Vivendo e aprendendo a jogar: Brasil x Itália, 1994
Vez ou outra escrevo em algum canto. Aqui, sobre futebol. Gosto tanto do esporte quanto de entender como minha vida chegou até aqui com ele. Hoje, Brasil x Italia, 1994 — jogo que mudou minha vida.
Foda-se a seleção. É o que dizemos facilmente em 2017. Olho com desdém meu próprio desdém para com a seleção brasileira — que, em 1994, aprendi a escrever com letras maiúsculas. Hoje, entendo Tite e Neymar como figuras muito mais interessantes do que o amarelo ouro da CBF. Mas em 94, gritei como desesperado por um sentido, abobado por pertencimento, o título que Roberto Baggio cravava em nossa história. Minha vida e também a vida da geração 88 no futebol começaria, então, com uma bola pra fora.

Inúmeros Igors, Yvinas e Yuris e nomes vindos da Rússia emergiram nos anos 90. Isso me deixava frustrado. Jogar bola ostentando “Yuri” na apresentação era definitivamente horrível. Mais tarde e confiante em mim, passei a assumir o codinome “Amoroso”. Um dibre, um gol, vinha a pergunta “aí, qual teu nome”. Sem medo, dizia: “Amoroso”. Dava a cartada homônima ao jogador que brilharia na Udinese em qualquer peladinha mais afastada do quarteirão em que morava. “Mas… Amoroso igual ao jogador?”, perguntavam. Adorava a reação e acabava confirmando que sim.
O título de 94 me fez entender algumas coisas: o que era um craque (pela figura de Romário), o que era um amigo (pela figura de Bebeto), o que era um operário (nem sempre condecorado, pela figura de Zinho), o que era um peixe fora d’água (pela figura branca e de cabelos lisos de Leonardo), o que era comemorar uma copa com a vizinhança e por aí vai. E, principalmente, o que era um ídolo. O Romário, definitivamente, era um cara muito icônico pra mim. Pior: nem pelos gols. O lance d’ele encurvando as costas para que naquele espaço de espinha dorsal ausente passe uma bomba de Branco era demais pra minha cabeça.

Meu pai, claro, odiava o Raí. Camisa 10 apático e símbolo paulista de elegância, em nada ajudou a seleção com sua pouca raça naquele campeonato mundial. Meu pai, aliás, adorável em suas escolhas: com ele, aprendi que futebol não é justiça. Cafu, lateral que surgiria para o mundo e história naquela copa, desde lá, tornou-se alvo do meu pai. Os xingamentos (“inútil”, “ameba”, “só corre, não pensa”) continuariam ainda que a TV Globo, já em 2002, estivesse exibindo fanática o capitão orgulhoso de sua trajetória e glória erguendo a taça de campeão da Família Scolari. 100% Jardim Vingança.
Em 94, porém, minha compreensão do esporte era limitada. Por algum motivo que eu ainda não sabia, eu era Flamengo e, logicamente, entendi que ter Romário, o ídolo da copa, em seu time, um ano depois da grande Copa, era grandioso. Mas também entendi que a elegância da ideia teria que conviver com a pequenês do futebol brasileiro nos anos 90.

Pro Romário, estar em campo contra o Madureira era moleza. Mas isso nos fascinava. Era 4x1 pro Flamengo. Goleada fácil, obrigatória. Lúcio havia encerrado a goleada com um gol raro de chaleira. Já Romário, marcaria o 100º gol rubro-negro em Campeonatos Cariocas. No final do jogo, alegria pro povo: o lateral Cafezinho provoca o Baixinho e toma uma senhora banda.
A cena é boa. Melhor a que viria. Uma semana após, o Globo Esporte conseguiu achar o filho do lateral do tricolor suburbano. O moleque, esperto, pedia em rede nacional: que o atacante não batesse mais em seu pai. Sem graça, Romário diria: nunca mais. Veja bem: em rede nacional, uma vez que o Globo Esporte do Rio de Janeiro era transmitido para todo Brasil, um moleque pedia ao maior craque brasileiro: por favor, Romário, não bata mais no meu papai.

Isso matou um pouco do meu tesão pelo fazer nas coxas que é o futebol brasileiro. Eu já não entendia o que era Seleção. Ok, era campeã da Copa. Mas… e o que mais? E aí, pra completar, o meu time de coração com meu ídolo de coração jogava em Madureira para dar banda num lateral chamado Cafezinho. Dali em diante, prometi a mim mesmo sofrer somente pelo Flamengo — — como se fosse mãe de um filho criado junto a outros garotos em uma cracolândia: do meu garoto, te garanto, cuido eu. Eu já sabia: não teria forças pra discutir os porquê éticos de uma cena na qual dirigentes comemoram estourando champanhes uma virada de mesa.
Você sabe do que eu estou falando.

Vinte anos após o tetra, as reações ao 7x1 não confirmaram meu ódio pelo futebol, mas pela ilusão que ele nos dá de que estamos ali incluído. Eu amava futebol, eles a grana. Eu amava futebol, mas não amava, talvez, o meu país. Romário foi um oásis no Flamengo: de títulos e de esperança. Ao invés de evolução, após, foi tudo ruína. No amor, quando essa ilusão é quebrada, a gente perde o tesão, enlouquece. Na política, a gente começa a falar de autocrítica.
Com o futebol, isso normalmente dura o intervalo entre uma cerveja e outra. O teu atacante pega a bola, desconcerta o zagueiro e a vida faz sentido novamente. Foda-se a porra toda, eu quero mais é que meu Flamengo ganhe essa merda.
Obrigado pela companhia, até o próximo: Flamengo x Fluminense, 1995
