O ineficiente sistema público brasileiro e como ele corrói nosso país.

Uma relação entre o péssimo serviço prestado pelos órgãos públicos, seu alto custo e sua péssima gestão

Pensa um pouquinho comigo: enquanto tem país sendo bombardeado, país sendo invadido, nação que sofre com terremoto, furacão… e a gente está aqui, vivendo em paraíso tropical, rico em biodiversidade, potência em um monte de coisa, mas vira e meche e parece que nada de bom acontece no Brasil, agente fica na mesma.

Aquele seu tio que adora compartilhar política no Facebook vai atribuir nossa estagnação única e exclusivamente a corrupção, a falta de investimento e tudo aquilo que é de praxe. Mas o buraco é mais embaixo. Além de corrupto, o sistema público brasileiro é extremamente ineficiente e caro e a partir de agora você terá uma nova visão sobre isso.


INEFICIÊNCIA

Fila. Muita espera. Desrespeito com prazos. Atendimento de qualidade duvidosa… O setor público é simplesmente a definição de ineficiência, mesmo tendo funcionários bem pagos e estáveis que passaram por uma pré-seleção para exercerem suas profissões.

SAÚDE

Estou sofrendo do complexo de vira-lata quando falo de saúde no Brasil? Diferente dos Estados Unidos, a gente não paga pelos serviços de saúde em terras brasileiras. O SUS é um grande avanço para a saúde pública brasileira. Tudo parece muito bom no papel, mas na prática não é bem assim.

A primeira coisa que evidencia a ineficiência da área saúde é a existência de um serviço alternativo privado. Porque o sistema de planos de saúde teriam um mercado tão aquecido se o sistema público é eficiente e não possui custos?

Reprodução: Ultimo Segundo/IG

Existe a deficiência relacionada ao investimento no setor, mas ela não é a única presente na área da saúde. Na região norte/nordeste faltam profissionais capacitados. A solução tem sido aumentar a oferta para trabalhadores da área da saúde migrarem para essas regiões. Mesmo que houvesse um massivo aporte na área da saúde, os profissionais não querem abandonar a principal região do pais (sul-sudeste).

Queira você — ou não — a medicina ainda é uma profissão elitista no Brasil e do que adianta ganhar muito bem e ficar longe dos grandes centros sem poder aproveitar tudo o que eles tem a oferecer? Sem generalizar ou ofender a classe das pessoas que trabalha com a saúde nessa postagem, mas por ser uma profissão elitista não é a saúde dos demais e o atendimento a quem precisa que está em primeiro plano e sim as cifras. Um outro ponto que talvez contribua para que médicos optem por viverem próximos de grandes centros é o fato de prefeituras de cidades menores enfrentarem dificuldades para bancar seus salários. A oferta do setor privado também contribui para manter doutores dentro da cidade grande por que ir para uma cidade afastada quando posso abrir meu próprio negocio?

O programa Mais Médicos embasa o que estou dizendo, porque esses profissionais se sujeitam a ir para qualquer outra região recebendo um salário baixo em relação a profissão que exercem? Simples, porque estão deixando Cuba, que não sejamos hipócritas: se você possui um alto poder aquisitivo, porque iria sair de uma região que possui diversas opções em qualquer área para ir a regiões abastadas e com altos índices de criminalidade?

Vamos colocar que por cima, talvez metade da população nacional dependa do Sistema Único de Saúde e se tratando de saúde, definitivamente, algo que não se encaixa nesse cenário é a ineficiência. Adicione a isso o “jeitinho brasileiro” de lidar com as coisas. Você sabe como a corrupção está inserida no DNA do país — e no sistema público não poderia ser diferente — sem a fiscalização e com a estabilidade que o cargo proporciona, o funcionário responsável simplesmente pode escolher quem vai privilegiar na realização de exames, consultas e etc.

BUROCRACIA

Na minha opinião se existe algo que pode fazer um pais ascender nos dias atuais é o empreendedorismo. Agora, experimenta ser um empreendedor no Brasil e você vai sentir na pele o que é burocracia. A burocracia definitivamente atrapalha o empreendedorismo no Brasil, e olha que não sou eu quem estou dizendo. Se eu estivesse falando apenas da quantidade de documentos e exigências para se abrir uma empresa beleza, acontece que conseguimos ir além: o tempo de processo pode uma eternidade. A gente consegue ficar atrás de diversos países da América do Sul e do mundo, é mole?

