Falem bem, falem mal, falem de mim em todo lugar

Yasodara Cordova

Como os grupos bolsonaristas tiram vantagem da arquitetura fundamental da Web para espalhar obscurantismo e reforcar idéias conservadoras

A história fácil de comprar é que vamos eleger um ignorante racista, machista e homofóbico por causa das redes sociais. Facebook e Whatsapp teriam sido as principais molas que impulsionaram o discurso de ódio e a polarizacão, e não a desigualdade estrutural ou a falta de crescimento do Brasil nos últimos anos. Também é fácil comprar a história de que o Whatsapp é uma deep web, um buraco sem fundo que ninguém tem acesso, como se fosse um Brasil paralelo, e que porisso o brasileiro ficou violento e homofóbico. Por último, chegamos à narrativa de que o Bolsonaro está a comprar dados dos usuários via Cambridge Analytica, ou que suas redes são pagas por Steve Bannon, o doidão ultradireita americano.

Independente de qual sua opinião, tente desconfiar dessas narrativas.

Antes de tudo é super importante entender as diferencas arquiteturais entre os aplicativos de mensagem e o Facebook. Pra isso vamos entender as fundacões de ambas aplicacões: os protocolos que sustentam cada arquitetura. O Facebook, o Youtube, o Twitter, Pinterest, Gab e outras redes sociais são cosntruídas para funcionar via Web. Tecnicamente, a World Wide Web depende de três protocolos de habilitação, o HyperText Markup Language (HTML) que especifica uma linguagem de marcação simples para descrever páginas de hipertexto, o HTTP usado pelos navegadores da Web para se comunicar com clientes da Web e Localizadores Uniformes de Recursos (URL’s) que são usados para especificar os links entre os documentos. Significa que a Web — tudo que voce olha quando abre seu navegador (Firefox, Chrome, Safari) se estrutura em torno de:

  • organizar documentos/informacões;
  • tornar essas informacões públicas e disponíveis;
  • compartilhar essas informacões

Não sou eu quem está dizendo, mas o próprio cara que propôs essa maneira de usar o hypertexto (aqui está o paper). Sendo assim, podemos dizer que tudo que cai na web acaba se tornando, de uma maneira ou outra, disponível. Por causa das URIs, todo recurso (foto de gatinho, representacao de pessoa, música, etc) ganha um endereco pra você acessar — o LINK. Com esse link, mais os metadados que circulam pela web de servidor a servidor, fica fácil de encontrar coisas na web de superfície. O Google foi criado com base nisso, e tem só aperfeicoado seus robôs em termos de descobrir conteúdos nesse mar de informacões que se chama Web.

A Web é uma grande praca pública com várias dimensões.

Redes sociais, blogs, sites de notícias, artigos em pdf, sites como o youtube, lojas, fóruns, tudo que tem um link, ou um endereco Web, está descobrível por humanos ou por máquinas. Esse espaco pode muito bem ser comparado à uma ÁGORA, que é a definicão para espaco público que usamos para nos referir à espacos arquitetônicos da Grécia antiga onde as pessoas faziam meio que de tudo: compravam coisas, vendiam, conversavam, comiam... E faziam “política”. Era comum nesses espacos, que originaram pilares de práticas democráticas, alguém discursar ou anunciar algo, ou declamar poesias (às vezes de cunho político). A dinâmica de talk-show, que o Professor Virgílio descreve aqui, e que está presente em nossos murais de face, ou no twitter, é mais velha do que a gente gosta de lembrar.

Imagem da Wikipedia

A web adicionou mais dimensões ao nosso espaco público. Além de ficar mais difícil de saber quando estamos comprando algo, ou sendo comprados, ou quando estamos trabalhando ou nos divertindo, também ficamos sem a sensacão temporal das coisas.

Na web, tudo parece acontecer ao mesmo tempo. O ultimo layer de complexidade foi adicionado pela presenca de atores invisíveis, os algoritmos, que puxam e empurram os discursos públicos que fazemos pra lá e pra cá, agregando dimensões que fisicamente seriam impossíveis de existir.

Christopher Alexander, um urbanista e professor de Stanford, mapeou algumas funcões do espaco e com isso descreveu características que são importantes na criacão de construcões de uso comum. Em todos os seus mapeamentos ele frisa a importância de ser ter um equilíbrio entre espacos privados e públicos e também o valor de espacos para reuniões menores entre grupos, em escala muitas vezes proporcional ao tipo de atividade.

Condicões para espacos públicos que funcionam democraticamente, presentes no livro “A Pattern Language: Towns, Buildings, Construction”

Assim fica interessante associar as redes sociais que funcionam com protocolos Web à grandes espacos públicos, onde todos de repente sobem em banquetinhas para fazerem seus talk shows, com seus pequenos grupos de seguidores.

