O MOMENTO PROPÍCIO PARA A DESONESTIDADE

Vivemos um período de grande desonestidade intelectual, mas isso não tem nada a ver com as preferências políticas

Hoje em dia, basta viver para perceber quão insatisfeitas as pessoas estão com o modo de vida adquirido. Basta viver: você quer distrair sua cabeça um pouco no computador do seu trabalho e entra no facebook, então milhares de pessoas (número alegórico, depende de quantos “amigos” temos lá) reclamam de suas vidas ou escrevem “indiretas”. Então você decide que gostaria de dar uma saída do seu trabalho para espairecer por um instante, e na sua rua está ocorrendo um protesto por qualquer assunto que o valha. Depois de um longo dia de trabalho, você chega a sua casa, liga a TV e a presidente ou qualquer outro político começa a falar e as panelas cantam nas janelas e sacadas. Certamente esse dia de um cidadão brasileiro comum é caricato, mas expressa de alguma maneira o momento que vivemos. As pessoas que estão às voltas com todas essas insatisfações encontram-se num momento de intenso embate e por trás dessas pessoas temos também grandes líderes intelectuais*, sendo estes donos de retóricas e qualidades argumentativas surpreendentes possibilitando que seus discípulos possam reproduzir em seus embates pessoais. Mas por que nesses momentos de crise necessitamos de tantos embates? Certamente isso nada tem a ver com política.

Arthur Schopenhauer, um filósofo alemão do século XIX, em 1831 publicou um livro chamado “Como vencer um debate sem precisar ter razão — em 38 estratagemas (dialética erística)”, que por si só já é um título curioso. Nele, como o próprio título já expressa, Schopenhauer dá 38 estratégias para vencer um debate sem que necessariamente esteja certo sobre o assunto. Mas oras, qual a explicação para isso? O filósofo expõe, com suas palavras, o seguinte: em uma discussão muitas vezes discutimos sem saber se o que falamos é a “verdade”, entendendo esta palavra como algo que em um sistema lógico seja irrefutável se tratarmos o assunto racionalmente, então, partindo desse princípio, admitimos que nenhum dos dois oponentes que debaterão têm a certeza sobre o que estão falando. Por isso, é ideal que uma pessoa que está implicada nessa sua atuação conheça e domine técnicas de argumentação, chamadas aqui pelo autor como “dialética erística”, pois mesmo que você esteja de um lado que está correto isso não garante a sua vitória. A analogia que Schopenhauer faz de uma discussão é uma luta de esgrima a qual os rivais duelam por suas vidas: no fim da luta não importa quem estava com a razão, importa apenas quem venceu a luta. E por que agimos de modo que necessariamente tenhamos razão?

“De onde vem isso? Do componente altamente perverso da natureza humana. Se não fosse isso, se fôssemos completamente honestos, então em todo debate teríamos a intenção de exigir que a verdade fosse mostrada, sem nos preocupar se nossa opinião ou a do outro é que estava correta: isso seria absolutamente indiferente, ou pelo menos algo completamente secundário. Mas a natureza humana torna esta a questão central. A vaidade congênita, que é sensível em especial em relação às faculdades intelectuais, não quer reconhecer estar errada, e que o oponente tenha razão. Pela lógica, cada um deveria apenas se esforçar para emitir opiniões verdadeiras, sólidas, para o que seria preciso primeiro pensar e depois falar. Mas à vaidade congênita, se juntam a verborragia da maioria e a doentia desonestidade do homem. Falam antes de pensar, e depois percebem que sua afirmação era falsa ou que não tinham razão; ainda assim, atuam de modo a parecer o contrário. O interesse pela verdade, que deveria ser o único motivo da proposição de afirmações, é totalmente substituído pelo interesse da vaidade: a verdade deve parecer falsa e o falso deve parecer verdadeiro.” (Schopenhauer, 1831, p. 16)

Em 1914, o psicanalista Sigmund Freud escreve um artigo chamado “Sobre o narcisismo: uma introdução” em que aborda como tema um dos destinos possíveis da pulsão, energia psíquica de investimento: o próprio Eu. O termo narcisismo é uma clara referência ao mito de Narciso, um rapaz que nasceu muito belo e teve de ser afastado de todos os espelhos durante parte da sua vida, pois havia a profecia de que, ao se deparar com sua imagem, se apaixonaria. Um dia caminhando por um lugar, Narciso para de andar um pouco e vai beber água em um rio; lá se depara com sua imagem refletida e então apaixona-se por si. Encantado com a imagem refletida, Narciso não se move dali e definha até sua morte. Afrodite compadecida pela situação, então o transforma numa flor que recebe o seu nome “Narciso”.

