para meu pai preto.

Perdoa teu pai preto. Ele é homem, mas fizeram dele máquina.

Meu pai é um homem preto. Seu nome é Natanael. Ele nasceu no dia 14 de maio de 1959 da barriga de dona Mariana numa vila inomeada do interior de Minas Gerais, como aquelas das histórias de Conceição Evaristo. Seu pai, meu avô, era um homem branco. Dele não sei sequer o nome — mas sei que é ele o motivo pelo qual tanto papai quanto vovó fugiram de sua casa e vieram para o Rio de Janeiro. Meu pai tinha 2 anos.

Meu pai é um homem preto. Preto de nascença; ao contrário de mim, ele sempre soube que era preto. Ninguém teve que dizer para ele, nem ele teve de descobrir. Mas ele nem sempre enxerga sua condição como um homem negro.

Meu pai é um homem preto. Ele foi o primeiro de nossa família a entrar para a faculdade — uma pequena universidade pouco renomada perto de nossa cidade —, mas eu serei o primeiro a ser formado. Ele teve de trabalhar desde muito cedo, desde os 12 ou 13, e teve que fazer uma difícil decisão. Ele não hesitou em escolher o trabalho, que era a única possibilidade dele sobreviver no momento.

Meu pai é um homem preto que casou com uma mulher branca. Por isso eu saí tão claro. Raça nunca foi uma questão para ele ou para minha avó. De fato, ele sempre detestou militantes, mesmo os de sua família… Que ironia que seu filho de pele clara faça parte dos mesmos grupos que ele mesmo tanto desprezava. Mas mamãe e papai sempre foram muito unidos. Lembro sempre da história de quando ela estava na faculdade e era conhecida como a menina de uma calça só — caso autoexplicativo — e meu pai, já tendo desistido do ensino superior, gastou seu salário com roupas novas para ela. Ela também viria a desistir logo depois.

Meu pai é um homem preto que sempre nos pôs à sua frente. Sua família era sua prioridade. Sempre extremamente presente, sempre preocupado, sempre amedrontado que algo desse errado. Amedrontado demais. Ansioso demais. A ponto de não dormir enquanto eu não voltasse para casa, ou chorar quando eu me atrasava por uma hora ou mais. Meu pai é um homem preto que chora escondido, quando pensa que ninguém está vendo. Você já viu algum homem preto triste? Você já viu algum homem preto que chora?

Eu odiei meu pai quando ele descobriu que eu era um homem que amava homens. Eu odiei sua raiva incontrolável, que ele jamais demonstrara antes. Odiei quando ele me arrancou de minha cama muito cedo pela manhã para me mostrar minha mãe chorando — “olha o que você fez!” Eu odiei meu pai preto quando ele chorou diante de mim. Quando eu, um homem que ama homens, fiz ele chorar diante de mim. Eu odiei meu pai preto apesar dele ser um homem preto.

Eu entendo, pai.

Meu pai é um homem preto que foi forjado nas dores de um homem preto. Como eu, ele é sensível demais — e preto demais para ser sensível demais. Como eu, ele tem que enfrentar seus demônios sozinho, sem deixar ninguém entrar, sem se permitir nenhum afeto. Meu pai é um homem preto que não conhece a palavra depressão — assim como eu não conhecia. Ambos engolíamos nossas tristezas. Nós dois tivemos que lidar com isso sozinhos, cada um de um lado. Nunca nos alcançamos. Nunca atingimos um ao outro. Mas sempre fomos muito parecidos.

Pai.

O mundo te quebrou, pois você é um homem preto. O mundo te entristeceu, pois você é um homem preto. Toda essa solidão, pois você é um homem preto. E se eu fui herdeiro dessa solidão, é porque nosso amor é pesado demais, tem entraves e receios demais. Ninguém nos ensinou a amar — ninguém nos ensinou a aceitar nosso amor. Mas nos amamos mesmo assim. Sem nossas pernas ou nossos braços, com o peito cambaleante.

Vai haver um dia em que não vamos mais ser definidos por nossas dores. Vai haver um dia em que homens pretos não vão precisar criar cascas grossas em torno de si. Vai haver um dia em que nossos corações não serão tão pesados, nem nossas cabeças tão baixas. Um dia, será permitido ao homem negro amar abertamente. Chorar abertamente. Um dia, um homem preto não nascerá dolorido. Um dia, um homem preto não precisará ser máquinha. Um dia, um homem preto poderá viver de amor.

Enquanto esse dia não chega, eu te perdoo, pai.

Você consegue me perdoar?

Hoje é o primeiro dia dos pais que passo sem meu pai. Não o vejo há 3 dias, desde que entrei num trabalho intensivo longe de casa. E eu nunca senti tanta falta dele. Eu não tenho coragem de mostrar a ele este texto hoje — mas, um dia, eu terei.