O que você quer viver na vida?

Terno e gravata pra todo lado. Sapatos caros e crachás com títulos importantes que vêm antes dos próprios nomes. Conversas que não saem do quadrado (O que você estuda) + (Em que empresa trabalha) + (O que pretende para o futuro) + (O que está achando do evento). No primeiro dia, ainda no hotel, cheguei de chinelo, short de corrida, regata e mochilão. Nada mais justo, já que faziam uns 38 graus na charmosa cidade de Milão. É claro que, em respeito ao evento, durante as cerimônias eu também colocava um terno. Gravata não, essa eu não aguentei. De qualquer forma, foi interessante ver a reação do povo engravatado. Pra mim me pareceu uma mistura de desaprovação e inveja (imagina estar dentro de um terno com 38 graus de baixo do sol e ver um caboclo de havaianas do seu lado).
O evento era jovem, mas parecia muito velho. Os participantes tinham por volta de 22 anos, mas as formalidades e cerimônias eram dignas de sextagenários. O que me incomodou não foram as roupas, mas o que elas significavam. Centenas de pessoas que foram ensinadas a levar a vida a sério. Centenas de pessoas claramente convencidas de que eram aquilo que estava escrito no seu crachá. Centenas de pessoas que mostravam muita satisfação em serem chamadas de presidentes e diretores. Entre workshops, aperitivos, conversas e jantares de gala, cheguei a uma das constatações mais assustadoras da minha vida:
Essa galera foi coisificada.
E isso me levou a uma segunda constatação que me assustou ainda mais:
Eu sou parte dessa galera.
Em um dos dias fui selecionado para participar de uma programação restrita de uma empresa gigante do ramo de consultoria financeira que preparou literalmente um processo seletivo. Na entrada da sala, passei um bom tempo conversando com um rapaz Alemão que me confessou as grandes aspirações da vida: Ser contratado pela tal empresa de Consultoria como analista financeiro e chegar aos 30 anos ganhando 30 mil euros por mês. A minha reação foi bastante imediata: “Sério?? E pra quê essa porra toda?”. Depois da pergunta, o Alemão congelou por um instante, e em uma fração de segundo olhando nos seus olhos eu pude ter a certeza de que ele não fazia a menor ideia. Ele claramente não esperava ser questionado, o seu plano parecia tão perfeito!
Afinal de contas, a vida inteira nos disseram que a escola serve para o colégio, que o colégio serve pra universidade, que a universidade serve para o bom emprego, que o bom emprego serve para comprar uma casa, um carro, ter uma família e… E o que?
A gente acaba sendo condicionado a buscar incessantemente o tão sonhado “Bom Emprego”. E escrevo com B e E maiúsculo de propósito porque é exatamente assim que a maioria enxerga isso, como se fosse uma grande coisa. Vou chamar de “Bom Emprego” esse tipo de profissão vazia. Faço questão em pontuar a diferença porque acredito realmente que pode haver uma conciliação entre sucesso profissional e realização pessoal, que é onde a paixão encontra o talento para oferecer o que o mundo precisa, mas esses não são o que chamo de “Bons Empregos”. Os “Bons Empregos” são a idealização do que é o prestígio de um determinado campo social, que é medido pelo tamanho do salário, pelo poder e pelos títulos atribuídos à profissão.
É natural que as grandes empresas queiram inspirar as pessoas a trabalhar muito, porque é do interesse delas que você trabalhe o máximo que puder para ajuda-las a construir os próprios impérios. A minha humilde teoria é a de que o mundo seria um lugar melhor se mais pessoas usassem os seus talentos para criar os próprios sonhos. Eu adoraria ver mais gente a minha volta que vivem os seus sonhos e sonham a suas vidas.
