Essa ressaca de Dados Abertos…


Dados Abertos. De novo. Me atormentando como uma ressaca forte, toda vez que eu volto de uma conferência sobre o tema. As mesmas perguntas, as mesmas respostas.

Mas esse artigo não é sobre open data. Esse texto é sobre um jeito diferente da gente funcionar, se organizar. Este post é uma reflexão sobre um ou dois pontos entre cidades inteligentes e seu fluxo prometido de dados (que nunca saiu do papel, mas por enquanto, tá beleza) e o sistema onde estamos incluídos. As perguntas das conferências de open data, smart cities, bigdata e seus derivados quase sempre giram em torno de como esse fluxo de dados vai gerar mudanças, ou sobre como estes dados podem ser gatilho para um gerenciamento decente de nossos recursos, trazendo a transparência e o tal “governo aberto” como consequência, além de grana, claro. E oportunidades.

Antes de mais nada, uma voltinha sobre como viemos parar em um mundo onde mais de 54% da galera mora em cidades. Desde que começamos a trocar a enxada por conhecimento e nobres por burgueses os burgos começaram a se formar. No finalzinho da era feudal a galera começou a fazer coisas em “série” — tipo cadeiras, rodas pros arados, correntes pros cavalos, coisas assim. Isso foi gerando uma classe de pessoas que vendiam pros nobres e eram independentes das relações de suserania e vassalagem.

De um certo modo, essa gente era descolada dos tradicionais agricultores e criadores porque gerava conhecimento — manuais de como produzir cadeiras, de como fazer mesas, selas, facas, espadas, entre outros bens.. de consumo. Então foram acumulando coisas e conseguindo mais poder e riqueza, e as cidades foram se formando em torno de novas trocas, novas relações. Demorou bastante, mas os reis foram dando lugar a outro tipo de governante e o poder, assim como a riqueza foi distribuída — mas nem tanto.

Os burgos aglutinaram gente, o que subverteu um pouco a lógica da época, de controle via relações de sangue, entremeadas por credos e dogmas religiosos e místicos. De repente, qualquer um podia ser nobre, desde que rico.

Enfim, a vida devia ser uma merda naquela época, mas a mobilidade social que se conquistava (devagar) e o pouco de melhoria na qualidade de vida que foi chegando melhorou o cenário. A sorte é que o ser humano não para de pirar e nessa onda começamos a nos juntar para:

  1. beber; comer; trocar serviços e bens e dormir.

Isso foi gerando demandas em torno de melhores condições para:

  1. comer, beber, acesso à médicos e remédios (saúde);
  2. ter acesso à entretenimento, teatro, poesia, cinema, tv (cultura);
  3. saneamento básico, segurança e transporte (moradia, infraestrutura básica)
  4. acesso a meios de produção, ascenção social, qualificação de mão-de-obra (educação);
  5. Correio, telegramas, telefone, ⭐⭐Internet ⭐⭐ (comunicação)
  6. guardar dinheiro, salvar fundos para os filhos, transmitir herança, manter registros, cartórios, etc (sistema financeiro);
  7. elaborar leis e aplicar, gerenciar os impostos de todos mundo (governo)

Essas demandas tem sido atendidas devagar, na medida em que se mantém, (no ocidente, claro), as relações entre os trabalhadores e patrões equilibradas — leia-se um monte de gente trampando, poucos lucrando, mas de bouas. Até agora.

Muita coisa aconteceu desde o final do feudalismo e a coisa hoje está muito melhor, considerando que aprendemos até a lavar as mãos antes das refeições. Só que chegou aquele momento crítico em que o aquecimento global vai piorar tudo, a água está acabando e com ela nossa paciência, que é proporcional ao medo das pessoas de perderem… Suas propriedades, vidas, conforto, carros, roupas de pele, etc etc. À parte disso, boa parte das pessoas que tem mais acesso à informação por causa da Internet estão se perguntando:

“Se eles sabem que isso está errado, porque não se mexem se foram eleitos pelo povo?”

As demandas, mais que necessárias, parecem demorar demais pra serem atendidas, e não faz sentido que exista um firewall entre as pessoas e seus governantes uma vez que um website pode encurtar o caminho da mudança de fatos que estão mais do que errados — como por exemplo o fato de um deputado ganhar o equivalente ao necessário pra alimentar um bilhão de creches. (sim, pesquisem ai, o número com certeza é absurdo)

As pessoas passaram a exigir rapidez na execução dos remendos que precisamos pra evoluir nas demandas criadas pela formação das cidades e pela nossa convivência porta-a-porta. Estamos nos tornando mais CIVILIZADOS, ó que beleza. E precisamos de resolução rápida para conflitos e necessidades porque estamos evoluindo depressa. Essa necessidade de rapidez é culpa da ⭐⭐Internet⭐⭐ que encurtou os caminhos da informação.

