Amanhã, amanhã, amanhã: a postergação do ser


Uma das características do nosso tempo é a realocação da felicidade para amanhã. Aliás, não é só da felicidade. Buscamos viver intensamente o hoje que temos dramaticamente tentado adiar para a amanhã muitas das decisões importantes da vida. Como aquela visita ao amigo de infância, aquela conversa com os pais sobre coisas que queríamos ter dito e não dizemos ainda. Ou aquele elogio sem medo para alguém muito próximo. E tem aquele desaforo que calculamos milimetricamente cada passo para jogar na cara do nosso inimigo – que nem sabemos tão ao certo porque nos tornamos inimigos.

Empurramos para um idílico amanhã. Amanhã seremos felizes, amanhã resolveremos os problemas, amanhã faremos as pazes, amanhã compraremos aquele livro interessante, amanhã leremos aquele que compramos dois anos atrás. Amanhã vamos dizer “eu te amo”. Amanhã começaremos a caminhar, a fazer exercícios físicos, as aulas de inglês, de violão. Amanhã, amanhã, amanhã.

E vivemos quase automaticamente o hoje, este momento de leitura, a nossa ida ao trabalho, nossas reuniões sociais, nosso cotidiano de trabalho. Quase automaticamente por que de alguma forma um certo sentimento de culpa ainda nos alerta para o modo como estamos sendo. Uma cacofonia, eu sei. Mas estamos sendo – porque não creio que sejamos plena ou totalmente, estamos em um contínuo processo de ser. O que importante nessa breve reflexão, não diretiva, nem de auto ajuda, nem proposta de vida melhor, é analisar como estamos realocando nosso ser para um amanhã que nunca chega. Procrastinamos no hoje, através de inúmeras atividades, para dar a sensação de muita coisa feita enquanto postergamos o essencial, o simples, o que nos faz bem. E quando digo “nos faz bem” me refiro aquilo que nos constitui e não meramente nos dá sensações de bem-estar.

Outra pergunta que caberia: e se esse amanhã chegar?