Ele nunca me bateu, mas me matou aos poucos

Atenção: Este post contém descrições de abuso de parceiros íntimos e pode ativar gatilhos.

Estou na nossa casa sentada no chão empoeirado, com minhas duas mãos tapando meu rosto. As minhas têmporas latejam de dor e eu não consigo parar de chorar. Eu tento abafar os soluços. Estou aqui faz há quase meia hora. Queria que ele batesse na porta e viesse me abraçar,mas ele nunca vem. Ele nunca vem…

Respiro fundo, levanto e vou até ao banheiro onde lavo meu rosto avermelhado, meus olhos extremamente inchados. Seguro o choro e vou até onde ele está. Sento do seu lado e ele não fala nada. Eu balbucio um pedido de desculpas, onde as palavras saem com lágrimas e vergonha. Ele não olha pra mim, continua vendo TV. Apenas, fala que eu não deveria mais o questionar, nem o estressar. Eu, abaixo minha cabeça e concordo. Falo que eu vou mudar, não entendendo muito bem o que deveria ser feito, mas faço uma promessa a ele: Não vou mais incomodar.

Antes de eu pedir desculpas, antes de eu estar no chão chorando,ele vociferava, gritava e me encurralava na parede da nossa casa. Eu senti o ar passando pelas minhas orelhas, quando sua mão socou a parede. Eu desfaleci por um segundo. O soco era pra mim, era pro meu rosto, eu pensava. Só que por um instante ele decidiu que deveria ser na parede. Ele havia me poupado.

Ele havia “sumido” na noite anterior. Havia chegado a pouco tempo com cheiro de álcool. Eu já tinha ido nos bares próximos de casa o procurar, já havia ligado para os amigos em comum. Eu já não sabia o que fazer, decidi ir pra casa esperar. E quando ele chegou me culpou por ter feito ele passar vergonha, por estar a procura dele. E então a briga iniciou. Pelo que eu lembre, foi nossa última briga.

Eu não queria contar pra minha família, nem para meus amigos. Eu tinha vergonha de ter fracasso, eu tinha vergonha de estar ali. Se eu contasse, eles iriam me tirar de perto dele. E eu achava que iria conseguir mudar seu comportamento. Eu o amava tanto, que ele iria perceber que estava errado, que eu não merecia passar por aquilo. Eu ia conseguir, eu não poderia deixar ninguém saber. Eu não era uma vítima, ele não era abusivo. Sou eu que o deixava daquele jeito, então eu não iria mais fazer o que eu fazia e a gente ia ficar bem.

Eu já não sabia mais o que era realidade. Ele dizia que eu vivia no mundo da lua e nunca prestava atenção nele. Que eu não entendia as coisas. E quando eu tinha certeza de algo, ele fazia eu duvidar daquela certeza.

Ele me instruía como eu deveria me vestir, que eu poderia ser linda se eu quisesse, mas não queria. Que ele precisava que eu fosse uma mulher bem vestida e magra, pra ele se sentir bem quando saísse comigo.

Ele nunca me bateu.

Eu não tinha a mesma vontade de transar que ele tinha. Quando eu negava suas investidas, ele fechava a cara e insistia. Me culpava por ele ter vontade de ter outras mulheres e eu tinha medo que isso acontecesse, apesar de isso acontecer e eu nunca soube quando estávamos juntos. 
Ele coagia insistentemente, então eu cedia. Um sexo, sem amor, sem prazer, sem vontade, com dor. Estupro. Por vários anos, por muito tempo. Prazer, era uma palavra que já não fazia sentido pra mim. Era só uma palavra que ecoava na lembrança.

Ele nunca me bateu.

Haviam noites em que ele desaparecia em que eu comecei a me auto medicar. Roubei alguns comprimidos da minha mãe pra poder dormir e não ter que ficar esperando.

Ele nunca me bateu.

Em algumas brigas eu arrumei minha mochila, sai pela porta e sentei na escada do prédio esperando que ele viesse atrás de mim.

Eu pensava, vou sair , vou voltar pra minha família, mas se ele nunca mais me quiser? Será que eu vou conseguir conviver sem ele ao meu lado? Como pode a mesma mão que levanta pra tentar te bater, ser a mesma que me afaga? Como pode ser o mesmo que afasta meu corpo quando tendo abraçá-lo em uma briga, ser o mesmo que me aquece em noites de frio? Como pode o homem que eu amo e que fala que me ama, me matar aos pouquinhos todos os dias? Deve ser minha culpa, ele não deve se sentir amado o suficiente. Onde foi que eu errei? Onde o meu amor falhou? Onde eu falhei?

Eu não havia falhado, tampouco meu amor. Eu estava em um relacionamento abusivo, em que nos prendemos com medo de perder aquelas migalhas que recebemos em troca.

Quando eu vi, que o que ele fazia era violência eu percebi que a culpa não era minha. Eu estava destruída, em pedaços retalhados pelo abuso. Eu estava no chão chorando outra vez, a última vez.

Eu estava tendo uma rede de suporte, eu finalmente havia falado, expressado o que por anos eu vivi. Eu percebi que eu deveria sair dali, pra poder sobreviver .

Eu morri um pouco todos os dias, eu sofri agressões psicológicas profundas e cicatrizes que vão me lembrar sempre momentos que eu deveria esquecer.

Ele nunca me bateu. Mas me matou, me deixou em pedaços e destruiu a única coisa que eu nunca deveria ter deixado alguém tocar: meu amor próprio.