O mundão acaba, mas ela não

Escondida em cada família, descansa uma matriarca. Suas histórias remontam tempos e realidades outras, sua sabedoria atravessa o conhecimento empírico. Decido recontar parte da história por trás de minha família por meio da minha avó Alayde dos Santos. Enquanto ouço, redescubro a personagem exemplo da minha vida. Enquanto escrevo, relembro os versos de Ellen Oléria na canção Antiga Poesia: “Disseram pra neta que avó era analfabeta / O mundão, tá doido, acaba, mas ela não / Minha avó formou na vida e nunca soube o que é reprovação”. Cabe aqui. Certas narrativas não cansam de se interligar.


Ultrapasso a porta de vidro que separa a varanda da sala e a encontro sentada de costas para o portão numa cadeira de plástico branca. O corpo se vira lentamente e vislumbro um sorriso sincero, mas comedido, assim como grande parte de seus atos. Curvo o corpo para beijar sua mão e pedir a bênção, ela me abençoa e sento em seu sofá forrado com capas de tom amarelo levemente desbotado. No alto dos seus oitenta e oito anos, Alayde dos Santos continua a cruzar a parte inferior das pernas elegantemente por debaixo da cadeira. A mão enrugada, com unhas grandes pintadas de um rosa antigo cintilante, se estende até a mesa de canto que abriga o telefone para alcançar uma caneca vermelha. Em intervalos curtos, ela bebe água para aliviar o constante pigarrear causado pelos seus sessenta anos como fumante.

Era perto das 13h, alguns de seus netos e filhos irrompem pela sala a caminho do portão. Sua filha Maria Regina corre para o churrasco de um amigo, a neta Aline se arruma para encontrar o namorado, o filho Leandro decidiu fechar o botequim mais cedo e voltar para sua casa em Vila Nova. A casa de Alayde, localizada próxima às duas ruas principais de Jardim Palmares — sub-bairro de Paciência, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro — se esvazia e ficamos quase a sós: ainda restavam um pouco mais de duas dezenas de bichos no galinheiro e um outro neto dormindo no andar de cima. As mãos se dispõem sobre os bolsos do vestido florido e ela suspira. O tempo passa com tanta pressa por seus olhos que, diante dos pulmões fragilizados, ela prefere observá-lo de onde está. Alayde é quem permanece, o elo que une os diferentes fios conflituosos da família Santos.

Sua história é permeada de lacunas e contradições. Sua origem é datada do município de Castelo, a pouco mais de 99km da capital do Espírito Santo, mas o nome remete à França/Germânia. Bisneta de negros escravizados e filha de índio, a influência de sinhá na tomada de decisões de sua vida é uma das poucas respostas para o enigma por trás de um nome cujo significado remete a uma linhagem nobre. Para os ditos de 1922, a nobreza não condizia com a sua vida simples e com o seu trabalho, pelos olhos de hoje, explorado. Alayde nasceu servindo. Ainda na infância foi morar na Fazenda das Flores, localizada a 6km do centro de sua cidade natal, onde trabalhava para garantir a moradia e por lá passou grande parte de sua juventude. Durante um tempo tentou frequentar as aulas da professora que ia periodicamente à fazenda ensinar as crianças abastadas a ler e a escrever, mas era só a primeira lágrima cair dos olhos do bebê da patroa que seus estudos eram bruscamente interrompidos. Do único conhecimento a que teve direito a ter acesso, Alayde tirou seu sustento: passou a vida lavando roupas, fazendo faxina, cozinhando para fora. Tudo para o outro, muito pouco para si. Das poucas palavras que aprendeu a escrever, uma delas é o seu próprio nome e, ao assinar, sempre desenha cada letra com muito cuidado e atenção para que uma não tome a vez da outra.

Sem saber ler, Alayde lidava melhor com os números. O cotidiano na roça rapidamente a ensinou a contar, mas do anseio de somar, a vida a ensinou forçosamente a subtrair: dos oito filhos que teve, dois morreram e de um não se sabe o paradeiro. As condições precárias, o sarampo e um atropelamento arrancaram de seus braços parte de sua alegria de viver. Quando, em 1997, um câncer de próstata levou Arlindo Moreira, seu segundo marido, os cálculos passaram a ficar de fato em suas mãos. Com os filhos adultos já casados, aos 75 anos Alayde passou a tomar conta da pensão que seu marido lhe deixara de herança. Depois de quitados os gastos básicos, o que sobra é usado para pagamento de dívidas de alguns filhos e excursões da igreja. Avó coruja, ela também está sempre economizando para presentear, mesmo que de forma simples, seus netos e bisnetos.

