
O casamento
Você poderia dizer que, por serem apenas crianças, não compreendiam o significado do que estavam prestes a fazer. Mas eu te asseguro: esta era a razão exata pela qual não só o compreendiam, mas o compreendiam perfeitamente. O menino e a menina descobriram o amor.
Se conheceram na escola, e suas primeiras palavras para ela foram “posso pegar seu lápis?”, ao que ela cedeu, tímida e ligeiramente surpresa. Sua resposta foi um rápido e quase imperceptível aceno de cabeça, ela não era de falar muito. E não foi preciso muito mais do que isso para estabelecerem entre si uma afetuosa cumplicidade. Não é preciso conhecer esta palavra para realizar o seu sentido, aqueles dois eram a prova.
Brincavam juntos no recreio. No balanço ou na gangorra. E quando chovia, ficavam desenhando. Quase sempre sem nenhum diálogo. Em silêncio se entendiam, e a companhia um do outro já era mais do que o suficiente.
Mas nada pode ser perfeito. Ao final do ano, os pais do menino o comunicaram a notícia: iriam mudar-se para outra cidade. E o pobre menino ficou desolado. No dia seguinte, o contou à menina. Ela estava prestes a chorar quando ele subitamente disse que precisavam de um plano. Ela o ouvia atentamente. Depois de um minuto pensando, ele declarou: “a gente pode se casar!”. Confusa, mas sem discordar, ela o olhou e perguntou se isso não era coisa que só adultos faziam, ao que ele respondeu que sim, mas era o que eles precisavam fazer. “Então, como?” Ele disse que eles deveriam prometer para toda a vida, um juramento solene. De mindinho.
E foi o que fizeram. Juraram de mindinho para toda a vida. Não especificaram exatamente o quê, mas prometeram de todo o coração. E o beijo ele a deu na bochecha, de olhos fechados, decidido e cheio de vergonha.
