A jornada inútil para a felicidade genuína

Tamarindo, Costa Rica. Algum dia do mês de março de 2017.

Lá estava ele. Sujeito magro, cabelos loiros e bem mais compridos do que o da maioria dos homens, com olhos azuis como o mar do pacífico. Parado, sentado na mesa observando curiosa e intensamente a porção de legumes com arroz que lhe puseram no prato. Eu estava na fila esperando a minha própria refeição e alguma coisa naquela cena me fez prestar muita atenção no que ele estava fazendo. O ato de olhar a comida claramente lhe trazia muita felicidade, ele observava o que tinha no prato como se olhasse para um pote de ouro que acabara de encontrar, e por alguma razão eu podia ver a alegria e a gratidão genuína nos seus olhos. Ele comia com as próprias mãos, e as usava quase como se fossem as ferramentas de um arqueólogo que encontra um tesouro milenar, com cada mordida sendo uma nova descoberta. Assim que me entregaram meu prato, provei a comida. Simplesmente não existia nenhuma razão particular para que tanto proveito fosse tirado daquela refeição — pelo contrário, não acho que o cozinheiro estivesse muito inspirado naquele dia. Curioso e sem entender o porque de tanta alegria, resolvi sentar do lado do estranho para conversar.

O “estranho” admirador de comida aproveitando o seu tempo na companhia de um tomate.

“Bom dia, parceiro! Como vão as coisas?” — perguntei tentando parecer o mais natural possível, embora estivesse profundamente curioso para entender se ele era maluco ou não.

“Comigo está sempre tudo bem, assim como com você também está. Estou aproveitando um pouco da melodia celestial que nos rodeia agora e ela está in-cri-veeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeel! Uhuuuuuuuuuuuuuuuuu.” — me respondeu com um inglês muito ruim e um sotaque que parecia ser do leste Europeu.

Eu congelei. Fiquei alguns segundos sem saber o que dizer, pego de surpresa por uma resposta diferente do típico “Ei, como vai?”, “Muito bem obrigado”. Como o seu sotaque me chamou a atenção, resolvi mudar de assunto:

“Meu nome é Yuri e sou brasileiro. De onde você é?” — uma pergunta que me pareceu bem direta e difícil de contornar.

“Eu sou da ‘Mãe’, assim como você.” — respondeu.

Eu ri por um momento, mas quando percebi que ele falava sério tentei disfarçar e retomar o fluxo da conversa:

“Não conheço esse lugar.”

“Sinto muito por ouvir isso. Realmente é uma pena.”

“Onde exatamente fica isso?”

“Aqui e agora, meu amigo. Iahuuuuuuuuuuuuuuu” — Foi aqui que comecei a perceber que ele soltava algum tipo de onomatopéia no final de metade das suas frases, como se comemorasse alguma coisa.

“Hummm… Ok, que legal!” — foi a única coisa que me ocorreu dizer já desistindo daquela conversa maluca. Como não conseguia estabelecer um diálogo normal com aquele ser estranho, resolvi terminar o meu prato rápido para ver se conseguia entrar na fila de novo e pegar mais comida antes que acabasse.

Já depois de comer, lavando os pratos, perguntei a um amigo Venezuelano que também estava no camping se ele sabia alguma coisa sobre o admirador de comida ou se já tinha falado com ele alguma vez.

“Então você também teve uma conversa interessante com ele, não é mesmo?” — começou a rir como se lembrasse de uma antiga piada — “Sabe, ele pode parecer bobo ou maluco a uma primeira vista, mas na realidade ele é um cara muito sábio. Você só tem que fazer as perguntas certas. O seu nome é Artem, ele é ucraniano, dá aulas de yoga aqui no camping e eu nunca o vi sem um sorriso no rosto. É isso que eu sei.”

Fui pego de surpresa por essa resposta. Eu esperava que esse meu amigo confirmasse a minha suspeita de loucura, não que a resignificasse. Como poderia aquele papo de maluco ser, na verdade, sabedoria? No início fui cético, devo admitir.

Com essa nova opinião em mãos, comecei a tentar extrair lições de cada uma das frases que escutava do ucraniano. Passei a olhar com novos olhos, na esperança de entender a real mensagem por traz das suas palavras. O que descobri fazendo isso me impressionou: Artem foi a primeira pessoa que conheci em toda a minha vida que vive de verdade os valores que prega, o tempo todo, sem descansar nem por um minuto. As conversas com ele podem parecer estranhas porque ele conseguiu quebrar a “normose” em que todos nós vivemos. Nós naturalmente entenderíamos o que ele diz como maluquice porque ele responde a todas as perguntas de forma literal, de acordo com as crenças que são a fonte da sua sabedoria. E o que compartilho com você nesse texto é a resposta para a pergunta que não saía da minha cabeça desde que entrei naquela fila:

Porque ele aproveita tanto as refeições que faz?

Artem maravilhado com o universo que o cerca na caçamba do carro.