Tantas perdas fortaleceram sua fé. Ao entrar em seu quarto pode-se ver logo ao fundo uma mesa dedicada aos santos católicos. Cuidadosamente posicionado, o pequeno santuário fica de frente para o lado da cama de casal em que Alayde dorme e divide sempre com alguma neta ou bisneta. Acorda cedo todos os dias para ouvir programas religiosos no rádio e reza a Deus, ao santo do dia, à Santa Anastácia, Nossa Senhora Aparecida e da Conceição. Quando se aproxima o dia de Santa Rita ou São Jorge, pede para neta procurar em um de seus livrinhos a novena. Enquanto ela lê pausadamente a oração, Alayde repete, com o olhar longe, as palavras pronunciadas. Reza diariamente por paz, mas não foge da morte. Depois de quase nove décadas, a senhora já não tem mais medo de morrer, aceita o ciclo natural da vida. Ao passar por um cemitério, sempre o saúda como a um amigo de longa data e repete: “salve terra santa, lugar que ainda hei de morar”. É um lembrete, mas também uma prece.

Desde o parto, a morte a perseguiu. Com uma gravidez difícil acompanhada de um grave problema de varizes, sua mãe faleceu pouco tempo depois de dar à luz. A criança nascera tão fraca e tão pequena que a própria família não acreditava na sua sobrevivência. Sem leite, molhavam um pouquinho de leite de cabra em seus lábios. Sem roupa, envolviam seu corpinho com algodão. Sem esperanças, foi deixada sob os cuidados do tio que a levava para a lavoura numa caixa de sapatos. Quando enfim se viu em seus olhos a força para suportar as durezas da vida, seu tio foi picado por uma cobra e faleceu. A morte dele a marcara tanto que até hoje tem pavor de cobras, mas isso não a impediu de lidar com o bicho peçonhento. Como cresceu no mato, vez ou outra conta histórias de tensão em que teve de enfrentar seu medo. Na ânsia de sobreviver, Alayde enfrenta, persiste, suporta.

Depois do ocorrido, ficou um bom tempo sob os cuidados de sua avó, parteira e rezadeira da região. Nutre um carinho e um respeito tão profundo por sua avó que se reflete no que os seus netos e bisnetos sentem por ela agora. Desconfio que Alayde conseguiu renascer tantas vezes diante da própria dor porque ama e ama com o olhar inquieto, com a fala calma, com as mãos cuidadosas.

Do amor, surgiram casamentos. Todos informais. Casar era se ajuntar num canto com o outro, ter e criar os filhos, dividir a vida. Do primeiro casório, teve três filhos: Manuel, Maria e Maurílio. Com João Fernandes, seu primeiro marido, mudou-se para Cachoeiro de Itapemirim, a pouco mais de 28km da cidade de Castelo e ainda mais afastada da capital. Lá teve uma vida marcada por percalços e continuou fazendo faxina e lavando roupa para fora para complementar a renda do marido policial. Ao entardecer, às vezes sentava para ver as crianças brincarem na rua com os vizinhos. Corriam, sorriam. Lembrava de si e agradecia por seus filhos poderem ser crianças e agir como tal. Das fases de comida pouca e do medo da fome, seus pensamentos me lembram os da poetisa Carolina Maria de Jesus no livro Quarto de Despejo: tinha dó dos pequenos, mas persistia reconstituindo em si a esperança. Sua fé nunca moveu montanhas, mas a deu forças para cortar os galhos que surgiam obstruindo o seu caminho.

Nesse casamento tão distante do sonhado conto de fadas em que minha avó nunca se deu ao luxo de sonhar, a morte mais uma vez pôs-se a bater na porta: Maria, ainda pequena, morreu de sarampo. As fezes saíam vermelhas, sangrentas, até não poderem mais sair. Nossa Senhora a tomou pela mão e levou para descansar. A fé reconforta Alayde, ajuda a acreditar que ainda é possível somar, mesmo quando a vida insiste em subtrair. Anos depois foi a vez de Maurílio.

João, marido alcoólatra e violento, tornava a condição de vida da família ainda mais precária até torná-la, enfim, insustentável. Alayde teve de se desvencilhar do caçula Maurílio desejando-lhe um futuro melhor. Ela não se demora nesse assunto, ainda custa-lhe lembrar das agressões, da arma apontada na cabeça, das noites em que fugia para fora de casa com os filhos. Pouco depois dessa separação forçada, com as lágrimas cravadas para sempre em seu peito, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, com a primeira parada na cidade de Niterói. Percorreu o Rio, separou-se de João e, de mãos dadas com Manuel, mudou-se para Engenho Novo (Rio de Janeiro), Engenheiro Pedreira (Japeri) e Nova Iguaçu.

