Sobre se bastar

Yuri Kuzniecow
Aug 23, 2017 · 5 min read

Hoje é meu aniversário. Estou completando lindas vinte e três voltas ao redor do sol e a celebração é altamente silenciosa. Vinte e três primaveras me conduziram até Zagreb, na Croácia, onde eu nunca tinha sequer pensado em pisar antes e onde eu não conhecia absolutamente ninguém. É estranho pensar nisso, por mais que seja óbvio: Sempre vai existir algum lugar no mundo onde absolutamente ninguém sabe quem você é. Todas as suas conquistas, todo o seu sucesso, todas as coisas que você passou tanto tempo construindo sobre a sua imagem não valem de nada pro agricultor chinês do outro lado do mundo. E, mais do que isso, uma vez que você está do outro lado do mundo, você percebe o quanto de energia desprendeu tentando moldar o que as pessoas acham de você. Tentando parecer legal, bem sucedido e admirável. Você percebe o quanto viveu segundo as expectativas dos outros para ser amado e aceito. Você percebe o quanto que tudo isso, no final do dia, não te serve de nada.

A primeira foto que tirei da paisagem da minha celebração

Eu passei o dia inteiro arrumando camas. Tenho trabalhado no maior hostel de Zagreb como animador/bartender/recepcionista/camareiro e hoje o meu turno era trocar roupa de cama o dia inteiro. Ninguém aqui sabia que hoje era meu aniversário e eu resolvi deixar assim. Decidi passar o dia inteiro me auto celebrando. Enquanto fazia as camas, coloquei a minha playlist preferida no Spotify e dancei e cantei o dia inteiro rodeado por fronhas, travesseiros e cobertores. Um dos funcionários que supostamente deveria me ajudar não apareceu, e o trabalho acabou sendo redobrado, mas a verdade é que eu não me importei nem um pouco. É estranho, mas eu meio que gostei, na verdade. Eu decidi fazer daquela experiência o melhor que ela poderia ser e assim foi. Depois do meu turno, peguei uma caixa de uvas murchas na estante de “comida compartilhada” do hostel e fui para a minha própria festa de aniversário com um só convidado: eu mesmo.

Sentei na grama de um dos parques mais bonitos da cidade e apreciei aquilo que estava a minha volta. Pensei sobre a vida, sobre o que tem acontecido nessa minha caminhada, sobre a direção que tenho trilhado e chorei lembrando das pessoas que escolhi deixar pra trás. Rezei, cantei, agradeci a mim mesmo, corri um pouco, dormi e até tirei algumas fotos pra lembrar do momento. Fiz o que eu gostaria de fazer, sem procurar corresponder às expectativas de ninguém. Eu era um completo estranho pra todo mundo, então achei que não tivesse problema colocar um pequeno chapéu de aniversariante que eu tinha encontrado no depósito do hostel. Cantei meu próprio parabéns. Sozinho, celebrando a mim mesmo em uma festa com um único convidado.

Durante toda a minha vida, eu sempre tive aniversários com muita gente, que vinham de diferentes círculos de amizade para me desejar parabéns e dizer o quanto eu era especial e querido e tudo aquilo sempre me fez sentir muito bem. O fato é que, como a maioria das pessoas, eu sempre gostei que os outros me dissessem o quão legal eu sou e me amassem, aceitassem e admirassem. E não me entenda mal, não há nada de errado com isso. O problema está em viver somente nessa superfície. Viver sempre esperando que alguém entre na sua vida e preencha o espaço vazio que você não tem coragem de preencher. Viver precisando dos elogios para se sentir bem e da opinião dos outros para se sentir bem sucedido. Viver precisando que os outros vejam na história do seu instagram o quanto você é feliz. Viver incapaz de celebrar a própria vida quando ninguém está olhando.

Isso cria um tipo de felicidade artificial que nos escraviza. Você é escravo da sua necessidade de ser aceito e admirado. Quem disse que você precisa ser brilhante? Quem disse que você precisa ser qualquer coisa diferente do que você já é? O momento que você não se importar mais em ser interessante será o momento no qual você se tornará genuinamente livre. Livre para ser o que é, livre para ser o que quiser ser. E o mais interessante disso tudo é que somente depois de atingir esse estado de liberdade genuína é que você conseguirá despertar interesse autêntico dos outros em você. É só no momento que você não pede mais nada que o universo derrama toda a sua abundância na sua existência.

Eu sempre procurei encher a minha vida com relacionamentos. Amigos, namoradas, conhecidos, colegas, gente que eu queria que me adorasse o tempo todo.

O que eu aprendi estando sozinho durante essa viagem foi o seguinte:

Primeiro fique sozinho. Procure entender como você se sente quando todas as pessoas vão embora e ninguém está olhando. Se perceba. Entenda como aproveitar a própria companhia, o tempo todo. Aprecie as coisas que te rodeiam e procure se entreter com as coisas simples que acontecem à sua volta. Procure observar seus próprios comportamentos e pensamentos de longe, como alguém que assiste a um filme. Divirta-se sozinho, faça piadas das quais você mesmo possa rir. Dance sozinho. Cante no chuveiro quando não tiver ninguém em casa. Aprenda a se bastar. Quando todas as pessoas à sua volta forem embora e você gostar de verdade de quem sobrou, aí sim você está preparado para ter um relacionamento. Somente depois de ter um ótimo relacionamento consigo mesmo é que você pode ter um relacionamento saudável com alguém. Não como duas metades que se completam, mas como dois inteiros que compartilham uma mesma jornada.

Um amigo me ligou no final do dia e me perguntou como tinha sido o dia do meu aniversário. Respondi que foi o aniversário mais significativo que já tive na minha vida, e passei a maior parte do meu tempo arrumando camas e deitado sozinho na grama. Eu escolhi criar o meu próprio dia perfeito e espero que possa repetir a dose em todos os dias do meu viver. Para mim, as coisas são como diz Shakespeare em ‘O Menestrel’: “Plante o seu jardim e decore a sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.”

A grama que me serviu de cama durante a minha festa

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