Faixa a Faixa: “Loki?”, de Arnaldo Baptista

Depois de escutar, conhecer, ler (é, música também se lê), e cair de cabeça no mundo de Arnaldo Baptista, acredito ainda mais que este álbum merece ser ouvido por muitos e interpretado por cada um, da sua maneira, o que vier a cabeça, assim como fiz a minha.

Antes de escutar o álbum, podemos entender que a palavra Lóki seria uma gíria ou então nos fazer lembrar do vilão da Marvel, criado por Stan Lee. E ainda, para os interessados em história, podemos relacionar ao deus Loki da mitologia nórdica.

O nome foi escolhido pelo próprio Arnaldo por ser chamado de loki por muitas vezes em locais públicos, mas ele também se inspirou na mitologia: o deus Loki, que podia assumir qualquer forma, além de ser travesso e ligado a magia.

Capa do álbum Loki?

Na época que o disco foi gravado, Arnaldo era visto como um louco, um lóki, ou lóque, como preferir. Inclusive essa também era a interpretação de seus companheiros de banda e irmão, Sérgio Dias.

Um cara à frente de todos, querendo apenas expressar a música de sua forma, se tornando uma espécie de vilão do seu tempo, por pressionar as teclas do seu órgão Hammond, ao seu jeito, sem imitações, sem cópias e sem agradar ninguém. Para mim, se tornou único nesse estilo, mas infelizmente não foi muito reconhecido no período de lançamento. Só depois de muitos anos que ele e o trabalho ganharam força.

Arnaldo queria tanto tocar à sua maneira que, após o fim de Os Mutantes, decidiu buscar suas aspirações, e foi aí que criou um dos álbuns mais cultuados em nossa querida música brasileira. Em 1974, Arnaldo Baptista, com 26 anos, lançou Lóki?, um disco para ouvir, pensar, chorar, se deprimir e, ao mesmo tempo, sorrir e se encontrar em diversos momentos dentro das 10 faixas.

O trabalho foi construído logo após a sua saída de Os Mutantes e a separação com a Rita Lee. Momento pesado, portanto fácil de se identificar com as músicas. Arnaldo, mesmo sendo louco, vilão ou deus, teve os seus sentimentos conturbados pelas mudanças ocorridas. Apesar de ter gravado com Liminha e Dinho Leme, baixista e baterista de Os Mutantes, e a própria Rita, como backing vocals. O disco serviu como uma ruptura, o separando da antiga banda.

A capa também não foi escolha do próprio e a interrogação no final da palavra Lóki?, foi uma espécie de pergunta sobre a loucura do gênio ou genialidade do louco. A interpretação também pode ser sua, que ao escutar faixa a faixa pode se alterar de acordo com algumas canções.

Contra-capa do álbum com a estátua de um anjo que Arnaldo diz ter roubado do Cemitério do Araçá (SP). E que levou para Cantareira, que segundo Rita fatos estranhos aconteceram depois da chegada do anjo.

01 - Será Que Vou Virar Bolor?

A música número 1 do álbum já é um soco no ouvido dos que gostam de um som mais leve e sincronizado. Os dedos afinados tocam e expressam sua solidão com o título “Será que vou virar bolor?”, buscando até mesmo o seu disco voador para fugir um pouco da conturbada vida pós Mutantes e separação.

Ele vai se “apegando as coisas materiais” porque é assim que ele não irá “morrer de dor”. E a tal Cantareira que ele quer voltar, é a Serra onde seus amigos tinham casa para que os Mutantes pudessem se encontrar, escrever e ensaiar.

A música cresce e finaliza com um peso nas teclas do piano de Arnaldo.

02 - Uma Pessoa Só

Uma música para escutar deitado, num gramado, olhando o céu e sentir a mesma solidão que Arnaldo Baptista sentiu. Ele está reunido com todos dentro dele “numa pessoa só”, um “só” de sozinho ou “só” de solidão. Ele é “começo e o fim”, deste reencontro que nunca aconteceu onde ele gostaria de ter todos de volta, mas sabe que “também estão tocando”. E o que nos sobra numa solidão? Apenas “pescar pessoas no mar”…

Essa música foi composta ainda com os Os Mutantes, e está no álbum da banda “A e o Z”. Com todos morando juntos na Serra da Cantareira, eles acreditavam ser “uma pessoa só”.

