O filme LGBT brasileiro que não tem nada de brasileiro

Um exemplo da síndrome de vira-lata do cinema atual

A sétima arte está virando o retrato cru de sua sociedade. A arte imitando a vida. Beira-Mar, filme brasileiro com proposta lgbt, faz isso muito bem ao retratar somente uma parte da sociedade lgbt brasileira, que não é a maior: as dos jovens brasileiros que mais parecem europeus: brancos, ricos, que vivem de festas e com um drama aqui e acolá.

O problema é que ninguém precisava de Beira-Mar para reafirmar um padrão que a mídia e a sociedade insiste em querer enfiar goela abaixo da sociedade lgbt.

A vida cotidiana da geração Y classe-média-alta é dominada pela tecnologia e por relações introspectivas, silenciosas e monótonas. Assim, o filme mostra os dias dos dois adolescentes principais com essas exatas características. Martin e Tomaz estão em viagem para o litoral, em busca de parentes distantes de um deles. Essa subtrama familiar se desenvolve de forma peculiar durante o longa-metragem e lentamente é esquecida diante do enfoque direcionado a principal trama do filme: a relação entre Martin e Tomaz, amigos de muitos anos, mas que foram se distanciando devido ao tempo, tendo Martin encontrado a viagem ao litoral como solução para se reaproximar de Tomaz.

Os diálogos dos amigos acontecem entre conversas reais desse grupo de adolescentes, com a gramática propositalmente incorreta: Há gírias, palavrões, assuntos “banais” como relacionamentos, amigos, bebidas e festas, tornando o filme bastante imaturo, fútil.
Esse tema carrega todo o filme: os amigos tem praticamente a mesma idade, não tem a personalidade completamente formada, não sabem muita coisa sobre o futuro, muito menos o que estão fazendo com suas vidas. Até aí tudo bem, esse é um problema que não é exclusivo da classe-média-alta brasileira, mas que aparece por motivos diferentes.

Beira-Mar também peca ao se tornar parasita de outras obras. São óbvias as inúmeras referências a “Azul é a Cor Mais Quente” e expressões artísticas do cinema francês.

Não é um problema, até ser.
 
O filme retrata o assunto sexualidade, que precisa ser falado e mais introduzido no cinema, mas não traz originalidade ou algo para o público brasileiro se identificar. O gay favelado e preto é esquecido aqui. Mendigos não existem nas ruas de Beira-Mar, pintar o cabelo de azul é o maior ato rebelde do filme, os personagens mostram uma heteronormatividade que a sociedade cisma em dizer que é “o aceitável”, as paisagens e o ambiente do filme soam irreais até pra quem sabe que o Sul é visualmente bonito. Parece mais a Escócia.

Quando o cinema brasileiro teve a chance de mostrar o lado lgbt de sua população, que existe, em peso, que imploram para ter voz, ele nos dá um tiro nas costas: é um filme que se aplica de forma identificável somente para jovens brancos, ricos, com o sotaque “lindo” do sul, ou derivados, e que o maior problema de suas vidas é decidir o momento certo de chegar no amiguinho que tem uma paixonite. As situações problemas são quase risíveis e, como se não bastasse, todo o drama interno sobre sexualidade se resume a uma cena de “sexo conceitual” que os amantes e estudantes da classe-alta brasileira adoram.

Obrigado pelo desserviço.