Ele aproveita TUDO o que faz. A questão não é o fato de ser uma refeição ou um filme ou qualquer outra coisa, mas sim o fato de apreciar o que está na sua frente, aqui e agora. Sendo assim, ele trata de tirar o máximo de felicidade possível de cada segundo que vive, do que quer que esteja vivendo, e isso inclui ter um orgasmo a cada mordida de sua refeição.

Artem entende que a única coisa que de fato é real é o momento presente. O passado e o futuro são ilusões, não existem de verdade. A noção que temos de tempo é o que alguns orientais chamam de “tempo psicológico”, que é basicamente a nossa memória do que um dia foi real combinado com a nossa expectativa do que pode vir a ser. Nada nunca aconteceu e nem vai acontecer se não no momento presente. O que acontece conosco nesse exato momento, aqui e agora, é tão importante porque é a única coisa que verdadeiramente existe (recomendo muito o livro “O poder do Agora” para qualquer um que se interesse por esses conceitos).

Ainda assim, é normal que as pessoas se definam pelo que aconteceu e condicionem a sua felicidade ao que está por acontecer, dando muito pouca atenção ao que simplesmente é. Artem decidiu se desprender dessas ilusões, e o tempo para ele realmente não existe. Certa vez ouvi alguém perguntar-lhe “O que você vai fazer amanhã?” e a sua resposta foi simplesmente “Não existe amanhã. Agora eu vou dançar”. Eu mesmo recebi uma dessas respostas quando tentei lhe perguntar qual seria o seu próximo destino na sua viajem, e o que ouvi foi “Que pergunta estranha. Eu não sei o que pode acontecer, sei que estou aqui e agora e esse lugar é IN-CRI-VEEEEEEL Iahuuuuuuuuuuu”.

Aí você poderia estar pensando que esse é um sujeito chato que tenta forçar algum tipo de lição a todos que lhe dirigem a palavra, e eu sentiria muito em informar que você estaria redondamente enganado. Artem não dá as respostas que você espera porque as suas crenças são diferentes das dele. O que estou tentando dizer é que ele acredita de verdade e literalmente em todas as palavras que saem da sua boca, e pra ele não existe outra resposta possível. Pare um momento para pensar sobre isso. Conheço muitas pessoas que leram ‘O poder do Agora’ e dizem acreditar nas suas lições, embora tenha conhecido uma só que vive os seus ensinamentos 24 horas por dia, 7 dias na semana em todas as semanas do ano. Nenhuma das frases de Artem é forçada ou pensada para produzir qualquer efeito em que as escuta. Elas simplesmente são reflexo do que ele escolheu viver, assim como as nossas respostas também são reflexo do mundo que escolhemos viver.

Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, descreveu o caminho para a felicidade como sendo inútil. A primeira vez que escutei isso confesso que a frase me causou um certo desconforto. Afinal de contas, a sociedade nos ensina que nada que é inútil pode ser bom. As coisas precisam ser úteis para que consigamos cada vez mais coisas. O jardim de infância é útil para entrar no colégio, o colégio é útil para a faculdade, a faculdade útil para um bom emprego, o emprego é útil para ganhar dinheiro e assim por diante. Kant chama a atenção para o fato de que as coisas úteis tem o seu valor fora de si mesmas. Um telefone por exemplo, é útil porque nos permite falar com pessoas a longas distâncias, portanto tem o seu valor na comunicação, e não no telefone em si. Quem daria valor a um telefone que não funciona, a um telefone inútil?

As coisas inúteis, por sua vez, tem o seu valor dentro delas próprias. Escutar uma boa música, por exemplo, é uma coisa que basta por si mesma. Você não escuta música para conseguir alguma coisa. Escuta porque ela lhe traz alegria, ponto final. Aí você poderia dizer: “Mas todas as coisas podem ser úteis de alguma forma, e que o valor que damos a elas é diferente para cada pessoa”, e eu lhe diria que você está absolutamente correto. A diferença está em descobrir a inutilidade de todas as coisas, — mesmo das úteis — no sentido de encontrar valor dentro delas próprias. Não vá escalar só para chegar no topo da montanha, escale para aproveitar a subida e a vista no caminho. Não vá nadar só pra chegar do outro lado do rio, nade pra sentir a água na pele e a correnteza no corpo. Não coma só para ter energia, como para admirar a beleza do seu prato e degustar cada mordida como se fosse a última.

Essa foi a grande lição do meu contato breve com Arthem. Ele conseguiu desvendar a inutilidade de todas as coisas que faz. É inútil soltar uma onomatopéia no final de cada frase que proferimos. Inútil, sim, mas também pode ser muito divertido. Ele escolheu se divertir com tudo que o cerca, admirando a tudo e a todos como uma criança que descobre o mundo que está a sua volta. Sinto-me muito grato por ter conhecido uma pessoa tão inspiradora que verdadeiramente vive aquilo que prega e acredita. Não se fazem mais dessas nesses dias.

Artem vivendo o máximo do seu aqui e agora.