Memento Mori

Eu acho que a primeira vez que me dei conta que ia morrer foi aos 23 anos. Eu estava deitado no chão em um quarto escuro, sem sono ainda, embora de olhos fechados.

Quando me dei conta disso, meus olhos abriram de súbito. Minha inspiração foi profunda e rápida, como a de alguém que acaba de acordar de um pesadelo, ou como a de quem volta à superfície após um longo mergulho.

Passado o susto, comecei a expirar aliviado. Minha mente havia ficado à deriva por muito tempo, correndo de pensamento em pensamento, misturando passado, presente e futuro, todas as circunstâncias e conjunturas, todas as possibilidades.

Naquele momento, no entanto, ela havia colapsado num único ponto de duração infinita, o presente.

Como numa epifania, finalmente eu havia acordado de meus devaneios, eu conseguia sentir meu corpo inteiro, das pontas dos dedos dos pés à cabeça: eu conseguia ouvir minha própria respiração.

A partir desse dia, fui obrigado à aprender a conviver com o tique-taque do relógio, com a areia escorrendo pela ampulheta. Era como se algo me dissesse:

Seu tempo está correndo. Não vamos parar de contar só porque você está desperdiçando-o

O que pra muitos poderia ter sido um pesadelo (e eu, de início imaginei que assim seria), pra mim se tornou uma dávida. Cada segundo é importante, cada detalhe é crucial.

De início, achei que isso me tornaria uma pessoa metódica, chata e perfeccionista. É incrível como o efeito é justamente o contrário. Você simplesmente se torna mais vivo e capaz de sentir as coisas. O entusiasmo e a paixão pela vida aumentam, sua mente fica límpida, desobstruída das preocupações inúteis do dia-a-dia, que não tem levam à lugar algum.

Tudo isso me levou a uma reflexão mais profunda ainda:

Atravessamos tudo como a linha atravessa um tecido: formando imagens e não sabemos quais.

Rainer Maria Rilke

Se você pudesse ver a sua vida inteira, do último ao primeiro dia, qual a imagem ela formaria?