
Uma visita, um incêndio e uma revolta
Foi em um dos sábados de 2015. Nós acordamos bem cedo, pegamos a bolsa térmica cheia de sanduíches e um bolo que fizemos na noite anterior, e saímos de nossa casa que fica a 94km de distância de São Cristóvão. Piquenique em família na Quinta da Boa Vista. A viagem foi longa e divertida. Não lembro de muitos detalhes, mas lembro que estava animada e que era a primeira visita à Quinta de minha irmã - ela não parecia tão animada, mas sei que estava. Meus pais contavam suas histórias, faziam graça e todos ríamos. E meu pai nos comprou doces de um camelô do trem.
Chegamos na estação e era só atravessar a rua. Os portões abertos, gente entrando, gente saindo, gente segurando balões coloridos. Entramos e tudo era enorme. Árvores, árvores, árvores a perder de vista. Pessoas fazendo piquenique, casais andando de mãos dadas, crianças brincando, foi quase como aqueles finais alegres dos filmes de drama. Só faltava mesmo uma trilha sonora que combinasse. Eu estava achando tudo ótimo. Decidimos visitar o zoológico primeiro, piquenique depois.
Tentamos fazer gracinhas para os macacos, conversamos com as araras, minha mãe ficou com medo das cobras, nos apaixonamos pelos pinguins e seu jeito de nadar tão engraçadinho. Vimos as lhamas, os leões, tigres, tucanos e um urso que parecia tão de saco cheio daquela vida. Eu nunca concordei muito com a ideia de um zoológico, mas isso é conversa para um outro dia. Porque, leitor, ao sair do zoológico, fomos ao Museu Nacional.
E como era enorme, um prédio majestoso, imponente e cheio de detalhes, e havia muitas pessoas por lá. O motivo: a entrada era de graça, o Museu estava em comemoração - não lembro exatamente o motivo, sempre fui ruim com datas -, e como aquela era uma dessas oportunidades que só se têm uma vez na vida e outra na morte, entramos também. Que experiência. De cara tinha um meteorito gigante logo na entrada. Começamos pela parte pré-histórica. E um esqueleto de dinossauro gigante com o qual a minha mãe quase me obrigou a tirar uma foto. Fósseis, explicações, mais fósseis e figuras, tudo muito organizado. Um legítimo passeio cultural. Peço o perdão dos especialistas, sou extremamente leiga no assunto e provavelmente direi bobagens. Tinha a área egípcia, múmias e esquifes, sarcófagos e tudo o mais, inclusive um moço vestido de faraó, eu acho, e minha mãe também tirou foto com ele, assim como todas as outras mães que estavam por lá. Havia a área indígena, imperial, grega e romana, esta tinha um moço vestido de soldado romano, com capacete de franjas vermelhas e tudo, e minha mãe também tirou foto com ele. Passamos deslumbrados por todas as vitrines, um acervo surpreendente, tirando mil fotos, comentando tudo (fazendo piadas), mas com todo o respeito pelos que estavam na terra antes de nós. Era tanta coisa que eu fiquei triste por não poder ficar mais tempo. Não me importo com o quão piegas isso soe, foi um dos melhores dias da minha vida. Tudo era tão maravilhoso, foi inesquecível.
Perfeito, né? Agora, imagine o choque quando, no dia 02 de setembro de 2018, anteontem, eu o vi pegar fogo. No ano de seu bicentenário, o Museu Nacional e todos os seus vinte milhões de itens sendo consumidos pelas chamas. Por pura negligência - foi por não mandarem trocar os fios - de um governo que você suporia ser seu maior protetor.