Reprodução: Delay Divert Solutions

Mudando de esfera e falando mais da parte jurídica, existe um grande lentidão no andamento de ações jurídicas independente de sua natureza e eu vou além: esse é um dos motivos pela qual acontece tanta coisa errada no país, a sensação de impunidade.

Tive a experiência de trabalhar por dois anos em uma repartição pública que por incrível que pareça o setor que trabalhei funcionava bem. O problema eram os demais setores que faziam o nosso funcionar: compras e licitações, jurídico e contabilidade. Algo inusitado que eu posso trazer aqui é que uma determinada pessoa chegou a morrer antes de ter seu processo de sindicância julgado. Para quem não sabe, sindicância é o procedimento adotado quando o funcionário publico comete uma falta grave e é denunciado, é o processo que pode exonerar seu cargo.

O PREÇO A SE PAGAR

Eu estou para ver algum país com tantos funcionários públicos quanto o Brasil, se alguém conhecer algum outro país que opera de forma semelhante deixa um comentário aí.

Acontece que essa superpopulação de funcionários públicos tem um preço que talvez seja o desenvolvimento de nosso país. O país tem aproximadamente 5.600 municípios, agora pensa comigo: cada uma dessas cidadezinhas tem no mínimo um prefeito, um vice, uma câmara de vereadores e uma prefeitura com uma infinidade de funcionários. Eu não vou me aprofundar muito, mas fazendo uma conta básica aqui, o salário de um prefeito atualmente é de aproximadamente R$ 16.500,00 que multiplicado pela quantidade de municípios da união temos um montante de R$ 92.400.000,00 mensal destinado ao pagamento de todos os prefeitos do Brasil.

Reprodução: Paula Santana

Isso sem contar os cargos de confiança e os funcionários da Prefeitura. São cifras incríveis sendo pagas por um serviço absurdo de ineficaz. Um dos vários problemas que enfrentamos no país em relação aos funcionalismo público é que ou existem muitos funcionários para executar pouco serviço, ou existe muito serviço para um quadro limitado. No caso em que sobram funcionários, o que pode acontecer é a realocação; agora no caso que faltam efetivos, a prestação do serviço fica completamente comprometida.

E quer saber outra? Se eles ficarem sem receber podem pedir indenização ou entrar com uma ação por danos morais ou seja: produtividade zero é recompensada com o salário todo mês caindo na conta limpinho. Pela experiência que tive em uma repartição pública, pude ouvir relatos de funcionários que estão afastados por motivo de doença, mas trabalham diariamente em sua própria empresa. É mole ou não? Isso sem contar nos funcionários que danificam de propósito suas ferramentas de serviço (ex: caminhões, viaturas e etc) para ficar sem ter o que fazer — gerando, assim, um custo adicional aos cofres do município.

ALTA CARGA TRIBUTÁRIA.

Aproveitando a temática do tópico não poderia deixar de abordar essa clássico artificio usado para sabotar o crescimento do país que nosso sistema publico nos oferece: uma das maiores cargas tributárias do mundo.

As coisas não são tão caras assim por aqui, principalmente aquelas que possuem um valor global. O que ferra são os impostos cobrados sobre a commoditie. Em “terra Brasilis” se paga imposto por tudo. Mas o retorno de sua contribuição apenas serve para cobrir o rombo da inflação e do sistema publico ineficiente.

Reprodução: Estadão Economia

Uma alternativa seria exportar não é verdade? Afinal, mesmo nossa moeda estando em desvantagem em relação as outras grandes, muitas vezes colocando na ponta do lápis acaba saindo mais barato não é verdade? Acontece que a Receita Federal tributa encomendas aleatoriamente para manter sua arrecadação — quando existe uma lei para valor mínimo sujeito a tributação — e posso dizer por experiência própria: eles passam por cima da lei, mesmo você entrando com recurso.