03 - Não Estou Nem Aí

O piano mais uma vez é o protagonista de uma música bem armada, que cresce ao decorrer dos minutos e fica mais rápida para “decolarmos toda manhã”. A voz de Arnaldo se exalta com sussurros e vontade de gritar. Ele “não está nem aí pra morte”, talvez pelo uso de drogas, talvez pela sua loucura. Rita Lee faz participação nos backing vocals.

O seu título é uma referência à sua saída da banda.

04 - Vou me Afundar na Lingerie

Quando temos a solidão como companheira, não é difícil se entregar aos desejos materiais, drogas ou até mesmo se “afundar numa lingerie” de uma bela mulher. Ele diz que “perdeu a cabeça”, mas a sua criação para letras e arranjos ainda continua estupenda. O fairlane 500, carro que ele, Rita Lee e Sérgio Dias utilizavam, ficou registrado nesta faixa.

Rita Lee, por hora fazia alguns desfiles para a fabricante de fios sintéticos Rhodia, desfile este estes que Arnaldo cultuava e via ali um romantismo único de Rita e os manequins da época. Surgindo assim, o título desta faixa.

05 - Honky, Tonky (Patrulha do Espaço)

Rápida, doce, linda e um tapa na cara dos críticos e colegas da época, que simplesmente tachavam Arnaldo de louco. Uma música sem letra, mas neste caso, para que letra? Escutar este piano harmônico com ritmos sincopados te faz flutuar.

Assim como o plano de Arnaldo em criar uma nave espacial, e convidou seu amigo e pintor italiano Antonio Peticov, para ser o capitão da nave.

06 - Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?

A música lado A, de um disco lado B. Acho que não precisamos dizer muito para entender uma canção que reflete aquele momento em sua carreira e vida pessoal. Mostrando que “andaram e queimaram muita coisa por aí” mas estavam sempre “reunidos numa pessoa só”. E escutando “Cilibrinas” do Éden, grupo formado por Rita Lee e Lucinha Turnbull logo após a saída dela dos Mutantes.

Quantas perguntas como o título dessa música ele teve que fazer a si mesmo, aos amigos e a família? Num ritmo leve e crescente, ele perguntou mais e mais.

07 - Desculpe

Prepare os lenços para soluçar com essa música. Será que este era um claro pedido de desculpas a Rita Lee, pelo seu uso de drogas excessivas, por “sentir o barato de todos os tempos”? Ele realmente “não era perfeito”, mas acho que se ele fosse tão perfeito não tocaria um órgão tão hipnotizante ao fundo, para tentar fazer sentir o mesmo “barato” que ele sentia. E viajar no seu tempo.

E “Riiiii” é pronunciada após estes versos.

08 - Navegar de Novo

Na canção mais longa do álbum, o piano solo e a voz de Arnaldo Baptista podem sair do seu mundo e mostrar que estava ligado as questões sociais. Sem rimas e versos casados, ele realmente descreve o seu desejo de “confiar num Brasil ainda criança” que não consegue organizar o seu crescimento com “núcleos habitacionais” e que um simples passeio “está muito caro”.

Uma esperança do próprio Arnaldo em seu país.

09 - Te Amo Podes Crer

Mais uma vez uma trilha para uma verdadeira fossa, em que o seu piano moog deixa-a mais charmosa e ainda mais emocionante no solo. Emocione-se com a letra, mas também com as belas notas que Arnaldo criou para sincronizar a harmonia da música com versos tão fortes: “esperando o apocalipse para tentar encontrar” a saída de um momento difícil em sua vida.

E a sua própria reencarnação que ele acreditava ser necessária naquele momento.

10 - É Fácil

O que seria fácil para Arnaldo nestes anos de depressão e fim dos Mutantes? Ele demonstra claramente na letra e no seu violão de 12 cordas que ele “se ama” e que será “fácil” sair dessa. Batidas fortes e dedilhados desenfreados fecham um álbum que seria o início da sua vida não tão fácil dali pra frente.


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