fábio de oliveira



Garoto Paulistano

crônicas


Acordo de manhã em meio de maior discussão, olho pelo vão da janela quebrada do meu quarto que fica na sala, discussão. Minha vizinha está gritando com os coxinhas — pelo jeito aprontaram uma — , abro a porta e vejo um aglomerado, tem até gente do morro do lado. “O filho dela não fez nada”, gritaram no quinto andar do puxadinho do lado, quem disse que na favela não tem arranha-céu?

“Ninguém fez nada aqui não senhor”, fala seu João tentando apaziguar a situação, que já estava bem conturbada, o policia saca a arma, fala que não é pra ficar em cima — da pra ver o medo na cara dele — , deve achar que o povo e bicho.

Aqui é assim, na real, pobre não tem vez não, nunca teve e pelo jeito nunca vai ter, agora com esse negocio de redução vai ficar pior ainda, eu já vi muitos subirem aqui e pegar qualquer um pra ‘botar a culpa’, agora com isso ai acabou a paz da minha mãe, eu tenho 16 e vão poder fazer isso comigo, foi papo reto: é de casa pra escola, da escola pra casa, nada de jogar futebol no domingo, é foda.

fábio de oliveira

Eita, levaram o garoto, falaram que estava traficando — não acredito — , o menino era bom, passou até na faculdade, mas não conseguiu entrar, a bolsa que ele conseguiu era de 50%, pobre não tem um barão e meio por mês pra dar assim de mão beijada, olha que esse preço já era com o desconto. Agora ele se foi, já era.

Eu só queria ter uma chance, na real mesmo, a coisa feia, meu pai trabalhava numa fabrica de carros que mandou ele embora semana passada, minha mãe lava e passa pra fora, agora começou a fazer faxina na casa das madames, eu só queria uma oportunidade, pra ver se eu tiro minha família daqui. Com quem eu falo?