A AIESEC que ninguém te conta — mas que a maioria conhece

Ano passado, após reaver um dinheiro que há muito aguardava, decidi que o investiria em um programa internacional. Sabe como é, periferia, mulher preta, aquela velha história de ter que provar que você é dez vezes melhor que o seu eu que a sociedade idealiza. O que falta no meu currículo? Uma experiência internacional! Então vamos, não é?

Procurei mais informações sobre a AIESEC. Tenho muitos amigos e pessoas que admiro e confio que foram membros de escritórios e do time da AIESEC Brasil. Todo mundo falava da magia que era ser parte disso, mais atrativo até que a Disney. Confiável. Global. E barata. Mas sabe aquele ditado “o barato sai caro”? Então.

Escolhi meu destino, tirei o visto, embarquei. Até aí, hoje associo minha única falha como não ter tirado uma fotografia da tela quando minha ex-chefe me fez diversas promessas que ela nunca cumpriria — como me deixar trabalhar todas as minhas horas num período só. E fotografia de tela é importante, porque você tem que provar absolutamente tudo o que diz.

Você contrata uma agência para ter suporte. Do contrário, você pode simplesmente viajar por conta própria. No entanto, suporte está longe de ser o que você recebe. Depois da empresa que eu trabalhava violar o meu contrato — com uma jornada de 200 horas no mês -, eu procurei meu contato local (AIESEC Turquia) para pedir a troca de oportunidade. Não queria que meu intercâmbio acabasse com uma imagem ruim e antes do previsto, então outra empresa certamente seria uma boa escolha. O que ele disse? “não acredito que sua chefe irá permitir sua saída”. Bem, eu nem preciso dizer que isto é uma violação do Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos que garante “a livre escolha de trabalho”. Na mesma semana, 4 dias depois, decidi pedir demissão. Tive uma crise de estresse e, como trabalhava 24 a 28 horas por final de semana, fiquei receosa do que me manter naquele trabalho causaria à minha saúde. Informei minha chefe e ela a AIESEC e, entre eles, concordaram que eu não trabalharia mais quinze dias como eu acordei com a coordenadora, mas sim um mês. Ora, trabalhador ou objeto? Até hoje não sabemos, mas, novamente, Direitos Humanos, lembram?

Recebi a visita do meu negociador, opa, contato, somente após a intervenção do escritório com o qual assinei aqui no Brasil e de ouvir a minha negociação da boca da minha chefe. Com direcionamento do time brasileiro, optei por não trabalhar nem os quinze dias que havia acordado. Não só pelo comportamento da AIESEC que me recebeu -e digo AIESEC porque se você é um representante, suas ações com o intercambista são também da organização -, mas também porque a diretora da escola passou a me humilhar na frente dos meus colegas de trabalho — porque não aceitei ser negociada, porque não faria os quinze dias adicionais sendo tratada daquela forma, ninguém saberá o real motivo. Meu contato me disse que a escola estava disposta a esquecer o incidente se eu voltasse a trabalhar, que eles associavam minha tristeza frequente a saudade do Brasil e que eu sempre estava feliz perto dos alunos — eu chamaria isso de profissionalismo, mas como minha chefe disse que eu não tinha ética, você, leitor, pode tirar suas conclusões.

Daí até eu me ver livre de tudo, segue a novela: o escritório local me culpa por não ficar atenta ao schedule, diz que a escola terá prejuízos por minha culpa, que eu não poderia fazer isso com eles, mas como eu já não queria estar associada a essa organização eu rejeitei, e então me ofereceram uma vaga numa escola que hoje, assim como a que eu trabalhei, está devendo o último salário de outro brasileiro que só pode ficar até esta semana na Turquia — e o mesmo time AIESEC local o culpa por não receber as horas que trabalhou.

Nota-se que não há consideração por parte do time que me recebeu pelo contratante do serviço, o intercambista. Eu avisei que era uma questão de saúde e ignoraram, porque deviam outro intercambista à escola e porque o estabelecimento poderia encerrar a parceria com eles — ou pelo menos ameaçar fazê-lo. Citei aqui uma segunda escola devendo pagamento e o comportamento de culpar o intercambista é para te intimidar a não fazer reclamações posteriores, para não ser divulgado e também prova o quão recorrente é essa atitude com o estagiário e que a AIESEC tem ciência disso.

Após o fim do meu contrato, recebi a proposta de trabalhar num colégio bilíngue. Comecei a receber pelo Instagram e Whats App mensagens de alguns membros do time do meu escritório local dizendo que cancelariam minha permissão de residência, que eu ficaria ilegal no país e deveria retornar imediatamente ao Brasil. Fiquei com medo e quem me acalmou foi alguém que mal me conhecia, mas entendia do assunto. Medo porque toda vez que você faz uma viagem interestadual na Turquia, a polícia rodoviária checa sua identidade, e imagina descobrir que está ilegal num país desta forma? E se, de fato, eles tivessem este poder? Mas eles não tinham. E eu estava legalmente contratada em Janeiro, mês seguinte a tudo isso, e portando minha permissão de trabalho. Eu bloqueei as pessoas que me perseguiram de todas as minhas contas online.

