Sobre o filme “A história de um casamento”

Yas OMP
Yas OMP
Jan 15 · 9 min read

Sobre o filme “A história de um casamento” (Direção: Noah Baumbach).

Primeiro, acho que o filme perde muito sem uma analise sob uma ótica feminista. Ou pelo menos, sobre como o feminismo mudou a nossa percepção sobre o próprio divórcio. Muitas pessoas falam que o filme foca em um sentimentalismo e que outros filmes já trataram o tema de forma mais crua. Ainda assim, acho que o filme inova nas nuances, nos equilíbrios dos personagens e na forma como trata o divórcio a partir de aspectos postos a partir do contexto histórico atual. Pode ser uma leitura muito particular e que não se coadune com o que de fato o diretor pretendia, mas me arrisco.

Acho temerária também a ideia de demonizar a advogada que atua em defesa de Nicole.

Bem, para quem não assistiu, cuidado porque eu vou dar muitos “spoilers”. Na verdade, só recomendo o texto para quem viu.

O filme, o tempo todo, tenta trazer os sentimentos e as perspectivas tanto de Nicole (Scarlett Johansson), quando de Charlie (Adam Driver), sem reduzir os personagens dentro dos estereótipos de uma ex-esposa megera e vingativa a todo custo, ou um ex-marido super babaca e violento — o que não quer dizer que tais figuras não existam rs. O filme trabalha como as nuances dos sentimentos deste casal que está vivendo a separação e, por isso, é tão verossímil e doloroso.

E penso que ele só consegue fazer isso porque absorve muitas das questões levantadas pelos movimentos feministas (pensando aqui da forma mais abrangente possível, desde “me too” até os movimentos por leis que criminalizam a violência doméstica).

O filme nos engana nas primeiras cenas. Você se apaixona por aquele casal (não tem como não se apaixonar pela Scarlett Johansson rs, o Adam Driver também, mas a Scarlett está divina na sua atuação) e durante todo filme você é colocado a questionar aquela suposta áurea de perfeição. E somos questionados em pequenas doses, Charlie não é um pai ausente, ele não agride Nicole, ele não levanta tom (pelo menos, inicialmente) etc. Do outro lado, Nicole parece corresponder às expectativas de Charlie, se dedica a ele e ao filho. Mas, aos poucos as tensões vão se revelando, mesmo dentro desse relacionamento, supostamente tranquilo, Nicole não tem suas necessidades acolhidas pelo parceiro. Na verdade, ela se sente sufocada. Na cena em que ela procura a advogada (interpretada pela atriz Laura Dern) e mal consegue contar a história de seu casamento, a sensação dela estar se sentindo isolada e sozinha é marcante. Na mesma cena, quando ela diz para advogada algo como “Charlie não é uma pessoa má”, fica forte a ideia de que não se trata propriamente de demonizar Charlie — e a advogada atua bastante nesse sentido — mas de compreender o desequilíbrio presente na relação que possuíam, na qual Nicole não era vista no mesmo patamar de importância, já que Charlie não dava vazão aos seus interesses, como ser diretora, voltar para Los Angeles etc.

Esse desequilíbrio presente nas relações, em que um fica sempre em segundo plano, quando se torna algo constante se solidifica em uma desigualdade que alicerçada pelas relações desiguais de poder. Ora, fazendo um paralelo com o filme, não é à toa que durante toda a história do Oscar apenas uma mulher ganhou a estatueta em melhor direção (e, diga-se de passagem, venceu o seu ex-marido). As relações desiguais de poderes entre homens e mulheres marcam todas as profissões, as mulheres não são vistas como capazes de assumir cargos de direção, como produzir um filme ou uma peça. O que quero dizer é a desigualdade presente no micro espaço anda casada com a afirmação dessa mesma desigualdade no âmbito macro das relações sociais. Sobre o machismo em Hollywood recomendo o documentário “Luz, Câmera e machismo!” (Half the picture), dirigido por Amy Adrion.

Assim, a grande perspicácia do filme é ir revelando aos poucos como a relação entre Charlie e Nicole é tóxica mais para Nicole do que para Charlie. Isso não quer dizer que Charlie não tenha suas insatisfações sobre o relacionamento, ou mesmo que não irá sofrer (como de fato sofre) com o término da relação, mas a verdade, pelo que fica nítido no decorrer do filme, é que Nicole não tem escuta dentro da relação, o que vai colocando ela para o segundo plano.

