O primeiro encontro com o estranho de olhos verdes.

Você pode ler o texto ouvindo essa música.

Naquele dia eu acordei muito nervosa, com caminhões desgovernados no estômago, mal consegui tomar água durante toda a manhã tamanha ansiedade. Durante a aula, a hora não passava, tentei prestar atenção ao conteúdo e olhar o relógio ao mesmo tempo.

09h27min eu não conseguia mais aguentar, nem esperei o professor terminar de falar e sai da sala, precisava respirar, entrei no banheiro e me olhei no espelho. Será que ele ia gostar de como eu estava vestida? O cabelo não estava muito favorecido por conta do tempo frio, tentei ignorar as inseguranças, se fosse pra ele gostar de mim, gostasse de quem eu sou.

Fui em direção ao elevador, andando devagar, não queria chegar antes dele. Ser a surpreendida sempre me deixa mais nervosa. Cheguei na secretaria, coração gelado, mãos nem se falam, os caminhões no estômago pareciam ter se embolado numa batida múltipla, segui em frente, eu nunca fui covarde. Peguei a senha e aguardei, minha vez de ser atendida chegou, sentei, respirei e comecei a me acalmar.

Conversei com a atendente, explicando minha situação, e entre uma fala e outra a vejo dar um sorriso divertido para alguém atrás de mim e dizer “Você esqueceu sua identidade”. Olhei para trás e dei de cara com um par de olhos verdes que me disse “Te conheço de algum lugar”. Quis morrer, quis cavar uma cova e enfiar minha cabeça dentro, quis matar ele e enfiar a cabeça dele dentro de uma cova. Com que direito ele estava ali? Ele não tinha medo de me causar um ataque cardíaco? Como pôde sorrir ainda por cima. E o respeito por mim? Respira, e não pira, tentei me lembrar.

Voltei a olhar para frente, minhas mãos estavam tremendo, o que eu estava falando com a atendente mesmo? Ah ok, lembrei. Nada funcionava como deveria, ali mesmo já comecei a ficar apavorada, olha o que esse cara causou em mim em alguns segundos. Ela me olhou e disse que estava feito meu pedido, já? Não pode me salvar desses olhos estranhamente profundos nem por mais uns minutinhos? Não. Eu não estava pronta, mas pelo visto teria que encarar assim mesmo. Onde estava meu autocontrole? A forma como eu sempre sei lidar com tudo e prever o que vai acontecer? Tinha desaparecido mesmo e a culpa era dele.

Compramos um café da manhã para ele e um chá gelado para mim, não deixei de perceber que ele lembrou meu sabor favorito, pêssego. Sentamos frente a frente, abri o chá e olhei para ele de novo. Puta merda. Amigo, seus olhos nunca ficam normais? Qual a necessidade de falar tanto com o olhar? Por que me ver tanto? Me senti invadida, como se ele abrisse a porta do meu quarto e começasse a vasculhar cada cantinho, as roupas jogadas no chão, o restinho de poeira nos cantos, meus livros bagunçados e tomasse uma opinião sobre cada coisa. O sentimento era de desconforto e ao mesmo tempo ao refrescante e satisfação, como se tivesse encontrado algo que muito andei procurando e não sabia.

Cada vez que ele fazia uma pergunta e me encarava esperando uma resposta eu sentia vontade de me esconder e evitar que me visse. Em um momento ele chegou perto para eu ver os detalhes de suas iris, acho que nunca vi coisa tão linda, a minha vontade era de agarrar o rosto dele e mantê-lo quieto enquanto eu analisava cada pintinha dourada naquela imensidão verde. Queria saber o que ele estava pensando de mim. Será que fui para ele todas as descargas de emoções que ele foi pra mim? Droga, eu não deveria ter me aberto tanto e se depois eu quebrasse a cara? Ele quis saber do meu interesse por ele, ah se ele conseguisse ler minha mente…

Andamos de mãos dadas sem rumo, caçando um lugar qualquer, eu estava ficando preocupada, precisava ir para casa, mas a vontade de ir embora não existia. Acabamos parando na lateral de um prédio onde tinham algumas flores e um laguinho artificial com aparência de abandonado. O rosto dele estava muito perto, mas ele não iria tomar o primeiro passo, eu sabia disso, teria que ser eu. Joguei tudo pro alto e fiz o que eu estava com vontade, e meu Deus. A boca dele encaixou na minha, o beijo começou um pouco rápido, e se estabilizou, lento, com sentimento.

Fiquei na ponta dos pés para poder me encaixar melhor, minhas mãos na nuca dele, as dele na minha cintura, abri um pouco os olhos e vi de relance a boca rosa dele se formando em um sorriso. Ele sussurrou alguma coisa em meu ouvido, que eu não vou lembrar pois tudo em mim já tinha virado gelatina, tremendo e mole, nunca tive esse efeito com ninguém, cheguei a pensar que estivesse com defeito, afinal quem não se arrepia com isso? Parece que agora eu também o fazia. Ele percebeu o efeito que me causou, quem não perceberia, meu rosto queimou de vergonha. Paramos e nos olhamos, eu tinha que ir embora, já sabia que minha mãe ia me matar, mas preferi pensar em outra coisa, em casa eu resolvia.