Humanizar a vida para não coisificar coisa alguma

Um padeiro belga, um hippie cabeludo, um ex-viajante nostálgico, um hipista britânico, dois melhores amigos, um executivo apressado, um vendedor de frutas e duas recreadoras infantis. Cada um com a sua história. Cada um com as próprias dores e também com as próprias alegrias. Cada um com um sonho diferente. Cada um com traumas diferentes. Cada um com olhos, pele e cabelo diferentes. Cada um vivendo o seu próprio mundo dentro do próprio carro. Alguns com a janela aberta, outros com o ar condicionado ligado. Todos com uma coisa em comum: Abriram as suas portas para carregarem um viajante de uma cidade para a outra. Eu só não esperava que 18 horas, 680km, 8 caronas, duas pizzas e quatro pêssegos depois eu teria aprendido tanto sobre como encarar a vida.

Treinando a cara de quem não é perigoso e nem quer matar ninguém

O sul da Itália não é exatamente o melhor lugar para se viajar de carona. A cultura é super tradicional e quase nada habituada a ver mochileiros com cartazes na beira da estrada. A reação disparadamente mais comum que recebia dos motoristas era o típico sinal italiano que eu chamo de “coxinha invertida”, quando se juntam as pontas dos dedos de uma das mãos apontando pra cima e se balança o ante-braço em um gesto intenso que é a versão não verbal da expressão “Che Cazzo Fai?!”, ou no bom e velho português: “Que porra é essa?!”. Ignorei as desaprovações e continuei sorrindo com cara de quem não é perigoso e nem quer matar ninguém. Deixei a cidade de Torre Vado, no extremo sul da Itália (no calcanhar da bota), para chegar na cidade de Trieste, extremo norte e fronteira com a Eslovênia, aproveitando todo tipo de contraste cultural disponível no caminho.

A impressão que eu tinha a cada nova carona era a de que entrava em um universo diferente. Passei por carros de luxo (onde ganhei as pizzas) e também por carroças de frutas (onde ganhei os pêssegos). A alternância de experiências me fez perceber uma daquelas coisas que são óbvias mas que a gente nunca se dá conta:

Existe uma história dentro de cada carro.

O que você vê quando olha para o trânsito? O que você vê quando olha para a fila do supermercado? O que você vê quando olha para as pessoas que passam por você na rua? Talvez não veja muito além de carros, tempo de espera e corpos dos quais desviar. Talvez nem sequer pense muito nisso, já que essas situações são tão comuns. Talvez você não se importe. De qualquer maneira, estou aqui para dizer que importar-se com tais questões pode fazer da sua vida um passeio muito mais interessante e divertido.

Considere o seguinte: Cada um dos carros passando todos os dias por aquelas estradas têm no seu interior gente de carne e osso como eu e você, com histórias que se mesclam momentaneamente por um mesmo asfalto. Estudantes e professores, policiais e criminosos, judeus e mulçumanos, pais e filhos, ativistas e políticos, ricos e pobres, céticos e sonhadores, executivos e comunistas, ricos e pobres, todos unidos por uma mesma rua. Que gostam de músicas diferentes, torcem para times diferentes, falam línguas diferentes, tomam escolhas diferentes e vivem em realidades completamente diversas umas das outras. Pular de um carro para o outro é quase como ser protagonista de um novo filme a cada cidade.

A carona preferida do dia, com vista panorâmica e ventilação natural

O que recebi naquele dia não foi uma lição sobre como encarar o trânsito. Foi uma lição sobre como encarar a vida. Pense comigo. Cada pessoa ao seu redor tem uma história diferente para contar. O motorista do carro da frente, a pessoa atrás de você na fila ou o sujeito que vem caminhando do outro lado da rua. Cada uma delas viveu coisas que você não viveu, portanto sobre as quais você pode aprender. Com certeza elas têm distórias para contar que você adoraria ouvir e perguntas a fazer que você adoraria responder. Imagine todos os momentos, alegrias,mágoas, ideias, aspirações, experiências e sonhos que fazem de cada ser humano único e, portanto, extraordinário. Pessoas vêem o trânsito todos os dias. O que a maioria de nós não vê são as histórias que estão dirigindo os carros.

A vida da “correria” nos cega. Nos faz coisificar as pessoas. Nos faz esquecer que o padeiro é Flamenguista, que o taxista é pai de 5 filhos, que o morador de rua era pianista, que a senhorinha do parque adora flores, que o carteiro se separou da mulher e que o vizinho faz um ótimo churrasco. Nos faz ouvir mas quase nunca escutar de verdade. Nos faz desviar o olhar das pessoas com quem falamos. Nos faz cair em lugares comuns que se extendem do “Bom dia, tudo bem?” até o “Tchau, até a próxima”. Nos faz deixar de perceber as coisas que são simples mas que são as que realmente importam para quem está na nossa frente. A vida da correria nos faz fechar os olhos pra não ver as pessoas além das pessoas.

Não se preocupe, não estou sugerindo que você saia pela rua fazendo perguntas profundas a todas as pessoas que encontrar pelo caminho. Sugiro que você se esforce para enxergar o ser humano por trás de cada elemento do seu dia a dia. Sugiro que você humanize a sua rotina. Isso não requer nenhum tipo de mudança drástica de comportamento, é simplesmente um novo jeito de ver o que já está a nossa volta todos os dias.

Mas porque fazer isso?

Depois de bons momentos filosóficos, compartilho aqui as três principais lições que me parecem consequências simples de uma vida mais humanizada:

1 — A empatia é o antídoto de todo julgamento.

Tome consciência de que o carro que você xingou por ter cruzado a sua frente pode estar sendo conduzido por uma mãe desesperada indo ao hospital por um filho que se acidentou. O atendente que foi impaciente com você pode ter perdido um ente querido recentemente. O ladrão que roubou a sua casa pode ter crescido em circunstâncias amargas que o conduziram ao crime. Muito provavelmente você faria o mesmo se tivesse nascido na mesma situação e vivenciado as mesmas coisas. Colocar-se no lugar dos outros nos faz abandonar o julgamento.

2 — Os professores da escola da vida estão à nossa volta todos os dias.

Não há melhor maneira de aprender do que encarar a todos os que cruzam o seu caminho como professores e a cada nova situação como uma escola. Extrair o máximo do aprendizado com cada ser humano que nos cerca só é possível se enxergarmos as pessoas por trás das pessoas.

3 — No final do dia, todo mundo é gente como a gente.

Pense no seu maior inimigo. Saiba que, por mais que você deteste essa pessoa, no final das contas vocês meio que são primos. Compartilham o mesmo planeta, talvez até a mesma cidade. É bastante provável que vocês compartilhem alguma origem distante em suas árvores genealógicas e tenham problemas semelhantes. No final do dia todo mundo faz parte de uma mesma existência. Se realmente queremos criar um mundo melhor o primeiro passo é deixar de lado tudo aquilo que nos faz esquecer que somos todos tripulantes de um mesmo barco.

Precisamos de mais gente no time dos humanizadores.