grão de areia

minha letra nunca é a mesma. no ensino médio tentei modificá-la a ponto de se parecer com a de uma amiga. no fundamental a letra era grande, ocupava a linha inteira. ano passado eu gostava de escrever tudo colado e com letras longas, agora já estão mais apertadas. sempre incontente à procura de uma perfeição que não parecesse forçada. pode ser que isso seja um traço da minha exigente vontade de me mudar. não do modo que se muda para agradar gosto alheio, mas mudar para si. e quando mudo fico em estado de graça que pode durar até uma semana, como da vez em que cortei o cabelo por impulso depois de tomar várias cervejas no ano novo.

estou sem franja há um tempo e agora mesmo tinha resolvido cortar uma curtíssima acima das sobrancelhas, mas fui ao banheiro e não encontrei a tesoura. não sei se agradeço ao destino ou a essa coisa que nos impede de fazer besteiras por a ter tirado de lá — na verdade foi só minha colega de quarto que pegou a tesourinha, tenho que parar de glamourizar as coisas. de qualquer modo, obrigada, obrigada. porque olhei no espelho e gostei de mim assim, reparti o cabelo no meio, joguei de lado. minutos antes sentia uma ânsia de não ser eu se não cortasse uma franja. queria me provar que vivo para mim mesma. olhei e vi-me exatamente como sou. a cor de quem não come direito há meses e não comer me deixa feliz, uma constante sensação de vazio me sacia e não ligo porque minha relação com a comida sempre foi violenta.

olhe, já estou mudando a letra de novo porque tenho medo de ser uniforme. é grosseira a obrigação que tenho de me reinventar, mas se não o faço morro. e quando surjo nova deixo uma parte morrer ou aquietar até que eu resolva tirá-la de volta. aprendi a esquecer e ser constante não consta no meu perfil. esqueci da raiva que sentia da minha mãe quando ela não voltava da rua por causa do vício. quando ela chegava eu a amava como um filho ama o que mais se tem medo de perder. esqueci que semana passada ele não me quis e minha vontade de ser eu tinha ficado do tamanho do grão de areia que me deixou perplexamente imobilizada na praia hoje. a pequenez no grão de areia me assusta. fiquei sem ar tentando mensurar quantos grãos poderiam ter lá. a areia é decorrência da sedimentação das rochas e qual será minha consequência? o que se faz com todos esses atos que ajo sem pensar como se a vida não fosse jogá-los na minha cara mais tarde?

essa briga com a vida me dá o calafrio do gosto de viver. a sensação de poder de que o que faço resulta em algo. é lição e aprender dói. a vida é uma mãe e quem mora sozinho é filho de qualquer um. aceito os castigos como uma criança mimada que só quer o que quer e agora . volto aos meus erros porque já os esqueci. desaprendi que são erros e o agora é o certo pra mim, assim como vivem os aborígenes australianos que não consideram o tempo. cada momento é apenas um novo “agora” e vivemos portanto no presente. por vezes me afronto por querer o que me fustiga, mas é só por esperança de amansar a alma de quem nunca cansa.

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