paixão é anarquia lazarenta
não morrerás de fome. não acharás minhas coisas. não ouvirás mais meu nome solto pela sua fria casa. não me tocarás mais porque toda vez que o faz reseta-me e tira toda energia. e meu corpo cansado descansa na cama se recuperando do teu estrago enquanto nenhuma camada de pele minha te esquece.
foi preciso você me dizer com brutalidade não com a boca, mas com o corpo, que nossos interesses são distantes demais pra eu insistir continuar. minha vingança fraca será sumir antes que você chegue de novo, porque o vento se move contigo e é um martírio te ver dançar. as mãos se mexem com leveza e eu duríssima não suporto sua presença solta. eu não passo nada e você não dá a entender.
ontem passei por um bocado de árvores — esbeltas e soberanas como são — e desejei mentalmente envergonhada que elas tirassem um pouco disso de mim. fui à praia e deixei que o mar te tomasse também, deixando apenas o sal. se pudesse te passaria até aos objetos, mas lembrei que estes não tem vida e seria pouco nobre da minha parte lidar com a paixão desse modo.
dias atrás você me perguntou quantos anos eu tinha, pois agora te respondo que quero começar meus vinte anos sem nenhum resto ou quase isso de você. ainda irá me custar arrumar o alvoroço que criei, mas não te culpo de nada além de ter os olhos fortes que me fazem acreditar ter a alma fraca. assumo ter feito toda essa mixórdia, esperado tanto, corrido tanto e na chegada você continuava lá fumando me assistindo amar o que não pode ser amado. e isso me tornou pequena mesmo sabendo que sou a mais forte.
não sei o que cresceu no meu corpo, se sofro inutilmente, mas li bem assim: abandona o que destrói. aprendo rápido e dessa vez não será diferente até que uma hora todos os desejos e inquietações ficarão cansados de existir. não me pressiono e compreendo meu tempo pra te esquecer, respeito minhas exigências e se antes minha urgência era você, agora me procuro desesperadamente plena.
tua risada lazarenta não sai do meu ouvido. minha avó se ouvisse diria que é risada de quem se droga e clarice diz que paixão tem gosto de cigarro apagado. rio sozinha, lazarenta é uma palavra engraçada.
com calma, lembro-me bem do terrível dia em que percebi que gostava de você. estava virando a esquina e pensei, de relance, ter te visto sentado na mesa do bar. senti vertigem e o coração sôfrego ouvi bater quase na boca. não era você, mas aceitei dolorosamente gostar, não sei como, mas gosto de você.
é mês oito, sol em leão e essa é minha frincha para ir até que nossos olhares trepidantes se choquem e não se machuquem mais. irei preencher meus espaços lenta e gradualmente, vou arrumar meu quarto e me ver crescer sozinha espinho por espinho. voltarei menos amolecida, porém sem perder meu estado de graça. e voltarei ainda mais porque no meio da nossa discussão silenciosa, você ainda não sabe, mas sim, eu sou a mais forte.
