cabelos molhados

yohanna nitsche
Aug 28, 2017 · 2 min read

arregalou os olhos e saltou da cama como se alguma coisa fosse acontecer naquele dia. os chinelos maiores do que os pés podem calçar ficavam ao lado da cama. calçou-os pensando que não tinha mais doze anos e já estava na hora de começar a viver. iniciou seu ritual diário: escolheu uma musica e acendeu um cigarro. se sente incumbida de entender todos os sons como são, deixa-os entrar e fluir em seu corpo que sofre por saber que um dia nem uma nota passará mais. Luisa sabe que existe, e apesar de só ter tido consciência disso duas vezes, vive com delicado escândalo cada momento porque tem um medo desmesurado da morte. não pode perder um minuto de tempo. sente-se cansada de todas as suas obrigações vitais: beber água, dormir e até respirar. é cansativo ser. o barulho do relógio e os segundos contados no microondas ofendem sua integridade física. não é preciso que o mundo grite o que ela já sabe.

Luisa tem costumes velhos, gosta de se arrumar cedo e lavar o cabelo no tanque. herdou a vaidade do vô, cuida da pele como se fosse seu último fim. esfrega o rosto até que fique esticado, e então começa o dia. inclinou-se debaixo da torneira molhando a cabeça, colocou um pouco de shampoo nas mãos e começou a esfregar. era dia de ouvir musica brasileira, fazia frio e céu nublado com um pouco de claridade. é inverno no rio de janeiro. abaixou-se para tirar a espuma e percebeu o cabelo cor de café em contraste com as mãos branquíssimas de dedos infantis levemente rosados. isso sou eu, pensou. tenho cabelo, pelo, pele, perna, pé. isso tudo sou eu. assim como o universo primitivo não obedece a simetria que o tempo avança, eu vivo, cresço, me expando.

num simulacro o sol iluminou a lavanderia e ali, bem naquele instante, Luisa chegou no seu limite de ser. faltou-lhe ar, apertou os cabelos e não sentiu mais o chão. a vida a tocara causando vertigem naquela manhã, precisava de sua força mais do que nunca porque a consciência de ser se manifestava e comunicava um sentimento de solidão. sou e sou sozinha, todo esse ar que passa por dentro de mim, tudo que eu toco e tudo que eu vivi e não lembro sou eu.

pensou em todas as pessoas que a olharam como se soubessem melhor do que ela sabe o porquê ela veio e pra onde ela vai. besteira, só ela vê o que vê, sente o que sente, não se pode olhar para o outro e pedir que este supra sua necessidade de autoconhecimento. olhou para os lados como se pedisse socorro, tentou confusa enxugar os fios negros, mas não conseguia seguir se só pensava nisso. pendurou a toalha no varal e soltou um suspiro mudo. tornou-se calmamente mulher e humana. a dor de ser emergiu lenta, então abaixou os olhos e chorou por medo da morte.

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yohanna nitsche

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quero entender antes de morrer ta?

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