Você não é a Hannah Baker

As pessoas não funcionam como em ‘13 Reasons Why’


Vários autores que produziram e produzem materiais acadêmicos sobre Desenvolvimento Humano já esclareceram há tanto tempo que adolescentes, geralmente, tem grande necessidade de se expressar, encontrar seu lugar no mundo, serem notados como um todo, que esse tipo de conhecimento já se enraizou no âmbito do senso comum. James Marcia, teórico desenvolvimentista, já dizia há tempos que a adolescência funciona como um eterno transitar entre duas polaridades: o comprometimento e a crise. Aliás, acho que é de consenso geral que ‘adolescência’ e ‘crise’ são quase sinônimos.

A adolescência é quase sempre o período de uma crise que parece ser eterna, e estar sempre piorando. Não é a toa que as referências midiáticas a adolescentes são sempre pessoas que parecem estar sem rumo, completamente perdidas em suas eternas transições em busca de uma identidade, seu lugar no mundo, seu verdadeiro eu. Infelizmente, nem sempre essa atenção tão buscada por adolescentes, essa sede de reconhecimento, espaço, essa necessidade de gritar “Estou aqui!” é correspondida pelo seu meio. E muitos convencem-se de que não tem lugar algum no mundo. A série ‘13 Reasons Why’, nova aposta da Netflix, retrata o mundo cruel da adolescência com uma visão muito intimista e densa, quase louvável, de como é ser adolescente. O grande problema é que essa visão tão íntima pode ser perigosa dependendo do ângulo.

Na série, uma jovem chamada Hannah Baker comete suicídio. Antes do ato, a mesma grava áudios em fitas onde explica os 13 motivos principais pelo qual cometeu tal ato, e distribui as fitas para cada pessoa que cometeu esses motivos. Essas pessoas escutam as fitas, aprendem e sofrem na pele as consequências de suas ações. Passam a viver com esse remorso. A série gira em torno do suicídio de uma adolescente que cometeu tal atrocidade consigo mesma por causa da crueldade quase torturante a que era submetida.

Hannah Baker não aguentou a adolescência.
Hannah Baker se matou.
As pessoas envolvidas e que levaram Hannah ao extremo passam a viver única e exclusivamente em função de Hannah e sua morte precoce.
Hannah Baker consegue o reconhecimento que tanto queria, ela é notada.
A série cria esse cenário que parece real e identificável para qualquer adolescente.

O grande problema é que: você não é a Hannah Baker. É comum, na adolescência, achar que sumir fará com que as pessoas vivam remoendo seus atos ou comecem a pensar sobre o que fizeram para que alguém sumisse, desaparecesse, ou, ao extremo, cometesse suicídio. As pessoas não pararão suas vidas. As pessoas não falarão sobre você 24h por dia. Não haverá pessoas querendo fazer justiça por você. As pessoas não são como em ‘13 Reasons Why’.

Sua vida não é ‘13 Reasons Why’. Infelizmente ou felizmente? 
Não sei dizer. Tampouco é o ponto desse texto.

O que tenho a dizer, como futuro psicólogo, é que você não está sozinho. Nunca esteve, provavelmente nunca estará. A adolescência, lembre-se, é um período de crises pois sem crises não há resoluções. Sem crises não há crescimento, amadurecimento. E você encontrará essas resoluções. Suicídio não é uma delas.

Chegará um dia em que você olhará no espelho e se verá sem espinhas, decidido entre socialismo ou capitalismo, vai dar risada de como se preocupava tanto com sua aparência, com o quanto sofreu por aquele garoto ou garota que não correspondeu seus sentimentos, vai dar risada das coisas que postava na internet com tanta convicção, se achará ridículo pelas loucuras que fez por seus ídolos, se arrependerá de certas atitudes imaturas, e se perguntará onde estava com a cabeça.

A adolescência é uma dor que parece eterna. Mas ela passa.

No pain, no gain.
Não é isso que dizem?