Charlie ao não apoiar Nicole nas suas escolhas profissionais, como quando ela recebe o convite para participar da série, ou quando sempre promete que um dia ela irá dirigir uma peça em conjunto com ele, mas esse dia nunca chega, atua quase como um agente sabotador dos interesses de Nicole.

Acredito que a própria posição de Nicole como atriz das peças de Charlie pode ser mais um sinal da relação quase “sujeito-objeto” estabelecida entre eles. Isso fica bem demonstrado na forma como ele passa as “dicas” para ela depois da encenação teatral.

As cenas litigiosas são angustiantes porque pensamos “eles não querem dizer isso um para o outro”. Contudo, mais uma vez, vejo que o filme é muito cuidadoso e atende bastante as novas visões trazidas pelos movimentos feministas. A advogada de Nicole, embora cometa alguns exageros, é fundamental para Nicole conseguir formular seus descontentamentos e para defender suas vontades. Até Nicole ir conversar com a advogada, ela não conseguia perceber e formular para si o quanto suas vontades nunca eram consideradas. É muito boa a passagem em que a advogada questiona Charlie com algo do gênero “quando se trata de seus interesses, as conversas entre vocês são acordos, mas quando se trata dos interesses de Nicole, são apenas conversas”. Mais para frente, na briga mais intensa entre o casal, naquele apartamento vazio que Charlie aluga, Nicole chega a dizer “você faz gaslighting comigo”.

Por outro lado, o primeiro advogado que Charlie procura (e que irá retornar) não tenta ouvir Charlie e está pouco preocupado com seus sentimentos ou em resolver o problema da forma mais harmoniosa. Ele pensa em como vencer e conseguir dinheiro. Já o segundo advogado, que no meu ponto de vista é um personagem muito bem colocado — e penso representar como de fato um advogado de família deveria tentar atuar — é muito mais acolhedor e sensato ao dizer para Charlie que “tudo bem” não tensionar ainda mais a relação durante a separação, que “tudo bem” fazer concessões e que com tempo a situação iria melhorar. Mas você pode questionar: era o filho dele em jogo, como assim “tudo bem”? Nem eu ou o advogado do filme pensamos que Charlie deveria não desejar ficar com filho, mas a questão é: querer ficar com o filho passava por abrir mão de algumas coisas da sua vida (como a vida profissional que Charlie colocava acima de tudo), ainda que provisoriamente; passava por Charlie não ser o centro de tudo. E Charlie se comportava dessa forma: tinham que morar em Nova Iorque; a fantasia do Halloween tinha que ser a que ele escolheu; o dinheiro que Nicole receberia da série deveria ser revertido para a peça que tinha o nome dele; na narrativa dele, somente ele abriu mão de ficar com outras mulheres (como se ela também não tivesse perdido oportunidades) e fez um favor a ela por traí-la uma única vez, já que poderia ter traído muitas outras vezes etc.

Assim, entendo que o segundo advogado que Charlie visita, estava tentando passar essa mensagem para ele, quase que mostrando que aquele seria o momento correto para ele fazer concessões, mudar o comportamento.

Também vale ressaltar a sutileza da cena, que envolve a tentativa de acordo entre eles, quando Charlie fica paralisado e não sabe sequer o que vai escolher para comer. Essa cena demonstra, para mim, tanto a dificuldade de Charlie conceber o fato de Nicole não querer mais ficar com ele, quanto uma relação dependência com Nicole para o atendimento de suas necessidades (o que se confirma com a cena da cadeirinha no carro). Penso que ele não tinha dimensão de quando Nicole sustentava suas necessidades. E, por outro lado, se insatisfeito com a relação, ou no mínimo descontente, a ponto de trair Nicole, não teve a coragem de assumir seus sentimentos, o que também reflete uma falta recursos presente em muitos homens.

Enfim, Charlie volta para o advogado mais beligerante e, em juízo, a situação fica mais apelativa. Sobre esse ponto, teria muitas questões. Primeiro, a maioria das pessoas, principalmente as mulheres, não possuem condições de pagar advogados/as, o que é dito pelo próprio juiz no filme. Ou seja, muitas das mulheres não vão conseguir levar em juízo tantas das questões trazidas pela advogada de Nicole, tampouco se defender daquela forma. Porque, na realidade, embora ainda seja presente a ideia de que as mulheres são maternais e que por isso devem permanecer com a guarda dos filhos, há um movimento contrário que busca utilizar dos estereótipos negativos atribuídos às mulheres ou mesmo da pressão social imposta às mães (o que é brilhantemente trazido pela advogada interpretada por Laura Dern) para quase criminalizadas nesses processos de guarda, como é no caso da acusação de que Nicole bebia.

