Culpe esses homens

Doenças comuns na sociedade brasileira: nacionaliteriose

Meio de uma consulta médica, escritório do dr. Alberto Chateaubriand. 15h35 da tarde. O jovem que se senta à cadeira é Odair, ele possui uma barba rala, mas ao mesmo tempo grande. O óculos quadrado protege a dor nos olhos do menino, que foi prontamente ao médico em busca da solução pros seus problemas. Pegamos a conversa pela metade:

— Eu não tenho certeza se isso é normal dos escritores no geral, mas a primeira vez que aconteceu comigo foi há umas duas semanas, era uma noite taciturna, e a melodia me inebriava e me carregava para o fio das horas em que me perdia…

O doutor olhou com cara de reprovação angustiada para o jovem barbudinho que se sentava a frente dele.

— Ok, vou te fazer mais algumas perguntas. Já aconteceu com você algum evento em que você insistiu que Vinícius de Moraes era muito bom, ou talvez o grande poeta brasileiro?

O menino engoliu seco e assumiu que, uma vez, num bar, já embriagado, se inflamou e começou a soltar essas palavras. No meio do relato, argumentou com o doutor e disse que ele é um dos melhores sonetistas do mundo e que, além disso, era um ótimo músico.

— Mas o Vinícius de Moraes cantava mal pra caralho — na mesma hora, o médico percebeu que havia cagado no pau com seu paciente. Após alguns segundos pensando se consertou com — no entanto isso não atrapalhava a qualidade da sua música, como é visto em Afrossambas…

As perguntas do médico continuaram por mais alguns minutos. O menino elogiava Chico Buarque, Caetano Veloso, dizia que Guimarães Rosa era o melhor, mas após uma consulta do doutor ao seu cartão da biblioteca, constatou que o menino nunca havia lido qualquer obra do autor. Além disso, Odair citou Jorge Amado, Clarice e Cecília Meirelles. Quando o garoto disse que o “Bloco do Eu Sozinho” era o melhor do Los Hermanos e que o havia inspirado para escrever vários contos, o doutor interveio.

— Olha, a gente tem um caso muito sério aqui. — a cara do menino foi de um trio elétrico da Daniela Mercury pra um disco solo do Marcelo Camelo — A nacionaliteriose é uma doença perigosa, que causa sonolência, náuseas, dor de cabeça, desinteresse, déficit de atenção, pressão alta, stress e até suicídio, mas somente nas pessoas que convivem com você. A OMS reconheceu a patologia recentement e o Ministério da Saúde aponta que o diagnóstico é executado quando a pessoa anda “pagando muito pau pra artista que aparece no Canal Brasil”. A doença tem afetado cada vez mais jovens ultimamente. As medidas de profilaxia deveriam ter sido tomadas pelos seus pais… Onde você estudou, mesmo?

— Estudei na Waldorf.

O médico deu uma risada irônica — E agora está onde?

— Na FFLCH, senhor.

— Ok, a gente vai tomar uma medida drástica.

O desespero tomou conta dos olhos do menino e o dr. apertou um botão no seu computador. Em alguns segundos, o sistema de som do médico começou a tocar “Pretty Fly (For A White Guy)”.

— A partir dessa semana a sua vida mudou. Eu vou te receitar alguns livros, filmes e discos para que você passe dessa fase. Até a próxima consulta, que será na próxima semana, você vai ter que ter visto pelo menos dois American Pies e um filme do The Rock. As bandas brasileiras permitidas são Raimundos, Charlie Brown Jr., Agnaldo Rayol e pra te deixar feliz eu vou liberar um Raça Pura… exclusivamente a track “O Pinto”, que não pode ser classificada como genial em nenhum aspecto. De resto, só gringaiada. Livros a gente deixa livre qualquer coisa que esteja fora da Academia Brasileira de Letras. Proibida também qualquer produção brasileira que tenha aparecido por citação, ironicamente ou não, Revista Piauí e na CULT. Além disso, sem poemas e

— Doutor, eu não vou conseguir. Onde é que eu vou arranjar referências pras conversas no bar da faculdade?

— Vai dar tudo certo, Odair. Como já diria Renato Russo, mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.

Acostumado com as lágrimas de seus clientes, o médico abraça o menino e lhe explica: — Nacionaliteriose tem cura e você vai se sair bem dessa. Apesar de seu nome ser Odair por causa do Odair José, o que convenhamos, é bem merda, a gente sempre encontra uma cura. Você vai melhorar.

O menino sai e ele dá o toque para sua secretária. A próxima paciente vem, ele a cumprimenta.

— Pode se sentar… — ele consulta o nome dela no prontuário — Maria Bethânia?

Like what you read? Give yurif a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.