Da feira: conectando produtores orgânicos e consumidores por meio de um aplicativo.

Estudo de caso da plataforma de delivery “da feira”, desenvolvida entre maio e agosto de 2020.

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Contexto

Esse estudo de caso é referente ao projeto que desenvolvi para o curso de UX Design na Awari, com mentoria de Lucas Otsuka.

A ideia do aplicativo surgiu quando identifiquei a dificuldade em comprar produtos orgânicos sem precisar se deslocar até o ponto de venda. A partir disso, levantei algumas hipóteses que, junto com meu questionamento inicial, justificassem a necessidade de uma plataforma especifica.

Evidências do problema

Primeiro, tentei encontrar possíveis fornecedores em aplicativos de delivery (Rappi, Ifood, Ubereats, etc.). Porém, não encontrei nenhum perfil focado em produtos orgânicos em nenhuma das plataformas citadas. A partir disso, resolvi fazer uma pesquisa preliminar para entender como pessoas próximas resolviam essa mesma situação. Para minha surpresa, a resposta foi unânime: todos utilizavam o combo Instagram + WhatsApp para comprar produtos orgânicos sem sair de casa.

Infelizmente, diferente da experiência de ir à feira e escolher os produtos a dedo, no digital o processo é bem devagar e com bastante ruído. E isso ocorre, principalmente, por quatro motivos:

  • Informações dos produtos nem sempre estão atualizadas ou completas;
  • Feedbacks de compra lentos (às vezes inexistentes);
  • Não ter como encontrar diferentes fornecedores em um mesmo local.
  • A inacessibilidade aos produtos.

De acordo com a pesquisa preliminar, os consumidores têm interesse em consumir alimentos orgânicos, mas não há disposição de acordar cedo para ir a uma feira. Além disso, pelo fato de alimentos sem agrotóxicos serem mais caros e difíceis de encontrar, nem sempre os interessados têm condições financeiras de investir nesse tipo de alimentação. Logo, acabam optando por opções mais comuns, que são oferecidas em grandes redes de supermercados.

Pesquisa de usuário

A partir da identificação do problema, levantei as seguintes hipóteses:

  • Há interesse em uma plataforma focada em produtos orgânicos locais por parte dos consumidores.
  • A precarização dos serviços oferecidos digitalmente é responsável pelo afastamento de clientes em potencial.
  • A plataforma pode ser um incentivador para novos consumidores.

Para fundamentar as hipóteses, escolhi dois métodos de pesquisa: questionário on-line (quantitativo) e entrevistas com usuários (qualitativo). Devido à pandemia todas as etapas foram remotas para garantir a segurança de todos os envolvidos.

Questionário Online + Entrevistas

Elaborei um questionário com 15 perguntas no Google Docs para entender se existia interesse em consumir alimentos orgânicos. Compartilhei em diversos grupos e contatos via WhatsApp. Após essa etapa, para entender melhor os consumidores, realizei entrevistas com cinco participantes. A faixa etária deles varia entre 20–30 anos, de gêneros diversos e diferentes regimes alimentares (veganos, vegetarianos e onívoros). Com as respostas que obtive nas duas etapas, analisei e identifiquei os seguintes insights:

Supermercado é uma escolha por conveniência.

Mais de 50% dos entrevistados escolheram opções físicas (supermercado e feira livre) quando foram perguntados sobre o local onde realizam compras orgânicas.

O delivery acaba sendo uma opção essencial para quem mora sozinho ou não tem um transporte próprio:

“Como eu faço feira sozinha e vou andando, acabo optando por deixar os produtos mais pesados para o delivery. Assim não fica tão pesado carregar as compras”

A credibilidade do fornecedor é essencial.

Quase 80% dos entrevistados alegaram ter dúvidas sobre a procedência dos alimentos que consomem.

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A dificuldade em achar variedade de produtos em um mesmo lugar.

Um dos pontos observados foi a limitação da categoria “orgânicos” em supermercados mais populares, resultando em mais uma barreira para um consumo que já é limitado.

