#01 — Prólogo

Há dez anos atrás eu escrevia. Escrevia pra aliviar tensão, dor. Pra desabafar. Eu escrevia porque eu me sentia sozinha e vivia dentro do mundo dos meus textos, dentro das minhas ficções, dos meus romances. Já escrevi até um livro — nunca publiquei nada.

Mas o que eu não sabia era que eu escrevia pra voltar pra dentro de mim. Pra me reorganizar, pra me recompor. Pra organizar meu eu de volta, pra me acalmar. Demorou dez anos, mas eu me entendi no passado e hoje entendo parte das coisas que sofri.

Espera, deixa eu explicar. Deve ‘tá meio confuso, né? Então:

Eu descobri nesses tempos pra cá que eu tenho Transtorno de Personalidade Borderline (ou Limítrofe). Se você for curioso o suficiente, vai abrir o Google e ler o artigo da Wikipedia sobre isso e me achar a maior malucona que você já conheceu. Pois bem. Talvez eu seja mesmo. Agora, se você não foi curioso e é preguiçoso assim como eu, tá aqui a definição (rasa) da minha condição mental:

“Transtorno de Personalidade Borderline é um transtorno de personalidade do cluster B cuja característica essencial é um padrão de comportamento marcado pela impulsividade e instabilidade de afetos, relacionamentos interpessoais e autoimagem. O padrão está presente no início da idade adulta e ocorre em uma variedade de situações e contextos. Outros sintomas comumente incluem um intenso medo de abandono e intensas crises de raiva e irritabilidade que outros têm dificuldade em compreender a razão. As pessoas com TPB muitas vezes se envolvem na idealização e desvalorização de outros, alternando entre uma alta consideração positiva ou uma grande decepção. Automutilação e comportamento suicida são comuns.”

Nem eu sei que que é cluster B, mas é isso aí que eu tenho. Não sei o porquê de ter isso também, não sei quando eu desenvolvi — só sei que eu sinto demais, de uma forma muito louca e intensa. Eu sinto tanto que eu saio de mim, que meus pensamentos ficam confusos e eu não consigo, de forma alguma, organizá-los. Em maioria, esses pensamentos são relacionados ao meu emocional, aos meus relacionamentos. Do nada, minha mente cria que eu só faço meu namorado infeliz, por exemplo, sem que ele me diga ou dê indícios disso. Eu acredito nisso com veemência, tenho uma certeza impossível de quebrar de que ele ‘tá magoado comigo e começo a sabotar meu relacionamento. Começo a brigar, procurar motivo pra brigar e pra ele terminar comigo. Eu choro, eu choro muito porque sentir isso dói.

Dói. DÓI MUITO.

É uma dor quase física quando você ama alguém e tem a certeza MALUCA de que não é suficiente. Do nada. Você tava bem com a pessoa mandando gif de panda e do nada isso. Essa onda de dor e de certeza incerta de que você é uma bosta. É foda. Hoje eu senti isso, hoje foi foda demais. Acho que por isso que eu decidi escrever, porque antes eu me encontrava na escrita — quando isso tudo que eu sentia era mais ameno. Porque hoje eu me acalmei depois de escrever. Eu resolvi escrever porque eu não quero que ninguém pense que eu sou louca sem fundamento (sério). Eu quero escrever porque talvez assim você tenha uma perspectiva de como eu me sinto.

Eu vou começar aqui com esse prólogo. Eu vou explicar o que se passa na minha cabeça quando eu tenho crises, o porquê de eu ser assim, como eu descobri ter TPB. Como eu tento tratar isso sem medicação nenhuma e como é difícil ser assim. Assim, talvez eu ajude alguém a lidar ou se encontrar. Talvez ajude a me recompor.