O ‘lugar de fala’ é uma falácia

Que não vai trazer progressos para a sua militância


Não cheguei a essa conclusão sozinho, nem sempre enxerguei o famoso ‘lugar de fala’ como algo tão contraproducente. Eu comprava esse discurso porque acreditava no poder do protagonismo como é pintado para nós, que fazemos parte do grupo que luta por uma sociedade mais justa para as chamadas ‘minorias sociais’ (há discordâncias internas e pessoais sobre esse termo).

Nesse mundo de ativismo o caminho que muitas pessoas tomam é o de conseguir enxergar glamour na necessidade da militância. Particularmente, não vejo glamour algum em estar a quase todo o momento insatisfeito com o seu meio social. Quando você entra no mundo da militância, muito dificilmente encontrará um caminho de volta. Porque não há: ou você volta para a ignorância, ou você é parte do grupo dos incomodados que não vão se mudar, mas vão mudar o mundo.

O problema é quando você não consegue lidar com isso e passa a culpabilizar indivíduos pelas opressões que eles perpetuam. É quando você começa a enxergar a opressão no micro e não no macro. O que quero dizer é que o real opressor não é o indivíduo, mas o sistema em que o opressor e oprimido estão inseridos. Lendo assim não parece novidade. Mas o fato é que no cotidiano, quando vemos uma coisa errada sendo dita, esquecemos disso.

Quantas vezes eu já me senti ofendido com uma pessoa cisgênero e heterossexual querendo defender direitos LGBTs falando ‘Cada um precisa respeitar a opção sexual de cada um’? Essa frase causa incômodo por dois motivos: O primeiro, é porque é uma pessoa cisgênero e heterossexual falando sobre direitos LGBTs. O segundo, é porque ela se refere a orientação sexual como opção. Mas há uma pessoa cigênero e heterossexual, que não tem ideia do que é sofrer LGBTfobia, mas que se importa com as mortes e injustiças contra LGBTs e está semeando um discurso que na base, no cru, na instância da mudança, é a real necessidade: a de respeitar orientações e identidades sexuais. Se essa frase aparecesse na minha timeline há uns 3 meses atrás, eu provavelmente, no alto da minha ira, comentaria “Hétero tentando falar sobre direitos LGBTs: close erradíssimo. Não é o seu lugar de fala, então fique calado”.

Há uma outra camada problemática nisso tudo. Às vezes num jantar de família, onde você é o diferente, o LGBT, que sempre é o chato do almoço, o seu tio da piada do pavê pode vir a falar a mesma frase. O efeito que isso pode surtir nos outros parentes é totalmente diferente do que vai surtir em você, o LGBT. A palavra ‘opção’, usada de forma errada, não estará em evidência na cabeça e nos ouvidos do resto da família que sempre propagou discursos homofóbicos e que ‘não tem nada contra, tem até amigos que são’. O que vai ficar em evidência no ar, para elas, é o pedido de respeito para com LGBTs feito por outro parente, que não é você, o LGBT, o diferente, o que não é igual a eles. O choque, consciente ou não, é o de um cisgênero e heterossexual, membro da família, pedindo por respeito a pessoas como você. Se isso irá mudar a cabeça dos seus parentes imediatamente, é outra história. O relevante é que: a última coisa que passará na mente do restante da família sentada à mesa é o questionamento se o parente usou errado ou corretamente a palavra ‘opção’.

Esse exemplo pode ser levado para muitos outros: imagine um grupo branco e racista, contendo somente uma pessoa branca defendendo o direito e a resistência negra. Em que cenário podemos imaginar um monte de racistas ouvindo uma pessoa negra apontar seus racismos, ou expor suas ideias opressoras? Quero dizer, se um branco que tem ideias contribuintes para o movimento negro, puder falar, num espaço branco e racista, por que não?

