O BBB NOSSO DE CADA DIA

Dizem as más línguas que no Brasil existem apenas duas certezas do que irá acontecer durante o ano: o especial de fim de ano do Roberto Carlos e o Big Brother Brasil próximo ao carnaval. Meu interesse maior nesse artigo será sobre o único dos dois que eu vejo mais sentido de existência. Sim, me refiro ao segundo evento, pois há uma função psíquica para o que ocorre com o evento “BBB” que está implicada em nosso cotidiano, no modo como estabelecemos as nossas conexões afetivas e também como estabelecemos nossa “visão de mundo”, mas vamos chegar lá.

Vivemos em um país o qual a maior rede televisa, a Globo, tem um grande repertório de novelas somando aproximadamente 4 horas de uma programação diária, fazendo das novelas então um dos produtos mais consumidos. Presumindo que o brasileiro em sua maioria goste de novelas, o que veio antes, o gosto pelo gênero ou a introdução dos sistemas televisivos à população? Talvez esse questionamento seja impossível de responder, mas cabe o questionamento. Primeiramente estruturemos como se dão essas histórias em geral — há um casal de mocinhos (por vezes um dos dois é o principal e o outro é um personagem complementar à história) que irá por toda a novela buscar a felicidade, o pote de ouro no fim do arco íris, um vilão ou uma rede de vilões que torna-se o negativo exato dos mocinhos em busca do mesmo objetivo, teremos reviravoltas diversas, um eterno chove-não-molha, para, enfim, chegarmos ao casamento dos mocinhos e a promessa de felicidade e paz eterna.

O que parece à primeira vista um simples roteiro comum de uma novela ou um filme barato qualquer, muito se assemelha à estruturação de um discurso paranoico o qual a pessoa no centro da história sofre constantemente ataques de origem externa com a finalidade de sua destruição ou da destruição do que acredita. Embora esse paralelo seja traçado, essa atividade “paranoica” é muito mais comum do que parece.

O programa Big Brother Brasil, programa que está no ar há 16 anos, mostra-se como uma “novela real” se avaliarmos sua estruturação pelos parâmetros anterior — vemos pelo jogo de edição de imagens a construção de líderes, de mocinhos, de vilões, de pessoas que torcemos e pessoas pelas quais queremos eliminar de nossas vidas e, por fim de mais uma temporada de anseios e sofrimento, a premiação de uma bolada de dinheiro que daria para resolver a vida de muita gente em um país com tanta gente pobre.

Ora, mas por que tudo isso faz tanto sucesso? A resposta é simples: tudo isso faz tanto sucesso porque a estruturação de nosso psiquismo se estabelece em um maniqueísmo tal qual uma novela criando histórias em que somos os principais heróis ou mocinhos e mocinhas de nossas vidas. Nós, e os governos, criamos cotidianamente grupo de pessoas “más” que necessitam ser expurgadas de nossas vidas, para que possamos viver em paz. Ou seja, a História como a conhecemos, nada mais é que um roteiro fantástico criado a partir de pontos de vista que favorecem a criação de personagens com os quais possamos nos identificar e torcer por eles. A própria moralidade religiosa favorece esse tipo de estruturação, não só pelo ponto óbvio de que existem forças do bem e forças do mal, mas se formos bons seremos recompensados em algum momento de nossa vida, bem, se não acontecer em vida, tenha certeza de que seremos recompensados na morte. Não há falhas para esse discurso.

Ou seja, a vida em sociedade e a vida mental como a conhecemos é fundamentada a partir de moldes maniqueístas e “roteirizados”. Essa dinâmica psíquica não é à toa — a partir dela podemos construir nossas identidades pessoais e grupais ou gregárias e necessitamos disso para nos construirmos enquanto seres viventes, nortear nossos ideais e nossas ações. Nesse sentido, obviamente soa ridícula a ideia de chamar de “reality show” um programa que junta um aglomerado de pessoas (chamadas pelo apresentador constantemente de heróis) em uma casa fechada regada a festas, isso não é a realidade da vida em geral e muito menos do Brasil. Porém, a realidade do programa está no modo como construímos a ficção e necessitamos diariamente recorrer a ela não apenas pelo entretenimento, mas para que possamos nos identificar com os personagens em questão, poder dar uma forma de direcionarmos nossa agressividade à determinados personagens vilões (sim, a ficção permite isso) e, de alguma forma, podermos restituir a esperança de dias melhores em uma sociedade que, paradoxalmente, para funcionar tem que tirá-la e dar ao mesmo tempo.

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