Sendo mulher no mundo dos negócios

Joy: um dos nomes da injustiça com o feminino


Depois de dois filmes de enorme sucesso com a mesma colaboração: Jennifer Lawrence e Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida e Trapaça), David O. Russell dirige a terceira colaboração do casal, dessa vez na sua obra mais elaborada até agora: Joy — O Nome do Sucesso. E essa elaboração, junto com mais uma parceria de um casal que exala química (embora esteja ficando saturado, devemos admitir), vale muito a pena dessa vez e consegue, surpreendentemente, se renovar e ter a frescura que se mostrou ausente em Trapaça. Russell nos apresenta uma biografia que, sem dúvida alguma, merece ser apreciada e mostra-se singular a muitas outras. A direção exótica e original, juntamente com a atuação sempre muito boa de Lawrence resultam, simplesmente, na melhor colaboração de atriz e diretor até hoje.

Há muito acontecendo em “Joy”: o longa nos apresenta uma mulher com personalidade forte e que desde pequena sempre foi muito inventiva. A menina apresenta sonhos que, para a família em que se encontra (classe baixa, formada por outros cinco membros morando em uma única casa), são praticamente impossíveis. O tempo passa, Joy decide adiar sua faculdade para cuidar da mãe neurótica que está enfrentando um divórcio com seu pai, acaba tendo um encosto ao invés de uma separação: seu ex-marido iludido quer ser um cantor, deixando-a com dois filhos para criar e ainda morando no porão de sua casa, um pai com problemas de temperamento, uma irmã com a qual enfrenta um relacionamento tóxico e uma avó, talvez a única completamente sã da família, que alimenta seus sonhos desde pequena, e é a responsável pela narração de sua biografia.

David O.Russell apresenta um filme que tem bases feministas para acontecer: uma dona de casa, que faz “somente” todo o trabalho: desde separar brigas entre genro e sogro, até consertar o encanamento do quarto da mãe. Desde cuidar de seus filhos, até pagar as contas da casa. O filme mostra a força poderosa que uma mulher pode ter diante de uma sociedade que cisma em dizer-lhe “sonhe, mas não alto demais” e ainda, posteriormente, escancara a dificuldade que ela tem na voz midiática: todos os poucos personagens ricos e bem sucedidos mostrados em “Joy” são homens, e é uma realidade que, infelizmente, mesmo que o filme seja de época, está presente nos dias contemporâneos.

É em determinada situação onde Joy precisa vender o seu produto (o miraculoso esfregão que revoluciona a forma que donas de casa podem lavar sua residência, lançando, assim, a jovem Joy no mercado de vendedoras mais poderosas do mundo) na televisão e a preenchem de roupas coladas, colares exuberantes e um cabelo ridiculamente montado, como se mulheres precisassem dessa produção para serem notadas e valorizadas como reais e sérias comerciantes, e Joy, autêntica, remove toda essa distração e coloca uma calça e uma simples camisa branca para entrar em rede nacional e fazer o marketing de seu produto, como uma mulher real, uma mulher comum, é que vemos o quão intencionalmente não-moralista/machista “Joy” se mostra. E devido as declarações recentes da atriz protagonista, Jennifer Lawrence, sobre a ideologia feminista, ao qual ela é a favor, não há surpresas ou questionamentos sobre o por que aceitar o papel.

O. Russell acerta não só como diretor mas ao mostrar uma história que desafia os novos e já ultrapassados temas de Hollywood, que cismam em nos dizer implicitamente que a sétima arte cabe somente aos homens.
“Joy — O Nome do Sucesso” promete agradar, não só como um ótimo filme mas como uma plataforma de uma mensagem que precisa ser dita e reverberada não só no cinema mas em todas as outras seis artes.