Já os apps de mensagem são, hoje, o espaco privado necessário para o bom funcionamento do espaco público

Os aplicativos de mensagem funcionam de outro jeito. O Whatsapp, em especial, utiliza uma versão customizada do protocolo aberto que é chamado de XMPP, ou Extensible Messaging and Presence Protocol. Quando você instala o aplicativo e ativa, ele cria uma conta pessoal que te identifica como emissor de mensagem, e a partir daí vai direcionar suas mensagens para outros membros registrados no mesmo node, ou avisá-los de quando você está ou não presente. Essa dinâmica não tem nada a ver com a Web. É como se você tivesse exercendo seu poder de conversar pessoalmente, frente-a-frente, com outras pessoas, mediado por protocolos desse tipo.

O pessoal do Whatsapp leva tão à sério essa filosofia de conversa privada que adicionaram uma camada a mais de garantia de privacidade ao app: a criptografia ponto a ponto, tão falada e criticada, mas que nada mais é do que um conjunto de chaves que são trocadas entre mensageiros, não permitindo que quem não tenha as chaves possa acessar as conversas.

Simplificando, funciona como na figura abaixo. Desse modo, mesmo que você participe de um grupo de conversas no aplicativo, todas as suas conversas estarão resguardadas de intervencão. Ninguém poderá pegar sem ter acesso às chaves ou sem participar do grupo.

Imagem retirada daqui

Podemos fazer um experimento e comparar esses espacos privados aos espacos onde encontramos amigos mais próximos ou onde encontramos nossa família. Nossas casas, salas de jantar, clubes privados, igrejas. São espacos que proporcionam conversas onde nos sentimos à vontade pra expressar preocupacões e pensamentos ainda em estágio de dúvidas, ou observacões — e onde estamos mais abertos à críticas e debates. São espacos onde podemos criar ou reforcar lacos, ou onde criamos organizacão e confianca.

Assim, grupos de zap não são propícios às TRETAS por acaso. Telegram, Signal (que eu recomendo), Wickr, Riot, entre outros, são apps que funcionam dessa maneira e que possibilitam a criacão desses espacos no nosso mundo virtual. Essas conversas existem porque os espacos são privados, logo, não há o que chamamos de discoverability, ou o grau em que algum recurso está descobrível. Quanto mais fácil de descobrir algo está, mais público, mais encontrável por humanos ou por máquinas, como os robôs do Google.

Agora que já entendemos um pouco da funcão de cada aplicacão e a relacão dessas funcões com a arquitetura do protocolo de cada um, vamos ao assunto do começo: as narrativas que colocam a tecnlogia no centro da origem do obscurantismo.

Não é verdade que notícias falsas criam idéias conservadoras. Idéias conservadoras e obscurantistas são o palco para as notícias falsas.

Quem sabe muito bem disso é o exército que opera a distribuições das informações nas campanhas do candidato ignorante. Se valendo de um cenario polarizado, que é decorrência de uma desigualdade ENORME entre as camadas sociais, além de outros motivos que tem mais a ver com as condicões sócio-econômicas do Brasil, mais o fato do Brasileiro estar confinado ao Facebook e seus domínios, (assunto que abordei aqui nesse post pro The Intercept Brasil), o exército apelidado de “Bolsomínions” usa uma funcão do zap pra se tornar descobrível. o LINK. Não é exclusividade deles. Quase todos os grupos aleatórios, não privados, que já entrei eu achei na web, via links. Grupos pra trocar música, pra trocar senha da Netflix… etc, todos publicam sua porta de entrada.

A técnica é: criar vários grupos e listá-los na web. Assim, sites como o Grupos de Zap, ou outros sites que eles mesmo colocam de pé vão listando os grupos e gerando links para que as pessoas descubram esses grupos e assim, tragam os conteúdos das conversas privadas para o espaco público. O conteúdo desses grupos vai rapidamente parar no Facebook, e do facebook para tuiteiros famosos da direita é um pulo. Quando um tuiteiro famoso declara algo baseado em um material de grupo público de zap e obtem uma resposta, rapidamente os jornais escrevem e publicizam esse material, populando a web rapidamente com o debate sobre idéias conservadoras e obscuras, também conhecidas como CHORUME. Assim, as idéias que ocorrem em grupos privados que não estão descobríveis na web não ganham publicidade nem artigos ou reportagem, não sendo, portanto debatidas publicamente.

A gente acaba ficando com a impressão de que a qualidade do debate está na idade média, quando na verdade estamos falando do debate público. Claro que vários desses atores, os que comandam os sites que abrigam conteúdo obscurantista e conservador, ganham rios de dinheiro com isso. É óbvio que figuras obscurantistas e conservadoras, pra não dizer bizarras, como certos atores pornôs que se elegeram deputados recentemente, lucram com esse hack, pois ganham visibilidade e se tornam proeminentes pra além da web. Lembrando que, pelo fator discoverabilidade, ou o quanto algo está fácil de ser descoberto pelos robôs ou humanos que varrem a Web, ganha quem mais aparece. É como se a gente estivesse brigando por espaco na pracas que mencionei lá em cima, a àgora, só que agora conta mais quem encher mais a praça — pois todos falamos ao mesmo tempo em uma web que não dorme por conta dos algoritmos, que trazem de volta o conteúdo mais falado, mais mencionado, mais curtido, mais evidenciado e portanto mais encontrável em todos os cantos da nossa web da superfície.