“A Internet se tornou o sistema nervoso do século XXI, conectando os dispositivos que carregamos, dispositivos que estão nos nossos corpos, dispositivos em que nossos corpos estão. Ela está costurada no tecido do sistema de entregas do governo, em sistemas de guerra, em grupos de ativistas, nas principais corporações, nos grupos sociais de adolescentes e no comércio de mascates (o tradicional vendedor de porta em porta).” (desse artigo do Doctorow)

Ok. Um resumo raso de uma parte da história.

Mas e o que isso tem a ver com os dados abertos?

O lance dos dados abertos, tirando a parte técnica, que tem mais a ver com linkar a informação na Web do que com salvar os governos da corrupção; gera um barulho danado. Toda conferência que eu vou tem um monte de gente se matando pra fazer governos abrirem dados, outra parte tentando fazer a sociedade usar e o que sobra tá sempre “tentando entender o que é isso”.

Milhares de hackatons, milhares de datasets, bilhões de eventos, acordos, cartas, portarias, congressos, parcerias, grupos de trabalho, estudos, monografias, teses textos e artigos, além de livros e posts em blogs. Tudo isso tem sido produzido de modo brilhante pela comunidade, que é entusiasta e ama os dados, todo mundo na vibe “share datalove!”.

Hoje temos muitos dados abertos, muitas ferramentas disponíveis, documentadas, livres e proprietárias, mas os problemas das cidades se multiplicam e os governos começam a perder espaço, ou a ceder o controle dos dados para empresas que detêm o ponto de coleta. O Waze é um exemplo, mas existe uma lista infindável. E isso é bom.

Desde o começo da semana tenho acompanhado o lançamento de um app, feito pela Aliança pela Água, que nada mais é do que uma interface de coleta de pontos de falta d’água na base da cadeia de consumo, ou seja: as pessoas informam. Em menos de 3 dias eu vi os pontos no mapa passarem de 1000 no Brasil todo (SP vencendo, claro). Dados sobre a disponibilidade da água, fornecidos voluntariamente.

Agora vejamos dados da SABESP sobre o racionamento de água em SP. As regiões “Chácara Flora ZA” ou “ZB” não dizem nada. Então, os dados estão aí, mas não adianta muito pra alguém que quer saber só se vai ter água pra tomar banho. A diferença do posicionamento da Aliança pela Água, que entendeu que coletar direto com o consumidor faz mais sentido, e do pessoal que luta pela abertura de dados é que: o primeiro não se conformou com isso que está ai.

Esse é só um exemplo de como o governo vai ter que mudar junto com a sociedade, na raiz, pra fazer avançar a pauta dos dados abertos e transparência de gestão. E-gov não existe sem essa mudança estrutural.

Até porque dados já nascem abertos — se são fechados depois é por um erro de planejamento e não de técnica. Se o registro de tabelas é feito em um excel e não em um banco de dados estruturado e com API é porque o planejador errou. O erro não está nas ferramentas em si, mas na escolha delas. Pra isso, os governos precisam de gente capacitada para decidir, ou seja: precisa contratar hackers. E precisa pagar bem, além de deixar o hacker livre para participar de comunidades online e ir e vir a eventos para produzir, prospectar e integrar na comunidade suas necessidades e vice-versa. Outro ponto é a questão da licença de uso aberta. Ela é mais do que necessária, em tempos de data brokers.

Fazer “open data by design”, significa também mudar toda a cadeia de obtenção de dados e oferecimento. É preciso um repositório como o CKAN, mas é mais necessária ainda uma interface mais adequada para a apresentação de resultados das demandas e de mudanças em tempo real pro cidadão.

Cidades como São Paulo têm problemas claros e as soluções não dependem mais de decisões solitárias do governador ou do prefeito com sua equipe. Está todo mundo vendo, todo mundo sabendo. As decisões precisam depender de métodos de coleta mais inteligentes (parem de pensar em celulares, por favor!) e pervasivos — e principalmente que não ameacem o cidadão de um estado de vigilância.

A gente precisa que o Governo divida o poder para poder participar das decisões e usar os dados para alguma coisa útil. Não adianta ficar abrindo dados, fazendo milhares de aplicativos em hackatons se na hora de usar os dados existem firewalls na gestão que impedem que se faça a vontade do povo. Com a Internet, com dados abertos, a vontade do povo não é mais só o voto: é também o e-mail que chega com a pergunta, o commit no git do projeto, o pedido de acesso à informação.