Outra cenário: Um grupo multirracial, com negros reproduzindo ideias de senso-comum como ‘cotas são racistas’ ou ‘existe racismo reverso’ (ocorre. Os motivos: falta de acesso a informação e, assim, ao empoderamento). Se um branco, nessa situação, pode elucidar e trazer ideias diferentes para essas pessoas negras, por que não o fazer? Afinal, uma das coisas que o movimento negro busca é democratizar o acesso a informação que é, de fato, dividido injustamente por motivos étnico-econômicos, certo? Sendo assim, a probabilidade de um branco que possui empatia pelo movimento negro estar trazendo ideias que contribuam para esse ativismo negro, numa roda de pessoas comuns (comuns aqui se refere a ambientes familiares, acadêmicos e profissionais, que são, na grande e triste maioria das vezes, racistas), não é maior? Se ele usa esse privilégio de forma contribuinte, é ele o real inimigo que não sabe respeitar o lugar de fala do negro? Ou o inimigo é aquele que fica calado perante à opressão?

Exemplos nunca são demais: mais uma vez, num grupo composto por homens e mulheres, há um homem que discorda de uma mulher que diz que ‘mulher que anda com saia curta pediu para ser estuprada’. Sabemos que essa mulher está reproduzindo um machismo que lhe foi socializado. Mas há quem diga que, se um homem discorda dela nessa situação e lhe diga ‘não, ela não está pedindo para ser estuprada, ela tem o direito de andar como quiser, sem ser violentada por isso’, ele estará silenciando uma mulher e, portanto, sendo machista.

Particularmente, não vejo lógica alguma nisso. Lógica no sentido de progresso, produção. E aqui no texto, para deixar claro, não estou defendendo ideias como ‘homens podem ser feministas’, ‘brancos sentem a opressão do negro’, ‘cisgêneros e héteros entendem lgbtfobia’. Longe de mim. Mas mais uma vez, a militância precisa recorrer aos famosos ‘recortes’. Sei que as situações descritas podem soar raras, mas elas acontecem a todo momento. Talvez enquanto escrevo esse texto, pode haver um branco com medo de repreender as ideias medievais reproduzidas por um negro, com medo de soar racista. Um homem querendo defender os direitos das mulheres, mas com medo de ser chamado ironicamente de ‘feministo’. Um hétero inquieto com a homofobia social, mas com medo de receber um ‘cala a boca, hétero’.

E aí a militância é estacionada. Nessas situações, o indivíduo que entende, mesmo fazendo parte do grupo opressor, fica calado. O indivíduo que não entende, mesmo fazendo parte do grupo oprimido, continua destilando suas ideias opressoras. Tudo em nome do lugar de fala. Até opressão pode passar, em nome do lugar de fala.

E qual a solução para pessoas que fazem parte do grupo oprimido que reproduzem ideias opressoras? Eles não fazem mais parte desse grupo? Eles são o quê? Isso tudo é culpa de um invisível pedestal que muitos ativistas acreditam estarem em cima.

O narcisismo militante é algo que a militância precisa, urgentemente, desconstruir. Isso tem muito a ver com ego. Muito a ver com uma falsa impressão de status com o número de likes em seus posts. Isso gera uma sensação de poder sobre a opressão. Como se se eu não falasse da minha opressão, eu não teria esse tanto de like, reconhecimento, lugar para falar! É quase como se tivéssemos orgulho da opressão que sentimos. Isso é identificável quando dizem ‘Não fale da MINHA opressão’. É inacreditável o peso na palavra ‘minha’. A paixão. É quase como se a opressão fosse um diamante, um filho, um irmão, do qual só eu posso falar mal e apontar dedos.

A solução, então, é nos desapegarmos da nossa querida e valiosa opressão. Deixar os outros cuidarem dela quando estamos longe, sabe? Talvez isso seja a grande e assombrosa genialidade do capitalismo, ou da mídia. Chegou a um ponto que não consigo mais discernir qual dos dois é o real culpado. Juntos, eles nos programaram para tornar privada até mesmo a opressão que sentimos.