Freud em seu artigo afirma que o investimento pulsional sobre si não pode ser tratado como algo apenas patológico, mas é uma fase essencial até para o desenvolvimento nos primeiros estágios da infância e para o desenvolvimento do sujeito também em fases posteriores. É nas fases iniciais da infância que a criança está começando a desenvolver e organizar todo o misto de sensações antes invasivas e angustiantes de forma que possa começar a ter certo domínio sobre sua realidade objetiva e afetiva, para isso é necessário um investimento narcísico em si para que possa também identificar o que vem de si e o que vem do outro e do ambiente externo. Talvez o que é normalmente entendido como “identidade” possa ser entendido como parte do que chamamos em psicanálise de “Ego” ou “Eu” que é desenvolvido aqui.

O conceito de narcisismo é essencial aqui então, pois talvez o que Schopenhauer afirmava ser uma “vaidade congênita” do ser humano envolvido em um embate, esteja diretamente relacionado à ideia psicanalítica, ou seja: a discussão em qualquer instância não está ligado à necessidade de um desenvolvimento da sociedade objetivamente, mas sim como uma afirmação do que eu sou e de quais minhas características são marcantes na minha condição de alguém que ocupa um lugar no mundo. Aí reside a nossa total desonestidade intelectual! Em nosso desenvolvimento enquanto sujeitos sempre precisamos do outro para que possamos nos desenvolver, desde pequenos os bebês são cuidados por seus pais ou responsáveis e nesse cuidado são atribuídos papéis que estes adultos desejam para seus filhos, a diferenciação do que é de si e do que é do outro não se dá sem a intervenção simbólica e linguística e de alguém que nomeie o que está se passando na experiência da criança. Narciso não se apaixona por sua própria imagem sem a intervenção das ninfas que, por não serem desejadas por Narciso, vingam-se dele.

A ideia da necessidade de identidade é mais desenvolvida por Freud, mais tarde, em 1921, quando em seu artigo “Psicologia das massas e análise do Ego” o psicanalista discorre sobre o conceito de “narcisismo das pequenas diferenças”. O questionamento por trás de Freud é o seguinte: por que em uma sociedade em que teríamos semelhanças culturais insistimos em encontrar distinções? Para ilustrar de maneira mais clara como age este tal “narcisismo das pequenas diferenças” trago um trecho do livro de Oscar Miguelez, “Narcisismos”, de 2007, o qual ele conta uma breve passagem de sua vida:

“Outra pequena historieta. Há algum tempo, encontrava-me em uma pequena cidade do interior de São Paulo que, como muitas outras, viu crescer em sua paisagem um número considerável de igrejas evangélicas. Perguntando a alguém a localização de um determinado espaço, recebi como repostas:

- Você deve seguir em frente, passar por três casas de demônio (outras igrejas) e, quando chegar à casa de Deus, estará ao lado do que procura.” (Miguelez, 2007, p. 45)

É apenas a partir da diferença que podemos criar a semelhança, nunca o contrário. A partir do momento que criamos um “eles”, nisso está intrínseco um “nós”. Não há nisso um desejo de eliminar o outro, o diferente, por completo. Assim como os amantes desgostosos, mandamos embora a quem amamos, mas desejamos no nosso íntimo que fiquem, pois é a partir do outro que podemos ser amados. Só posso mandar alguém pra Cuba ou pra Miami enquanto eles estiverem no Brasil, só posso afirmar que sou uma pessoa “de bem” se alguém é corrupto, vagabundo e vagabunda (com todos os sentidos que possam haver nessas palavras). Podem justificar-se o quanto quiserem e elaborarem as mais lindas teorias sociológicas, vocês estão se enganando. Já diria o ditado popular: “Ruim com eles, pior sem eles”. E acrescento: “se não eles, outros”.

* Tais líderes intelectuais buscados com exaustão nos momentos atuais estão deixando alguns psicanalistas contemporâneos de cabelo em pé, pois pregavam a “morte do pai” querendo com isso dizer que não há mais espaços para lideranças em uma sociedade contemporânea, mas será que as lideranças antigas que não estavam em consonância com a geração atual?!

Fontes:

Freud,S. “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução” (1914) Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996;

Freud,S. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921) Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996;

Miguelez, O. M. “Narcisismos” (2007). São Paulo: Escuta;

Schopenhauer, A. “Como vencer um debate sem precisar ter razão — em 38 estratagemas (dialética erística)” (1831). Barueri: Faro Editorial.