Outro ponto é que o sistema de tributação é antiquado e falho. Pequenas e médias empresas geram muitos empregos e pagam uma carga tributária elevada, enquanto grandes empresas e multinacionais em tempos de crise cortam funcionários e não contribuem proporcionalmente em relação ao que arrecadam. Mais um dia comum na rotina do país da inversão dos valores.

LICITAÇÕES FRAUDULENTAS

Provavelmente você já deve estar cansado de ver esses escândalos de empreiteiras sendo beneficiadas, e tudo mais. Mas é aí que o sistema publico brasileiro te surpreende mais uma vez, isso é uma pratica comum dentro dos departamentos municipais.

Imagina o quanto é mais fácil gerir uma empresa por exemplo — do ramo alimentício — quando se tem garantido a venda de uma grande parte do seu estoque para que sejam produzidas as merendas escolares diariamente. Sem generalizar mas os departamentos de licitações acabam comprando coisas de péssima qualidade, favorecendo determinadas empresas, e no final das contas quem sofre com isso é a população.

Reprodução: portaldaslicitações.blogspot.com.br

Enquanto o governo de Israel — um fortíssimo candidato a ser o próximo grande polo tecnológico — incentiva o sistema publico a adquirir produtos e utilizar de serviços de suas startups, aqui no Brasil seguimos o sentido totalmente oposto: favorecemos sempre aqueles que já são conhecidos em troca de vantagens pessoais e em honra de nosso tão querido jeitinho.


A PÉSSIMA GESTÃO

Imagine que você tenha uma empresa. Uma grande empresa. Você controla o mercado afinal de contas você é o único com a licença para prestar o serviço, você nunca fica sem demanda muito pelo contrário: com a ascensão do e-commerce sua organização irá surfar nesse aquecido mercado de vendas online.

Você investiria na empresa que acabei de descrever? Quem não investiria? Praticamente não existem riscos, o mercado está aquecido, exercemos o monopólio no segmento, eu praticamente descrevi a formula do sucesso, o cenário perfeito que qualquer empreendedor gostaria de ter não é verdade?

O presidente dos Correios, Guilherme Campos, confirmou nesta quinta-feira, 10, que a empresa deve ter seu quarto prejuízo anual seguido em 2016, com um déficit de quase R$ 2 bilhões. A estatal chegou a pedir um aporte de capital de R$ 840 milhões ao Tesouro Nacional, sem sucesso, e agora espera a aprovação de um empréstimo de R$ 750 milhões com o Banco do Brasil para dar início a um plano de demissão voluntária (PDV) de funcionários da empresa.

Seria uma pena se essa fosse uma das piores organizações do nosso país, na minha opinião ficando atrás apenas da operadoras de telefonia móvel. Como é possível uma empresa nesse cenário ter prejuízo? Chega a ser inacreditável, como os órgãos públicos são administrados, esse é apenas um dos casos (um dos grandes) onde além do serviço ser de péssima qualidade, não gera nenhum tipo de retorno, ou melhor, não consegue nem ao menos se manter de forma sustentável. Casos como esse existem em menor escala em cada prefeitura de cada município, repartições que não conseguem se manter e além de não prestarem um serviço de qualidade acabam gerando prejuízo para o município, e sabe quem paga essa conta? Adivinha.

OPINIÃO PESSOAL

Por fim, não querendo ser pessimista mas já sendo: eu não vejo as coisas mudando. A não ser que se mude a constituição, há pouco a se fazer, não é de hoje que estamos em um ciclo vicioso. Com o dinheiro que possivelmente seria economizado com um corte a esses gastos — em suma maioria desnecessários — em cerca de vinte anos resgataríamos a ordem e sem duvidas alcançaríamos o progresso.

Reprodução: 365Posters

CONCLUSÃO

Eu suponho folha de pagamento mensal de uma cidade de até 100 mil habitantes seja de um milhão de reais, imagine se fosse possível reduzir esse valor pela metade e aplicar em infraestrutura e benefícios reais para a comunidade? Pense bem, como você avalia hoje o serviço prestado pelo funcionalismo público de sua cidade?

Por fim gostaria de deixar bem claro que não é um ataque a classe de servidores públicos e sim a minha visão baseada em fatos, sobre um setor que ao meu ver não agrega muito para o país. Obviamente, devido a minha experiência prévia tenho colegas íntegros e que são grandes servidores públicos.