O velho e o lago

“Uma fruta precisa estar madura para que possa cair”, é o que sempre me dizia um grande mestre, sempre com um sorriso estonteante que mostrava uma arcada dentária já pela metade. Os seus cabelos grisalhos balançavam com o soprar do vento que vinha do lago, passando por entre as montanhas e as oliveiras. O sol do amanhecer parecia rejuvenecer a sua face que claramente já viu muito mais primaveras do que a maioria dos homens chega a ver. Os seus olhos, em contraste ao rosto envelhecido, pareciam muito jovens. Passeavam por toda a paisagem como se lessem as formas e cores daquilo que alcançavam. A impressão que tive quando o conheci era que tinha encontrado o Rafiki, o babuíno sábio do Rei Leão. Pra fazer a semelhança ainda mais marcante, naquele dia ele portava um cajado que tinha encontrado na trilha que levava até o lago.

O palco da minha conversa com o velho Rafiki

Eu já vinha lhe perguntando o segredo para conseguir meditar há algum tempo, e curiosamente ele nunca respondeu a minha pergunta de forma direta. Eu buscava chegar em algum tipo de iluminação onde tudo faz muito mais sentido e obter o “click” no qual eu entendo o propósito da minha vida, mas os minutos que eu dedicava à prática não pareciam estar adiantando. Nada de mais tinha acontecido até agora, e eu seguia buscando encontrar esse momento especial de paz e iluminação. Eu queria muito me tornar uma pessoa melhor, bem centrada e mais sábia, mas assim que os meus olhos se fechavam nada acontecia além de dor nas costas e uma eventual coceira que parecia migrar para diferentes partes do meu corpo sempre que eu coçava.

Eu tinha recém voltado de uma tentativa frustrada de meditação em uma pedra no alto do lago de Como, na Itália, um dos lugares mais lindos que já vi na minha vida. As condições eram perfeitas, o lago cristalino como vidro refletia as montanhas de forma cinematográfica, pra se dizer o mínimo. Os pássaros cantavam e eu podia sentir o sol me queimando devagar, mas a minha mente sempre encontrava algum problema. Hora era a pedra que estava desconfortável, hora era o sol quente demais, hora os pássaros cantando muito alto. Eu criei uma expectativa pra cada uma dessas coisas e elas nunca eram inteiramente correspondidas.

“Meditar é mais difícil do que parece”, foi a primeira coisa que disse ao mestre, que tinha me acompanhado no passeio porque queria muito comer uma tradicional pizza na volta para casa. A resposta dele veio acompanhada de um leve sorriso, como alguém que escuta uma piada que já conhece — “A fruta ainda está verde”.

- “E de novo com esse papo de amadurecer? Eu sei que tenho que mudar, mas como? Não adianta muito se toda vez que te mostro um problema você me diz que ainda não estou pronto. Sei disso, mas e aí? Me diz o que eu preciso fazer pra ficar pronto. Como posso meditar de verdade?” — Confesso que o meu ego se feriu ao escutar que ele me chamava de imaturo.

Ele parou por um instante, com uma expressão facial que não consegui entender se era de surpresa ou de dúvida. Ele coçou a cabeça algumas vezes, como se se esforçasse pra lembrar de uma velha história. Enquanto esperava, fiquei ansioso. Por um instante pensei que a minha indignação finalmente tivesse o convencido a me abrir o jogo e mostrar o segredo que eu pedia a tanto tempo. Para a minha tristeza, ao invés de uma resposta veio outra pergunta:

-“Por que você quer amadurecer?”, perguntou dando uma ênfase quase que mística ao seu questionamento.

A pergunta me pareceu irritantemente óbvia.

-“Você sabe porque. Quero ser melhor, quero me tornar sábio como o meu mestre um dia. Quero ter um melhor rendimento nas coisas que eu faço, estar mais presente e praticar o auto conhecimento.”

-“Tá aí o problema!” — Disse, estalando os dedos, claramente feliz como se tivesse chego em uma grande descoberta.

Esperei que ele me explicasse. Como que querer ser melhor poderia ser o problema? Depois de alguns segundos o encarando sério enquanto ele me mostrava aquele sorriso desdentado, perguntei com impaciência:

-“Qual o problema em querer ser melhor?”

-“Não seja idiota.”, respondeu subitamente, abandonando o sorriso e acertando o meu ombro com um tapa pra despertar a minha atenção. “O problema não é querer ser melhor. O problema é deixar-se mover por um interesse, por um desejo. Quer meditar por causa disso ou daquilo, e busca coisas que não estão aqui e que não são você. Lembre sempre disso: O desejo é desencontro. Você deseja o que não tem e quando tem não deseja mais. Meditar é ser, e para ser é preciso aceitar o que simplesmente é.”

-“Então quer dizer que eu não posso querer ser melhor através da meditação?” — Disse quase que em tom de sarcasmo esperando que ele fosse se irritar, mas ele acabou abrindo um grande sorriso ao dizer:

-“Pra que ‘querer ser’ se você pode simplesmente ‘ser’?”

A conversa deu lugar ao silêncio por alguns segundos. Antes que eu pudesse terminar de processar a frase, ele completou:

-“Quando uma fruta amadurece, ela não pensa em querer cair, não se esforça e nem traça nenhum tipo de plano para que possa se desprender da árvore. Se ela cair hoje, tudo bem. Se ela permanecer verde por mais um dia e cair amanhã, tudo bem também. Você já viu uma manga reclamando por estar verde a muito tempo? Ela simplesmente é o que é, até que não seja mais! Agora vamos comer a minha pizza que estou com fome”.

Juro que não entendi a mensagem de início. A minha vida inteira eu fui ensinado a querer ser alguém. Querer ser um profissional respeitado, querer ser campeão em algum esporte, querer ser mais inteligente, sábio ou mais maduro. E não me entenda mal, não há nada de errado nisso. A vontade de ultrapassar obstáculos e crescer é necessária e super importante para a dinâmica da vida. Porém, é importante entender que todas essas coisas ainda não são reais. Elas são uma projeção, uma vontade, um desejo. O ‘pulo do gato’ está em entender que o único jeito de se chegar aonde “ainda não é” é vivendo e aceitando o que “simplesmente é”. Em outras palavras, viver e aceitar-se como uma fruta verde faz parte do caminho para o amadurecimento.

Muita gente tenta todo dia ser alguém que ainda não é. Tenta chegar em um lugar que ainda não está ou viver em um momento que ainda não chegou. E enquanto todas essas coisas ainda não são, a gente deixa de ser o que é. O foco em querer mudar tira a atenção e a beleza da única coisa que é real: o que ainda não mudou. Aceitar o que ainda não mudou até que a realidade mude é o caminho mais autêntico de crescimento. Olhe para as tuas próprias imperfeições e problemáticas com carinho e compaixão, como um pai que olha com ternura para a infantilidade de seu filho. Aprenda a gostar das pedras que a vida joga em você e use-as para construir o próprio castelo. Não evite as suas sombras, é preciso estar dentro delas para que se possa iluminá-las.

Meditar não é fechar os olhos e sentar de perna cruzada. Meditar é ser a única coisa que você realmente é. Não há necessidade de ser nada além disso agora, então aproveite o prato que a vida te serviu. Meditar é ser por inteiro, o bom e o ruim. Meditar é mergulhar nas partes de você mesmo que você não gosta para poder entender o que está lá embaixo. Isso dá pra fazer o tempo todo, em tudo o que a gente vive. Muita gente passa a vida inteira de os olhos fechados pra não ver aquilo que não quer.

O que eu desejo para você é meditação de olhos bem abertos.