Patterns for the private realm, número 37, tirei desse maravilhoso website

Temos como salvar nossa democracia?

Itália e Espanha também apresentam um número louco de usuários desses aplicativos de mensagem, que usam os apps pra organizar festas e debater politicamente, do mesmo modo que nós, brasileiros, utilizamos. A pergunta, que já fiz aqui em inglês, é porque só nós estamos sendo acusados de destruir a democracia com fake news. A resposta é: porque temos bastante adubo para idéias conservadoras circulando em espacos privados como igrejas, clubes de esportes, agremiacoes, clubes e outros tipos de espacos que permitem a consolidacao de idéias e a formação de laços pessoais. Antes das pessoas se organizarem em espacos virtuais em comum, como grupos de zap, elas vão aos cultos, comparecem aos clubes de esportes, trocam idéias e consolidam suas visões de mundo em mesas de jantar. Uma boa dica é partir pro estudo antropológico desse fenômeno, o Bolsonarismo. Eu gosto muito de tudo que a Dra. Rosana Pinheiro-Machado escreve sobre o assunto, em especial a entrevista dada à Calle2, pois resume bem vários caminhos que podemos percorrer pra entender nossa direita extrema. Agora que a esquerda (e a sanidade) tem grandes chances de perder as eleicoes presidenciais, é hora de continuar o trabalho de base de vários grupos que estão no modo privado.

Sejam de esquerda ou de direita, grupos que entendem o valor de políticas de inovacão — como por exemplo a liberação da maconha ou o acesso à internet sem zero rating, precisam sair do Facebook (a nossa praça pública) e voltar a debater em espacos privados. Organizar não é fazer marketing: precisamos voltar a estabelecer conexões que estejam além da racionalidade pra constituir resistência à idéias de idade média, como o creacionismo. Gente que é a favor de educação de qualidade, de graça, e saúde para todos, por exemplo, precisa criar regularidade na discussão de convencimento e baixar a bola, usando argumentos comuns à racionalidade, fazendo frente ao conservadorismo que assola o Brasil (antes que a gente vire um irã, uma venezuela).

E o que os fabricantes de apps devem fazer pra ajudar?

Se tem um outro apelo que eu faria hoje ao Facebook, além de que PAREM DE BURLAR O MARCO CIVIL E DESRESPEITAR O ZERO RATING, seria o de retirar a funcão de links para convite a grupos de zap. Quem já visitou grupos bolsonaristas sabe que essa é a principal arma: o convite para entrar. Assim faria o apelo para por favor manterem o grupo de só até 256 pessoas (se pans diminuir??) e continuar distribuindo o app livre de ads e monitoramento de conteúdo. Do contrário, vamos todos ter que partir para apps que sejam realmente privados, sem espacos para potenciais invasores.

Outra coisa que ajudaria muito é a punicão pra quem exprime, publicamente, opiniões obscurantistas.

Eu amo ler comentário do G1. Antigamente era uma piada pra mim, assim como visitar sites sobre a terra plana, ou U.F.Os. invadindo o planeta. Acontece que muita gente leva à sério os comentários e enxerga aquilo como uma extensão do veículo de notícias. Eu sei bem que o Marco Civil não responsabiliza as plataformas por conteúdos de comentaristas, mas gente que gerencia páginas onde comentários contra as Leis do país são feitos tem que ter a responsabilidade ética de, ao menos, moderar, ou discutir esse tipo de opinião para não normalizar.

Comentários que exprimem racismo, visões de apoio ao nazismo ou à eugenia ou até incitacão ao crime precisam ser reavaliados por redações, pois as praças públicas virtuais normalizam comportamentos, à medida em que se aceita a convivência com eles.

Outra coisa que precisa ser feita com urgência é: as autoridades aprenderem a investigar crimes em ambientes virtuais — e punir, acabando com a desculpinha de que o Whatsapp é um buraco negro. Canso de receber zap com número de telefones de pessoas tendo diálogos racistas ou que incitam a violência e é um absurdo que essas pessoas não recebam nem uma advertência das autoridades.

Estamos co-criando nossos ambientes virtuais o tempo todo e é importante não cair na tentação de achar que não temos responsabilidade nisso. Entender como as tecnologias funcionam em um dado ecossistema é só a primeira parte de um trabalho diário de construção do diálogo, e vai muito além do Facebook e do Whatsapp.

Yasodara Cordova

Written by

World Bank Agile/Civic Tech Fellow 🛠️ Directorio @ciudadania_i ★ @BKCHarvard Alumni ★ former Harvard Kennedy School Senior Fellow and @W3C

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