#ingratidão
Outro dia li um post no qual o autor criticava quem não estava satisfeito em morar no Rio de Janeiro. Sua sugestão, inclusive, foi que os ingratos se mudassem para o Afeganistão e dissessem de lá como tudo estava.
É fácil escrever GRATIDÃO por aí quando se ganha muito acima da média da população, quando se mora na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando você ganha as coisas porque a panela carioca diz que você é relevante. Quando não sabe o que é pegar um trem lotado na Central do Brasil. E não bastando o desgaste de batalhar o dia inteiro por um salário mínimo, ter que viajar por mais de uma hora e meia até em casa ouvindo gritos de ambulantes e sendo empurrado pelos mesmos, que embora estejam tentando ganhar seu suado dinheiro, falta-lhes educação.
Gratidão é coisa rara nesse Rio de trem lotado. De linha 2 de metrô sem ar condicionado. De tiroteio dia e noite. De preconceito. De aluguel atrasado. De conta que não fecha. De ligação de cobrança. De gente que te olha torto quando você diz onde mora. Mas precisamos ser gratos por não ter uma bomba caindo em nossa casa, não é mesmo? Por não ter um país invadindo o nosso para nos roubar petróleo com a desculpa antiterrorista. Mas podemos ser gratos por morar no Rio de Janeiro onde a polícia mata preto pobre favelado todo dia e a corrente da gratidão finge que não vê.
Você tem que ser grato por ter um emprego, mesmo que te obriguem a se desdobrar em um milhão e pareça que você nunca é bom o suficiente por não dar conta de tudo que te mandam fazer. Você tem que ser grato por ter um lar, mesmo que seja na favela, mesmo que o prédio ao lado exploda, mesmo que matem um cara no pátio do seu prédio. Você tem que ser grato por pegar metrô em horário de pico e lutar para ficar dentro do vagão — e dar a sorte de sair na estação que precisa.
Ser grato não é o problema. Nunca foi, inclusive. Você não tem culpa de ter uma boa educação, de ter um bom emprego, de ser bem sucedido. Você não tem culpa de morar na ZS, de poder caminhar na praia pela manhã, de não ter medo de não conseguir pagar o plano de saúde da sua filha no mês seguinte. Você não tem culpa pelas oportunidades que tem e das preocupações que não têm. O problema é a obrigação de ter gratidão, que por muitas vezes a turma grata tenta nos enfiar goela abaixo.
Sonho com um Rio de Janeiro em que todos possam ser gratos um dia pela qualidade de vida que têm, mas enquanto isso a única coisa que posso oferecer é minha amarga ingratidão, perdoem-me.