Onde esqueceste o querer, Arnaldo?

Arnaldo era um sucesso de garoto. Realmente, pouco tinha que se queixar de tal menino. O máximo que aprontava era alguma birra para não tomar banho em algum dia, ou um copo de uma coisa qualquer esparramado no chão por descuido. Na escola, levava tudo com o pé nas costas, era o “primeiro da turma”. Invejava aqueles amigos que ganhavam presentes quando no boletim alcançavam um 100. Ensaiou alguns pedidos de igualdade de gratificações aos pais: indeferido. Na verdade, os incentivos eram desnecessários, as notas embelezavam-se no boletim espontaneamente. Há de se perguntar: tinha amigos? Sim, sim, alguns. E assim parecia crescer tranquilamente.

Crescia, e como a escola não o consumia em esforços, dedicou-se a fundamentar as bases de sua própria independência. Paulatinamente reivindicou voltar sozinho para casa, andar de ônibus, receber mesada, sair sem avisar, beber, ter um celular, abrir conta em banco, amar, morar sozinho… E como negá-lo qualquer uma dessas coisas? Atendia suas obrigações diligentemente e se mantinha com as melhores notas da escola em todos os anos consecutivos. O futuro garantido de aluno tão brilhante abria portas à maturidade, e pela porta aberta Arnaldo foi entrando.

Chegou ao ano de vestibular tonto. Não precisava se preocupar com isso. Inscreveu-se em tudo que mais díspar podia achar. Valeu-se da promessa de futuro garantido nas mãos e se inscreveu nos cursos vários quaisquer. Passou para todos. Perguntou a alguém o que deveria fazer, acatou a sugestão, inscreveu-se e cursou sem pensar. Nos últimos semestres, percebeu que suas notas não eram mais tão incríveis, que tinha pessoas melhores à volta. Decidiu ignorar tudo isso. Afinal, sempre fora o garoto promissor e seu futuro já estava garantido.

No amor também dedicou os esforços sobejados. Gorado. Deu de ombros e decidiu não mais se esforçar. Funcionou tão bem como no resto. Acabou entrando no amor rolando. Foi cortejado, convencido, e quase que espontaneamente namorado. Dedicou-se displicente ao lugar que lhe era de direito, de ser amado. Cresceu também bonito e elogiado. Há de se dizer que amou de verdade, bastante mesmo. Mas tudo considerava um direito de dois costados.

Formou-se. E então, o que há de se fazer agora com estas credenciais? Olhou para um lado, olhou para outro: já estava completamente imerso na vida adulta. Léguas e léguas de responsabilidades de cá, milhas e outras de competências e habilidades pra lá. Olhou para cima, o passado farto lhe garantia mais do que o próprio céu, tirando o último ano talvez. Olhou para baixo. Olhou para baixo. Olhou para o pé, olhou para o peito, olhou para baixo.

Perplexo, Arnaldo constatou que, na euforia de crescer rápido, enveredando pela porta aberta da independência num mergulho desajeitado no mar de todos nós, não tinha mãos. Nada, sem dedos, sem metacarpo, nenhuma falange, tendões, retináculos sinoviais. Desesperado, olhou pra frente. Debateu-se. Acertou um braço no seu amor, sem querer, que olhou-lhe de volta com asco, inválido. Olhou pra trás, olhou num alvo. Inapto. Olhou pros lados, olhou pra frente, debateu-se. Chorou um pouco, olhou pra baixo.

E, assim, largou-se sob o peso da inaptidão. Sem vontade, inapto. Os cotocos tentaram resvalar em apoiar a cabeça, em limpar um lástimo. Inapto. O tempo passou.

O tempo passou, Arnaldo.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Yuri Kaz Kestenberg’s story.