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Uma opção prática para um dia mais turbulento ou apressado:

“A primeira vez que fiz uma feira no Rappi foi porque estava chovendo. Foi bem tranquilo, escolhi os produtos, o valor foi debitado do meu cartão e chegou bem rápido.”

Importante ter um horário de entrega flexível para não limitar o consumidor a comprar só em um horário:

“A feira orgânica aqui do bairro é só no domingo de manhã, acabo ficando com preguiça de acordar cedo no domingo só pra isso.”

Os maiores concorrentes são as lojas físicas e não apps:

“Se eu já estou indo ao supermercado fazer a feira, não é mais prático resolver tudo lá?”

“Tem um supermercado perto da minha casa. Como eu também treino lá, acaba sendo mais fácil resolver tudo no mesmo local.”

Personas + Mapa de empatia

A partir das informações obtidas durante o processo de pesquisa, construí duas personas com seus respectivos mapas de empatia para servir de apoio durante o desenvolvimento do aplicativo.

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Análise Competitiva

Após finalizar a etapa de síntese com as personas e os mapas de empatia, iniciei uma pesquisa de mercado para identificar os possíveis concorrentes em uma esfera local. Dessa forma, foi possível analisar como os destaques e limitações dos concorrentes afetam a jornada do usuário. Infelizmente, por não ter encontrado plataformas locais focadas em produtos orgânicos, selecionei dois aplicativos populares de entrega (Rappi e Ifood), assim como duas plataformas estrangeiras com propostas similares ao projeto apresentado: Riveford e Farmdrop.

Após concluir a análise, pude identificar os seguintes pontos:

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User Stories

Apoiado nas informações levantadas anteriormente, produzi user stories como no exemplo a seguir, para ilustrar as principais ações que o usuário vai encontrar na plataforma.

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Exemplo de como as user stories foram feitas.

Elaborei as estórias a partir de situações comuns e presentes na rotina das personas. Para esta etapa defini as principais ações que vão guiar a jornada do usuário:

  1. Selecionar os insumos desejados e efetuar a compra;
  2. Conhecer o local onde o insumo é produzido e quem o fornece;
  3. Não precisar se deslocar de casa para realizar uma compra;
  4. Poder agendar as compras para ter um dia mais confortável;

Sitemap

Para ilustrar o fluxo de navegação, elaborei um sitemap a partir das user stories com as principais ações que devem ser executadas pelo usuário.

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Desenvolvi o fluxo a partir de 4 ações: levar o produto na home para o carrinho e concluir a compra; encontrar a tela do fornecedor referente ao produto escolhido; acessar a categoria cestas e, por fim, realizar o login após acessar a plataforma.

Esboços + wireframes

Após o sitemap, comecei a desenhar os esboços com as principais telas do aplicativo. Por ser uma etapa de teste, optei por esboços de baixa fidelidade para otimizar o desenvolvimento e as possíveis substituições. Dessa forma, pude elaborar as telas focado exclusivamente na interação do usuário.

Depois de finalizar os esboços principais, organizei os desenhos no Figma para iniciar a elaboração dos wireframes. Durante o processo de criação, fui testando elementos e ideias que tornassem a experiência do usuário mais fluida. O intuito foi tornar o processo de compra mais objetivo para evitar uma longa jornada mais propícia a desistências.

Com os wireframes de alta fidelidade prontos, iniciei os primeiros testes com os usuários.

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Testes de Usabilidade

Após finalizar os wireframes, organizei um roteiro para iniciar os testes com os usuários. Devido à pandemia, para garantir a segurança de todos os envolvidos na pesquisa, as entrevistas foram feitas através do protótipo navegável do Figma com o Zoom. Para garantir a segurança de todos os envolvidos. Nesta etapa convidei 4 voluntários com perfis parecidos aos das personas para validar as seguintes tarefas:

  1. Encontrar um item específico na home;
  2. Realizar um processo de compra iniciando da home até o recibo;
  3. Pesquisar um produto específico na tela de pesquisa;
  4. Encontrar a tela das cestas a partir da home;
  5. Agendar a entrega das cestas;
  6. Realizar uma compra de cesta.
Realizando o teste com o protótipo navegável do Figma com o Zoom. *imagens cedidas com autorização dos voluntários.