Ainda sobre esse aspecto, na cena em que Nicole começa a dizer sobre como ela é como mãe, fiquei angustiada, pensando “como assim a advogada não a orientou para não dizer que bebe; ela não pode titubear sobre uso de drogas etc”. Logo em seguida, a advogada para tudo e faz um discurso excelente sobre como as mães não podem mostrar suas imperfeições, porque serão julgadas com muito mais severidade do que os homens.

Nicole, diante do agravamento da tensão entre o casal, vai até a casa de Charlie para tentar uma conversa. Essa conversa se torna uma das brigas mais intensas do filme, culminando com um soco na parede de Charlie e uma fala dizendo que deseja a morte de Nicole. Essa cena dá margem para várias reflexões, mas eu fiquei pensando na violência presente na cena. Justamente pelo filme não colocar Charlie como um sujeito violento, o soco na parede e o desejo de Nicole não existir demonstram o quanto, nestas situações limites, parece que o homem acuado por estar “perdendo” (e Charlie expressa isso, diz que estava perdendo e Nicole logo em seguida diz que ela já perdeu, porque a relação acabou) acaba apelando. Em outras situações, infelizmente, sabemos que o soco não é na parede e a morte não é só desejada. É durante o término das relações que as mulheres vivenciam as situações mais graves de violência.

O sentimento de derrota de Charlie está presente na cena tragicômica com a assistente social. Vejo essa cena não como uma constatação de que Charlie não é um bom pai, mas que efetivamente ele também não escuta o filho, que estava feliz com a mãe e novos amigos. Sem compreender as necessidades do seu filho, seu esforço não iria levar a nada.

Charlie se conforma e busca um acordo com Nicole. Na sequência, vêm as cenas finais brilhantes, Charlie é surpreendido pelo novo namorado de Nicole, que já conquistou sua ex-sogra (e nesse sentido, é interessante notar como o filme mostra que, apesar da ex-sogra gostar de Charlie, ela de fato só é carente e outro pode preencher sua carência), mas Charlie ainda é mais surpreendido quando descobre que Nicole foi indicada ao prêmio de melhor diretora no Emmy. Charlie sequer considerava ver Nicole nesta posição. Penso que essa consagração de Nicole como diretora está relacionada com todo movimento das atrizes e diretoras em Hollywood por ganharem mais representatividade. De novo, é o micro e o macro se relacionando.

Charlie participa do Halloween como fantasma, o que para mim indica essa necessidade dele fazer um movimento para o segundo plano, dele entender que agora era o momento dela. Isso também se confirma quando ele diz que virá para LA, ou seja, ele parece entender que se ele quer ficar próximo do seu filho, terá que fazer alguns ajustes.

Ainda, no final, Charlie se depara com a carta feita inicialmente por Nicole sobre as razões pelas quais ela se apaixonou por ele. Acho essa passagem importante porque a carta está sendo lida para o filho, penso que para o filho é um momento de conexão, para ele saber que seus pais já tiveram essa conexão. Penso que a carta vem para afastar um pouco a beligerância e permitir a existência do laço entre pai e filho, que terá de algum modo influência materna.

Ainda, é pertinente fazer um paralelo com o filme “A esposa” (direção: Björn Runge). A esposa, interpretada pela incrível Glenn Close, que tem todo seu trabalho intelectual apropriado pelo marido, é a Nicole que não conseguiu sair da relação. Por isso, vejo “A história do casamento” como uma leitura de uma separação em um momento histórico em que as mulheres conseguem trazer à tona as sabotagens que vivenciam no casamento, nomeando-as (diferente lá de “Kramer VS Kramer”, dirigido por Robert Benton, em que a personagem de Meryl Streep não tem tanta clareza sobre sua angustia), o que é consagrado pela busca de Nicole em sair daquele lugar que lhe era oferecido e limitado.

Por todas essas razões, ainda que outros filmes tragam questões mais tensas sobre as perversidades que um casamento pode gerar, gostei da abordagem construída dentro de uma ótica de ressignificação dos papéis de gênero, por conta das mudanças atuais revindicadas pelas mulheres e movimentos afins.

Por fim, ressalto que o filme retrata o amor, porque qualquer história de amor que não pense nas concessões e escolhas que são feitas para sustentar uma relação não é verdadeiramente uma história de amor. Mas que essas concessões não sejam nunca exigidas apenas por um dos lados e que elas sejam feitas dentro de um ambiente mais democrático possível, onde ambas as partes tenham suas vontades e desejos considerados.

Yas OMP

Written by

Yas OMP

feminista e apaixonada por cinema.

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