Segundo uma pesquisa feita pela Isma Brasil (International Stress Management Association) em 2015, 72% dos brasileiros estão insatisfeitos com o próprio trabalho. Apesar de assustadora, essa estatística é um pouco mais confortante que a média mundial: Esmagadores 85% dos trabalhadores em tempo integral do mundo inteiro (que chegam perto dos 1,5 Bilhões) não gostam ou odeiam aquilo que fazem todos os dias, segundo estudo feito pela Gallup World Poll. O IBGE estima que mais de 50% dos brasileiros vão além das 44 horas semanais de trabalho previstas em lei. Isso sem considerar o tempo de deslocamento de casa para o trabalho, que segundo a Ipea tem uma média que varia de 45 minutos a duas horas dependendo da cidade estudada. Isso significa dizer que a maioria do nosso país (e do mundo) passa a maior parte do seu tempo fazendo algo que não gosta.
Aí você pode estar pensando: “Que triste essas pessoas que só estão atrás do Bom Emprego, ainda bem que eu não sou uma delas”. Será que você também entra na estatística?
Façamos um teste:
Pare o que está fazendo. Se tiver qualquer coisas nas mãos, deixe-as de lado. Sente-se do jeito que parecer melhor, coloque uma mão no rosto e outra no braço como alguém que pensa em alguma coisa profunda e gaste alguns bons segundos de honestidade respondendo para si mesmo:
1. Se você pudesse, em um passe de mágica, escolher a vida que quisesse… Você escolheria a que está vivendo agora?
2. O que você fez hoje pra viver a vida que quer viver?
3. Quando você estiver no leito da sua morte, que história quer poder contar?
A gente se bloqueia o tempo todo. “Eu não posso fazer isso porque preciso fazer aquilo”. “Não posso viajar porque tenho que terminar a faculdade”. Certa vez um grande amigo me disse que verdade é que a gente pode tudo e não precisa de nada. Tudo é sempre uma questão de escolha, as barreiras são sempre erguidas por nós mesmos. Não estou dizendo que o caminho é fácil, pelo contrário. Geralmente ele é muito escuro e cheio de obstáculos. Porém, a escolha de segui-lo ou não é sempre nossa. O grande problema é que a maioria de nós acaba seguindo o fluxo do que se espera de nós e do que nos é apresentado, sem sequer perceber que vivemos uma vida programada.

Se você quer ser feliz de verdade, precisa escolher. Precisa escolher a felicidade. Isso parece bobo e óbvio, mas não é. Por mais difícil que seja o caminho, quanto mais adversidades tiver que enfrentar ou por pior que seja a sua condição social, conciliar paixão e dinheiro é sempre possível. Livros como “Oportunidades disfarçadas” de Carlos Domingos ou “The obstacle is the way” de Ryan Holiday estão repletos de histórias de pessoas que usaram as dificuldades como escada para o próprio sucesso. Não venha me dizer que você não faz o que ama porque não dá. A maneira de conciliar dinheiro com paixão está por aí, você só precisa da coragem para sonhar e a ousadia para agir.
Não me entenda mal, não estou pedindo pra você largar o seu trabalho, viajar o mundo, começar a fazer yoga e virar vegetariano. O que eu peço do fundo do coração é que você reveja as escolhas que faz todos os dias. Não é sobre sair viajando mundo, é sobre fazer o que você quer fazer. Não existe nenhuma garantia que você vai estar vivo na semana que vem, então porque passar o que é potencialmente a sua última semana nesse planeta fazendo coisas que você não ama? Porque não dar um jeito de conciliar o que você ama fazer com um jeito de ganhar o dinheiro que você precisa?
Eu decidi não deixar o objetivo da minha vida ser conseguir um “Bom Emprego”. Até onde eu sei, pessoas com bons empregos acordam super cedo, estão sempre correndo atrás do relógio e trabalhando nos finais de semana. Viva sob as suas próprias expectativas e não segundo o que esperam de você. As pessoas dizem que não tem tempo pra viver sonhos. Na minha não tão humilde opinião, o que elas não tem é a coragem para escolher vivê-los.
Não me interessa saber o título que você tem. Não me interessa saber quanto dinheiro você ganha. Não me interessa saber onde você trabalha.
O que me interessa é saber se você tem sido fiel consigo mesmo.