Por meio dos testes percebi os seguintes ruídos na navegação e consequentes soluções:

Se existia a necessidade de ter as opções ‘configurações’ e ‘perfil’ no menu fixo, ao invés de colocar as configurações dentro do perfil. A opção foi substituída pelo ícone de caixa, referente a opção cesta.

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A área clicável ‘adicionar cartão’ estava limitada ao ícone do cartão. Isso gerou uma falha, pois os usuários estavam clicando apenas na palavra cartão. Aumentei a margem clicável para o nome e o ícone.

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As opções de entregas das cestas estavam muito apagadas, fazendo com que muitos usuários não percebessem a opção na tela. A partir disso, aumentei a fonte das opções de entrega, adicionei um retângulo para destacá-las e escureci o texto.

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Identifiquei que, devido a um ruído na etapa sacola, o usuário teria que realizar uma compra por vez, o que gerava uma jornada extremamente cansativa. A partir disso, adicionei um CTA para continuar comprando antes de o usuário finalizar a compra.

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Visual Design

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Por ser a tela inicial e o primeiro contato com a plataforma, organizei a home com as principais ações: banner ads, categorias e produtos. Optei por um visual mais clean e com ícones ilustrados, para não conflitar com as fotos dos produtos.

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A partir dos pontos levantados nas entrevistas, destaquei a foto e a descrição do produto. Para deixar a informação mais fluida, adicionei a ação “conheça o fornecedor” com a mesma solução gráfica que o resto do texto.

O intuito disso é fazer com que o usuário identifique o complemento da descrição e o diferencie do CTA “enviar para a sacola”.

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Após as pesquisas percebi a importância do fornecedor na decisão de compra. Por isso, optei por destacar a imagem com o fornecedor seguido de uma pequena descrição sobre ele. Além disso, adicionei o contato do fornecedor no final, para casos em que o usuário tenha interesse em saber mais sobre o projeto.

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1) tela cestas principal 2) tela cestas produto 3) tela de agendamento das cestas.

Por ser um dos principais serviços da plataforma, organizei a jornada em três etapas: opções de entrega e suas respectivas cestas, tela de produto com todas as informações pertinentes (incluindo a opção de fornecedor) e, por fim, o agendamento da entrega.

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1) tela perfil 2) tela login 3) tela de aviso para realizar o login antes de finalizar a compra.

Para otimizar a jornada do usuário no app, optei por deixar o login exclusivo para plataformas conhecidas. Dessa forma, acredito evitar o desconforto de exigir dados pessoais dos usuários.

Seguindo essa lógica, defini o login como a última etapa de compra. Isso dá a liberdade de o usuário criar um vínculo com a plataforma apenas quando for necessário fechar uma compra por meio dela.

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Conclusão

Após concluir o projeto, percebi o quão importante foi centralizar as intenções do usuário no processo de criação. Durante toda a jornada, fui confrontado com situações e experiências que não estavam no meu “roteiro”, o que só reforçou a importância de conhecer o público alvo antes de criar um produto. Com base nisso, dou destaque às etapas de pesquisa e teste com o usuário. No segundo caso, que aparentemente seria “simples” pela lógica que seguir, acabei descobrindo problemas que não teriam sido resolvidos sem os testes.

O projeto foi trabalhoso, mas acredito que ainda há muito a ser feito. Se fosse recomeçar hoje, teria feito algumas coisas diferentes, como por exemplo: ter focado mais tempo em testes antes dos wireframes. Isso agilizaria a criação e evitaria alguns retrabalhos. Além disso, teria entrevistado pessoas de outras cidades para entender os problemas com usuários em outro ambiente.

Por fim, agradeço imensamente o Lucas Otsuka por ter sido um mentor incrível e dedicado (afinal, não é fácil fazer mentoria aos domingos) e o Fábio Muniz, que foi um excelente professor e deu todo o suporte necessário ao longo do curso. Também registro meu respeito ao Eduardo Araújo, pela paciência e dedicação em revisar este trabalho, e a todos que separaram um tempo, por menor que tenha sido, para ajudar com o projeto.

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