Paternidade
Ano passado eu me tornei pai. O CH (apelido que usamos para o guri nas redes sociais, pra tentar manter um pouco a privacidade) nasceu, e com ele eu nasci como pai. Como dizem, pai só nasce depois que o filho sai de dentro da mãe, ao contrário dela que se torna mãe a partir do momento que o filho passa a fazer parte dela.
Se alguém me perguntasse “Como é ser pai?”, seria uma das perguntas mais difíceis de responder. Não porque seja ruim. Pelo contrário, é uma das melhores coisas do mundo. Eu não saberia responder por estar vivendo isso pela primeira vez.
Eu sou filho único, não tive irmãos. Meus pais se separaram quando eu tinha cerca de 10 anos (depois de mais de 25 anos, não sei dizer ao certo em que ponto isso aconteceu, só sei que aconteceu). Não tive uma infância difícil, nunca passei fome, e nunca passei por situações do tipo não ter onde dormir. Mas, certas coisas fizeram falta.
Meu pai não foi presente 100%. Estava lá num momento, daqui a pouco não estava. Depois que eles se separaram, minha mãe saiu de casa, e eu fiquei com a minha avó, mãe dela, que já tomava conta de tudo. Meu pai era uma presença inconstante. Em alguns finais de semana vinha, ficava uma semana, depois ia. Vinha almoçar todos os dias em casa, até o dia que brigou com a minha avó, por não ter avisado que vinha almoçar, e ela não estar preparada. Eu tinha cerca de 13 anos.
Quando estava em casa, passava muito tempo na frente da TV, vendo corridas de carro e futebol. Cada um tinha uma TV em seu quarto (menos minha avó, que usava a da cozinha. Dizia que quarto era lugar de dormir). Eu tinha meu videogame, um Super Nintendo. Na verdade, primeiro ganhei um Mega Drive, depois um Super Nintendo.
Uma das memórias que ainda estão frescas, mesmo depois de mais de duas décadas, foi o fato de meu pai dizer que iria me dar um carro de controle remoto. Não seria de dia das crianças, nem de natal, nem de data especial. Apenas me daria, porque era algo que eu queria. E, toda vez que ele chegava, eu corria, e perguntava se ele tinha trazido. Um dia me perguntou se eu estava interessado nele, ou no carrinho.
A verdade é que cresci tendo substitutos. Ele substituía a ausência dele com alguma coisa. Ou com um videogame, ou com um carro de controle remoto, ou com uma bicicleta. Mas não lembro de sermos próximos. Certa vez reclamou da MINHA falta de interesse pelas coisas que ele fazia, pois quando estava em casa, tudo que eu fazia era ficar trancado no meu quarto, jogando ou vendo TV.
Acelera para 2015. Eu trabalho com eventos, então não tenho rotinas. Perto da data que estava previsto para ele nascer, eu tinha um evento para cobrir na Grande Porto Alegre. Ela, minha esposa, estava na cidade dos pais dela, mais de 250 quilômetros daqui. Eu vim, fiz as fotos, e no final do evento, passando da meia noite, ela me liga, dizendo que não era para me preocupar, mas que a bolsa tinha rompido. Fui para a casa, troquei de roupa e percorri durante a madrugada os quilômetros que nos separavam. Por sorte, o guri só nasceu no meio da tarde.
Por ser fotógrafo, todo mundo me perguntava se eu iria fotografar o parto. Sempre dizia que sim, que registraria tudo. Mas, chegou na hora e eu decidi não ser o fotógrafo, e sim o pai. Estaria presente quando ele nascesse. Isso é outra coisa que minha avó contava, e minha mãe confirmou: quando nasci, meu pai estava em casa, dormindo.
Eu tomei uma decisão na minha vida, muito antes de conhecer a mãe do meu filho, muito antes de casar, muito antes dela engravidar e dele nascer: eu seria um pai o oposto do meu. Eu estaria presente, de corpo e alma. Por isso decidi que não fotografaria o nascimento dele. E, por isso, me lembro de cada segundo naquele dia. Cada som, cada palavra dita pelos médicos, cada cheiro, o choro dele ao sair, o peso dele no meu colo, os olhos dele, pequenos, e todo mundo dizendo que eram parecidos com os meus. Eu não troco essa experiência por nada neste mundo.
Uma das imagens que tenho da paternidade é algo simples: o pai ensinando o filho a andar de bicicleta, sem rodinhas. O guri pedalando enquanto o pai segura o selim, dando segurança, como se dissesse “Vai, eu estou aqui pro que der e vier”. O porto seguro, em que não importa o que aconteça no universo, ele saiba que pode contar com o pai, e que este percorreria não só 300, mas 3 milhões de quilômetros se precisasse.
Eu não tive isso. Aprendi a andar de bicicleta sozinho. Nossos momentos juntos sempre foram preenchidos mais por silêncio do que por outra coisa. Como se não tivéssemos nada em comum, nunca. E ele sempre tentou compensar isso de alguma outra forma, me dando coisas materiais, quando tudo que eu sempre precisei foi presença.
Hoje eu trabalho em casa. Meu filho brinca na outra sala, com a porta aberta, e a única coisa que separa a gente é uma tela, dessas que se coloca em janela para mosquitos não entrarem. Ele está numa fase de exploração, então ao menor descuido ele sai pela casa, engatinhando, explorando, buscando. Ainda não fala, mas muitas vezes para na tela e me chama, no dialeto que ele inventou e acha que todo mundo entende. Paro o que estou fazendo, levando, tiro a tela do lugar, entro para a sala (que, no momento, está forrada com tapetes de EVA no chão e colchões, sem sofás). Me jogo no sofá, rolo com ele, brinco, rimos até não poder mais. E eu prometo pra mim mesmo, e para ele em silêncio, que a gente nunca vai deixar de fazer isso. Que eu vou fazer isso pelo resto da minha vida: ser o porto seguro para ele, percorrer as distâncias físicas que podem talvez nos separar, mas nunca vou deixar que ele sinta que deixei ele na mão.
Não. Não sinto raiva, remorso ou qualquer sentimento negativo do meu pai. Quando eu me tornei pai, talvez aprendi a ter um outro tipo de compaixão, daquelas que a gente busca realmente se colocar no lugar do outro. Mas, ainda sinto a falta dele, mesmo quando estamos reunidos na casa dele, entre churrascos e sobremesas, com ele ali do meu lado. E ainda amo ele, mesmo depois das ausências, das promessas quebradas, dos “hoje não posso ir ai”, dos “estou ausente, mas trouxe algo para compensar”.
Para o meu filho, não vou prometer nada. Apenas vou estar lá, para o que der e vier.