Em Janeiro retornei a Istambul para receber meu salário, 1770 TL, aproximadamente. Não recebi todas as horas que trabalhei. Nada me foi explicado. Avisei o time local, o time brasileiro, e ambos ignoraram. Felizmente, tive a ideia de pedir a uma amiga que me acompanhasse pois estava com medo de que eles pudessem tentar fazer algo contra mim. Felizmente porque, mais uma vez, tudo tem que ser provado, e ela sabe que além de fazer a gente esperar do lado de fora, a empresa não pagou as horas totais que trabalhei. Por medo, decidi que, uma vez que o silêncio já é uma resposta e que tinha sido esta que me deram, eu resolveria isso ao retornar ao Brasil. Estou aqui há 2 meses. Contatei meu escritório aqui no Brasil, a AIESEC Brasil, nada. Foi apenas porque um amigo é amigo de uma brasileira na AIESEC Internacional que finalmente pareceu que tudo fluiria. Mas não.

Se você não recebe um serviço, a empresa contratante deve provar que o prestou. Se você tem problemas trabalhistas, cabe à empresa provar que não aconteceu. O contrato, assinado no Brasil, tem a validade do país onde foi assinado. Mas, para a AIESEC, o contratante deve provar tudo. Violação dos Direitos Humanos, ameaças, falta de pagamento.

E mesmo se até aqui você pensa que eu fui a exceção da regra, deixe-me te contar: em 24 horas de uma publicação aberta no Facebook que não viralizou eu encontrei 10 casos só na minha rede de pessoas com problemas com a AIESEC que estão com processos abertos na Justiça, que não correram atrás pelo desgaste que eles — talvez propositalmente — te fazem passar, ou que ainda estão com medo de fazer algo e falar sobre porque não chegaram no seu país ainda, o Brasil. Sim, esses são só os brasileiros, porque o problema, acreditem, é global. Tem muita gente disposta a falar sobre tudo o que passou, o problema maior tem sido encontrar para quem. Porque, como uma amiga me disse, não é a agência que contratamos a favor da gente, esta ONG renomada, somos nós contra eles.

Não é só o time Turquia ou Brasil. Há reclamações e processos sobre outros estados brasileiros, países como Russia, Colômbia e Argentina. No entanto, o que acontece?

No fim, todo mundo sabe o que acontece, especialmente quem está dentro. E você sabe, neutralidade também é a escolha de um lado. Se você googlar sobre AIESEC e problemas ou processos na justiça, apenas quatro links vão aparecer, dois deles muito importantes: uma visão interna e de como intercambista e outro de um intercâmbio que não poderia ter acabado de pior forma.

Fica o trauma. Uma visão deteriorada de um país porque é difícil praticar o exercício de separar o que você viveu de como poderia ter sido se você recebesse o suporte adequado que você contratou. Ainda hoje, se você me pergunta, eu não quero voltar. Lembrar, contar, dói. A gente passa raiva, fica puta mesmo. Talvez por isso nunca tenha encontrado as palavras para tal vivência.

Já se passaram cinco meses desde que tudo aconteceu e ainda não tive uma resolução. É o famoso empurra-empurra, chá de canseira, justifique -se. Mas este texto não é uma tentativa de resolver meu problema, ainda que eu gostaria muito. Este texto é uma forma de pedir desculpas, primeiramente, a uma amiga a quem eu indiquei o mesmo escritório com o qual eu fui e hoje encontra-se reclamando assim como eu. É uma forma de alertá-los que pode dar certo, mas em muitos casos, voluntários e estágios, dá muito errado. E ninguém toma atitude. Fica a desculpa do “é que os times são compostos de voluntários” quando na verdade deveriam se perguntar “como mudamos processos? como preparamos nossos times de voluntários? como usamos a péssima experiência de alguns para garantir que as próximas serão proveitosas e positivas? como minimizar os riscos de problemas causados pelos times? como acelerar processos?”.
Eu não quero desculpas. Eu não quero amizade. Eu estou cansada. O que eu quero é que outras pessoas, se fecharem com esta Organização, tenham ciência de todos os riscos, de tudo que pode acontecer. Eu quero que elas recebam pelo que pagaram e tenham uma experiência proveitosa. E acredito que isso deveria ser um desejo da ONG, e se o é, está há tempos afundando.

Saiba mais sobre isso aqui:
https://pt.linkedin.com/pulse/cinco-falhas-que-aiesec-jamais-ir%C3%A1-concertar-germano-ferreira

http://g1.globo.com/pr/norte-noroeste/noticia/2014/09/so-chorava-e-rezava-diz-paranaense-que-ficou-11-dias-presa-na-china.html