Open data não faz mudança. O que faz a mudança acontecer é a decisão baseada na leitura que os cidadãos fazem dos dados.

Por último: Open Data não é inovação.

Dados são bits e bytes, fluindo dali pra cá, nada mais. Isso é velho. A graça desses dados é a informação e seu potencial de agregar mais informação ainda é que aumenta seu valor disruptivo.

Tecnicamente, nnão tem grandes segredos se você tiver equipes competentes. Tudo são processos que envolvem a possibilidade de se passar dumps pra formatos decentes e colocar na Web de modo bonito e legível até por máquinas, ou usar APIs etc.

O foco disso tudo deveria ser o fato de que a Internet vem provocando uma mudança parecida com a que rolou na época feudal: uma avalanche lenta e gradual de reposicionamentos estruturais e transições entre o passado e um presente que pode ser melhor. A revolução não virá dos dados, mas pode vir de novos modelos que a gente adote para gerenciar nossos próprios recursos, com base nesses dados.

As demandas mais importantes das cidades inteligentes dependem de governos inteligentes pra dar respostas rápidas e eficientes. Melhorias rápidas na saúde, cultura, moradia, infraestrutura básica, educação e comunicação dependem de mudanças rápidas no governo. Voltando à citação do texto do Doctorow, se a Internet é o sistema nervoso do século XXI, precisamos distribuir as informações de modo mais sináptico, abundante e com resposta milhares de vezes mais rápida e confiável do que o que tem sido feito. Por enquanto, estamos tetraplégicos.

Por causa disso a coleta é muito importante. Ela precisa ser feita de modo voltado à distribuição imediata, livre e legível por humanos! E a cobrança pelo streaming contínuo de dados, pela internet livre e pelo acesso incondicional é tão importante quanto ter o CKAN instalado.

O dispositivo de coleta é crucial aqui. Enquanto eu e você estamos lendo que existe uma app pra isso e aquilo, que funciona no Android e no Iphone, na Estação da Sé passam por dia mais pessoas do que eu consigo contar estrelas em São Paulo.

Porque não existe um tótem eletrônico por lá coletando dados qualitativos enquanto as pessoas se amontoam?

Porque não tem um painel interativo mostrando dados de gastos vs lucros com votação para priorização de gastos via gestos e não via identificação por email num celular?

Ah, porque nas Estações de trem e metrô não tem internet livre. Também não tem lugar pra sentar nem tomada pra carregar os celulares. Não tem infra-estrutura mínima de acesso à quem não tem condições (ainda) — mas tem shopping do lado da Estação. Smart cities ftw.

De um modo geral, antes que o governo se coce pra fazer, empresas vão acabar fazendo. Veja o exemplo de Los Angeles, que acaba de implantar paradas de ônibus inteligentes. Há volume e demandas para os problemas serem resolvidos sem que os cidadãos se envolvam, de modo que podemos perpetuar as coisas, deixando que governo e empresas decidam tudo enquanto vivemos e produzimos (dados, inclusive) e nesse futuro dados abertos não fazem a diferença.

Ou podemos pensar de modo mais sistemático sobre a questão das regras para o gerenciamento coletivo dos recursos, das cidades, da convivência. Podemos forçar por uma abertura estrutural, dentro do discurso de Open Data, começando por discutir quais datasets precisamos realmente, nos baseando em problemas críticos, não em bases aleatórias que já estavam semi-prontas.

Eu não quero saber os nomes dos parques do Brasil. Quero saber sobre Belo Monte, quero dados sobre mortes de jovens negros, árvores derrubadas e também as contrapartidas da Globo pra Petrobrás quando faz filme com dinheiro público. Como disse uma pessoa em um painel que participei na Condatos:

Dados abertos convivem perfeitamente com a corrupção.

E convivem mesmo, porque dados abertos não resolvem o problema da falta de transparência. Eles podem mostrar como algo pode mudar, mas quem decide pra onde vamos somos nós. E essa decisão depende de um entendimento mais holístico e sistemático do potencial de mudanças que a Internet trouxe. Essa escolha depende de enxergar a Internet e sua interface conosco, a ❤️ Web ❤️, como uma ferramenta para redesenhar o sistema do mundo, as regras e assim, redesenhar de novo o mundo em que vivemos.

Essa vai ser a verdadeira revolução dos dados.