Foi na popular capital da Baixada Fluminense que conheceu Arlindo Moreira, seu segundo marido. Com ele, teve quatro filhos: Leandro, Ney, Maria Regina e Maria Eugênia. Salvo a caçula, Maria Eugênia, também chamada até hoje de Neném, foi em Nova Iguaçu que todos passaram a maior parte de sua infância e onde Manuel conheceu Bárbara, sua esposa. No final dos anos 1960, Arlindo, funcionário do estado, conseguiu economizar dinheiro para levar a família para o conjunto habitacional Jardim Palmares que até então estava sendo construído em Paciência para atender funcionários públicos de baixa renda e ex-militares combatentes na Segunda Guerra Mundial. Foi a última vez em que a família teve de peregrinar pelo estado.

Quando aqui chegou o mato ainda envolvia os lares. Com um terreno grande, pôde ir reconstruindo uma casa espaçosa e confortável com galinheiro e, anos depois, um botequim ao lado. As casas se reinventavam aos poucos, tijolo por tijolo, outras paredes se erguiam e algo se modificava, se acrescentava à vista. O bairro afastado a 57km do centro carioca, tinha a calmaria de uma cidade interiorana: casas simples, bichos — cavalos, galinhas, patos — nos quintais e nas ruas e poucos habitantes que rapidamente passaram a se conhecer. Juntos cada um ajudou a construir a paróquia de Santa Rita, localizada no topo do morro do bairro. Os homens ajudavam a erguer a igreja e as mulheres revezavam na cozinha para manter os operários de pé. Alayde tem gosto de dormir sob esse teto e entende-se o porquê.

Manuel, o único filho do primeiro casamento que sobrara, casou-se com Bárbara, apelidada de Bina, e teve dois filhos: Marcos e Márcio. Continuou por Nova Iguaçu e ia construindo sua vida até morrer, aos 33 anos, bruscamente atropelado. “A idade de Cristo”, repete Alayde, “a idade de Cristo”. Mais uma vez a perda, mais uma vez o renascimento. Bárbara e seus filhos vieram então morar em sua casa. Cabiam todos muito bem aconchegados em seu lar e em seu coração. Os anos de convivência que se sucederam fizeram florescer uma amizade que perdura até os dias de hoje: compartilharam a dor e o amor. Bina conta que passou mais tempo ao lado de Alayde do que da própria mãe, aprendeu muito do que sabe sobre a vida com ela.

Despretensiosamente, Alayde gosta de aprender. Ouve a cada descoberta dos netos, ouvia ao debate político no rádio e agora o assiste na televisão, assiste ao jornal, ouve as opiniões dos apresentadores e por vezes concorda, noutras discorda. Aprende observando, perguntando, mexendo e remexendo o pedal da máquina de costura, acendendo e apagando as bocas do fogão. Observa as crianças brincando de pique-pega, pique-esconde, queimada e futebol pelo muro do quintal. Pede ao neto que coloque sua cadeira de plástico do outro lado da calçada, ao sol, para olhar “as modas”. Cumprimenta os vizinhos que param para conversar um pouco. Ela ouve e, mesmo sem o auxílio da escrita, faz anotações em sua cabeça.

Da mesma forma que sabe conversar, também respeita o silêncio. Aproveita para refletir e por as novas informações em ordem na cabeça. À noite pede à neta que prepare um café com leite e separa no prato alguns biscoitos cream cracker, pois o estômago já não a deixa jantar todos os dias. Puxa assunto e, entre uma conversa e outra, cochila até se render ao sono ir de vez para o quarto. Com a saúde debilitada pelo diabetes, a hipertensão e principalmente o enfisema pulmonar, os filhos decidiram que já não era mais seguro deixá-la dormindo só. Uma neta sempre a acompanhá-la todas as noites. Passado um tempo, passou a chamá-la carinhosamente de “minha enfermeirinha. Essa neta sou eu.


Alayde dos Santos faleceu na noite de 10 de dezembro de 2010. O perfil foi construído a partir de entrevistas com sua filha mais nova Maria Eugênia, sua nora Bárbara e de minhas próprias lembranças. Resolvi narrar sua história no presente, como se ainda estivéssemos em 2010, porque, apesar de pouco mais de seis anos de sua partida, Alayde ainda é o que permanece, o elo que une os diferentes fios conflituosos da família Santos.

Niterói, 11 de março de 1998. Alayde e a recém-nascida Yasmin
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