O dia em que eu saí de casa — e de mim

Terminei a primeira graduação. Como muitos sabem, fui a primeira pessoa do meu núcleo familiar e de um lado da família a obter um diploma de ensino superior. Mas eu queria — e ainda quero — mais. 
Decidida a seguir com o empreendedorismo social e a conhecer melhor uma cidade nordestina que eu sempre amei, lá fui eu, próxima parada: Recife.

Eu tinha planos. Tudo estruturado. Nunca me senti tão organizada na vida. Seguia até a minha agenda, fielmente, como se dependesse dela o oxigênio. Mas foi insanamente incrível o desajuste no qual me encontrei.

Morei alguns meses na casa de uma grande amiga e hoje alguém que considero uma irmã. Ao me adaptar em morar lá, mudei de novo, e desta vez dividi um espaço com outra pessoa que eu amo muito — e uma gata carinhosamente apelidada de Demolana. Comecei outra graduação, jornalismo, mas a veia da problematização do atual sistema educacional brasileiro pulsava forte e logo fui desanimando com as cobranças da vida acadêmica e debates sem sentido. Ressalto que meu problema não é com a UFPE, eu amo aquela Universidade e tudo o que ela me proporcionou, mas sim descobri que, algo que eu queria há tanto tempo, já não me cabia mais. Doeu, mas ao largar, não senti falta.
Sim, eu abandonei um curso no segundo semestre! E acredite, se você sente que já deu para você, não tem problema. Siga o que for melhor para você porque só você é responsável pelo seu caminho.
Longe de casa, desanimada com a graduação, sem emprego. Assim eu seguia, já cancelando os planos da agendinha pois também não me sentia mais conectada com eles. Eu não estava em sintonia comigo mesma — e isso me matava. Ainda bem que eu tinha anjos por perto, amigues que fizeram de tudo — tudo mesmo — para me ajudar e melhorar, porque sim, neste momento eu sabia que eu não estava bem. Afoguei-me na vida louca vida, porque não havia a o quê recorrer e porque era fácil. A facilidade é muito mais atrativa quando você se sente fraco. O abismo parece maior e, quando se está na metade, o que é cair e descansar na base dele?
Comecei a trabalhar. Era uma vaga que eu queria muito então logo que comecei já gostava muito da empresa e das pessoas. E, de fato, fiz amigos valiosíssimos lá, estreitei laços com quem já conhecia, e melhorei um pouco. Pouco. 
Abandonando projetos, eventos, e qualquer assunto que me fizesse sair da vida cama-cozinha-netflix. Abandonando o hábito que eu tinha de falar todos os dias com pessoas que eu amo — inclusive minha família, que eu não via mais. Abandonando mais o ser desconectado que eu era. Era a base do abismo, e eu estava lá. Percebi, então, que era a hora de voltar para casa.

Eu acreditava que voltar para São Paulo era a chave de tudo. Mas não era. Ter saído de SP City, no entanto, sim. Foi por sair que eu pude testar se os meus sonhos ainda eram os mesmos e o que eu realmente queria. Eu pude aprender a dizer não. A filtrar amizades. A ser sincera e não violenta comigo. A fazer amigues fora da minha bolha, a viver fora dela. Foi por sair que eu pude me ver com os olhos daqueles que aprendi a amar — e que, com sorte, me amam também. Foi por sair que hoje eu sei que SP é meu lugar, mas Recife também o é. Que cuscuz é bom e todo mundo deveria amar um brega, que eu posso combinar Skinka com meus ovinhos de amendoim ou que não importa se é macaxeira ou mandioca, é bom — e vegano, claro. 
Eu precisei sair de mim totalmente para saber quem eu sou. O que eu quero. Quem eu quero por perto e onde eu quero chegar. E esta saída, que inicialmente era apenas de estado, tornou-se a maior lição dos meus breves 24 anos e uns quebrados. Que sorte a minha voltar a subir o abismo rumo ao topo! 
A jornada é longa, mas não é assim a de todos nós? Repito o que sempre digo, você não está sozinhe, assim como eu não estava. Eu sei que muita gente que você gosta pode não te compreender e te deixar no meio do caminho, mas pense que tem pessoas que gostam de você ou querem gostar se você permitir a elas te conhecer — e se permitir ser ajudado. Não é vergonhoso. É maravilhoso. É a cooperação que a gente precisa vivenciar cada vez mais para mudar o ponto de vista egocêntrico que muitas vezes questionamos.

Boas energias a você! ❤

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