios, mas os bancos compram e vendem dívidas mesmo). Muitos dos imóveis adquiridos desta forma eram utilizados como garantia para outros empréstimos.
Não é difícil ver como essa situação é complicada, mas ainda assim os devedores conseguiam fazer seus pagamentos enquanto os juros estavam baixos, o problema começou a tomar forma com o crescente aumento da taxa básica de juros dos EUA, que passou de 1% para mais de 5% entre 2004 e 2007. O aumento dessa taxa dificulta o crédito e torna mais difícil o pagamento das dívidas, com isso esse mercado de subprimes foi bastante afetado e gerou um efeito em cadeia no sistema financeiro. Porque o governo dos EUA aumentou a taxa básica de juros nesse período? Uma das hipóteses possíveis é de que isso tenha sido feito para controlar o aumento da inflação relacionado à desestabilização econômica causada pela Guerra do Iraque e seus custos, o que nos dá alguma indicação de um motivo mais estrutural e inteligível do que essas flutuações malucas do mercado financeiro.

Um marco do início da crise foi o resgate de duas instituições especializadas no mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac, pelo governo estadunidense: 200 bilhões de dólares foram injetados nelas, que passaram também a ser provisoriamente administradas pelo governo (o maior da história dos EUA). Outros vários resgates estatais de instituições de crédito que estavam entrando em colapso foram feitas também na Europa. Mas esses procedimentos não foram suficientes pra evitar que esse efeito em cadeia começasse a afetar os valores de ações e preços de commodities ao redor do mundo. Vários bancos quebraram, inclusive os gigantes americanos Washington Mutual e Lehmon Brothers, o preço do petróleo disparou e voltou a cair drasticamente em um curto período de tempo, mantendo-se depois em alta até 2014.
Isso é um resumo muito básico e leigo do estopim desta que tem sido apontada como a maior crise econômica mundial desde o crash da bolsa de valores de Nova York em 1929. Para que estou relatando tudo isto? Bom, eu estava comentando sobre memória: é importante a preservarmos, e não digo apenas memória individual mas memória social, coletiva. Só assim a gente pode se situar. Na época não se sabia se isto era uma crise financeira passageira ou se se tornaria uma crise econômica estrutural e duradoura, mas o desenrolar dos efeitos desse primeiro impacto mostrou que o que ocorreria seria a segunda rota, de tal forma que a sombra desse ciclo de crise se estenderia até os dias atuais. E não é exagero dizer que maior parte dos problemas que tanto EUA quanto União Europeia enfrentaram nos últimos 10 anos se devem a ele: o governo norte-americano se endividou tanto que quase deu calote nas suas dívidas públicas (o Brasil era um dos principais credores!) e a UE entrou numa recessão persistente que parece estar dando sinais de melhora só agora, em 2017.

A pergunta que se segue é: e a gente, no Brasil? O que isso tem a ver com a nossa situação? Vivemos numa economia mundializada e, por isso, seria impossível que a crise internacional não nos afetasse de alguma maneira. Como o Brasil é um grande exportador de commodities e os preços destas se elevaram durante esse ciclo de crise, até conseguimos tirar algum proveito da situação; mesmo assim, aqui também foi necessário implementar políticas estatais anti-crise que, ao contrário do que aconteceu nos epicentros, conseguiram segurar os efeitos da recessão por algum tempo (nosso sistema de crédito é bem diferente do dos EUA). É importante lembrar que não foi só no Brasil que o Estado interveio na economia pra lidar com os efeitos da crise econômica, como disse anteriormente, tanto EUA quanto UE tomaram medidas do tipo estatizar bancos ou injetar enormes montantes no setor privado pra salvar bancos que estavam colapso (e mesmo assim nem todos puderam ser salvos). De qualquer forma, em algum momento teríamos que enfrentar as consequências negativas da crise, o que de fato começou a ocorrer de 2014 pra cá. A nossa relação com esse movimento é ambíguo: o mundo continua nesse ciclo de recessão, mas os países centrais começam a se recuperar, de tal modo que não conseguimos mais tirar aquelas vantagens que tínhamos com o endividamento deles (a produção de petróleo nos EUA, por exemplo, teve um boost nos últimos cinco anos e provocou a queda do preço do barril, afetando também a arrecadação brasileira com a extração) e nem estamos numa conjuntura favorável de crescimento econômico mundial que pudesse alavancar a nossa economia também.

Algumas estratégias implementadas pelo governo brasileiro durante esse período foram bem-sucedidas e outras não. A maior questão aqui é que em todo caso essas estratégias tiveram que ser estabelecidas em uma situação econômica internacional em geral desfavorável. No momento em que os efeitos da crise finalmente incidiram sobre nós, uma crise política igualmente profunda emergiu como sintoma de estruturas que estavam aí há muito tempo, mas nós não nos dávamos conta o suficiente.
